Anorexia e Desejo Mimético

Um livro pequenino que serve como ótima introdução ao pensamento mimético, ao estilo da análise mimética, é Anorexia e Desejo Mimético. René Girard, Mark Anspach (cujos artigos já foram publicados neste blog, e cuja introdução ao volume Oedipus Unbound é primorosa), e Jean-Michel Oughourlian dão voltas em torno do tema da anorexia. Digo “dão voltas” porque o tema é analisado em si, mas também serve como eixo para analogias.

No prefácio, Oughourlian discute especificamente a anorexia do ponto de vista psicológico, enfatizando o que há nela de rivalidade:

Rivalidade com quem ou com quê? Antes de tudo, consigo mesma, com seu corpo, com suas necessidades, num esforço de dominação e de controle de si que seria, ao mesmo tempo, um desafio e uma forma de ascese. Mas também rivalidade com os outros, luta pelo poder: a anoréxica torna-se muito rapidamente o centro da atenção familiar, e seu prato torna-se uma espécie de circo romano onde se enfrentam os desejos rivais dos que a rodeiam – e que querem que ela coma – e seu próprio desejo, sua recusa, que deixa sem respirar toda a família envolvida nesse combate cotidiano que termina com o recurso ao “poder médico”, que manifestará a derrota e a renúncia de seus pais e o aparecimento de um adversário enfim à sua altura.

Em outra parte do livro, Girard mostra como a bulimia nervosa pode ser uma chave para interpretar a cultura contemporânea:

Certamente, tudo parece ultrapassado na medida em que nossa cultura pós-moderna renuncia ao princípio da novidade a qualquer preço, substituindo o fetichismo da inovação por um ecletismo caótico. Mas, longe de reabilitar a piedosa e paciente imitação dos clássicos, o pós-modernismo se assenhoreia insolente e indolentemente de tudo o que encontra no passado, sem seguir nenhum critério discernível e sem nos fornecer esses víveres nutritivos que nos faltam cruelmente. A nova escola nega implicitamente qualquer valor permanente ao passado de que extrai tudo. Ela regurgita rapidamente tudo o que ingurgita tão indiferentemente. Sou muito tentado a reduzir tudo isso ao equivalente estético não da anorexia desta vez, mas dessa síndrome da última moda, a bulimia nervosa. Tal como nossas princesas, nossos intelectuais e artistas estão alcançando o estágio bulímico da modernidade. (p. 71)

Imperdível também é o prefácio de João Cezar de Castro Rocha, organizador da coleção, que faz um paralelo com a noção de anorexia discutida no livro e… o famoso conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca!