Recentemente, propus a hipótese de que, por trás do sucesso do drama de época televisivo britânico, está a nostalgia de um obstáculo bondoso, isto é, de uma ordem que tenha tanta credibilidade que aqueles que estão dentro dela julgam-na mais importante do que seus desejos individuais.

Para grande parte desse público, a credibilidade dos dramas de época, por sua vez, é derivada da credibilidade da ordem que o público julga existir em algum medida na sociedade britânica, ordem essa que seria representada pela monarquia — que, junto com a igreja, representaria o anacronismo mais patente da vida moderna e democrática.

Contudo, se ampliarmos a escala histórica e pensarmos nas monarquias em geral antes das revoluções burguesas, veremos que os aristocratas estão longe de ser os guardiães de uma ordem moral transcendente. Não apenas Stendhal observava, como se sabe, que “a vida era doce” na França antes da Revolução, como a Restauração da monarquia na Inglaterra trouxe de volta, digamos, a alegria. Para resumir (muito) a situação, tínhamos uma classe de pessoas que acreditavam piamente em sua superioridade garantida pelo nascimento e que precisava de (muitas) válvulas de escape para os compromissos que tinha de assumir (como casar-se para enriquecer ou para manter um patrimônio).

Aristocratas Imitando Burgueses

Existem bons motivos para supor que a visão da aristocracia como guardiã moral da sociedade seja mais moderna ainda do que as revoluções que derrubaram essa aristocracia. Na p. 151 de Mentira Romântica e Verdade Romanesca (São Paulo: É Realizações, 2011), lemos as seguintes palavras de René Girard sobre a aristocracia francesa:

O aristocrata procura se distinguir porque deixou de ser distinto. E ele o consegue perfeitamente, mas só isso não basta para deixá-lo mais nobre. É fato, por exemplo, que a aristocracia, durante a monarquia constitucional, tornou-se a classe mais digna, mais virtuosa da nação. Ao grande senhor sedutor e despreocupado da época de Luís XV sucedeu o gentil-homem carrancudo e rabugento da Restauração. Essa figura aflitiva vive em suas terras, ganha dinheiro, dorme cedo e consegue até, ó, que horror, economizar. Mas o que significa esta moral austera? Trata-se de fato de um retorno às “virtudes ancestrais”? Os jornais ortodoxos vivem repetindo-o, mas não se deve acreditar neles. Essa sabedoria inteiramente negativa, sombria e mal-humorada tem um estilo sobremaneira burguês. A aristocracia quer provar aos Outros que ela “merece” seus privilégios, é por isso que ela toma sua moral de empréstimo à classe que contesta sua reivindicação. Mediada pelo olhar burguês, a nobreza copia a burguesia sem sequer se dar conta disso. A revolução, comenta sardonicamente Stendhal em Memórias de um Turista, deu à aristocracia francesa os costumes da democrática e protestante Genebra.

Todavia, o trecho citado se refere principalmente à época de Stendhal e de Flaubert. De meados do século XIX para a virada do milênio, parece que muita coisa mudou, ao menos na Inglaterra. Há quem julgue, por exemplo, que a monarquia britânica é mantida para alimentar o turismo — o que faria com que um monarca dos velhos tempos mandasse preparar a pior cela da masmorra para o autor dessa sugestão. O que se mantém do trecho citado, além da expectativa de absoluta respeitabilidade que paira sobre os aristocratas, é que — especialmente se algo dos impostos é dirigido para sua manutenção — eles demonstrem “merecer” seus privilégios.

A Rainha, de Stephen Frears

Nesse sentido, vale a pena determo-nos brevemente no filme A Rainha, de Stephen Frears. O filme mereceria um estudo girardiano aprofundado, mas por ora deixemos o convite à reflexão.

O filme conta a história de como a rainha Elizabeth II foi convencida — intimidada, como Édipo, na leitura feita em A Violência e o Sagrado? — a manifestar-se a respeito da morte de Diana Spencer, chamada no filme (e na Inglaterra) de “a princesa do povo”. A rainha inicialmente diz que, como Diana separou-se do príncipe Charles, não é mais membro da família real, e, por isso, seu funeral é um assunto privado de sua família. Charles e o primeiro-ministro Tony Blair opõem-se e pedem que a rainha se manifeste publicamente a respeito da morte. O mais importante, como ressalta o político eleito Blair, é a popularidade. A rainha coloca a monarquia em risco se não demonstrar ser… popular. Ela própria, no filme, demonstra formular a questão nos tradicionais termos de antiga ordem (fortaleza, reserva) versus nova ordem (sentimentalismo, espontaneidade).

No final, como se sabe, a rainha faz um pronunciamento pela TV e participa do funeral de Diana, feito como se ela fosse membro da família real — mas também com a participação do popularíssimo cantor Elton John.

Diana Spencer era popular por que parecia popular? Mas, com isso, ela poderia justificar que “merece” seus privilégios? Ou é a rainha que precisa justificar-se?

O sentimento de uma branda tragédia que permeia o filme (cujo centro, ressaltemos, não é a maneira abjeta como Diana morreu, literalmente perseguida) talvez sugira que, se o público quer ver uma ordem bondosa a que personagens cedem de bom grado, sem ressentir-se, ela precisa também estar localizada num tempo suficientemente distante.