“O

O Tempo das Catástrofes


Jean-Pierre Dupuy estará no Rio para dar amanhã (25/10) uma palestra no ciclo Mutações, que será repetida no dia 27 em São Paulo. As informações sobre como assistir nos locais podem ser consultadas neta página. Quem for precisa adquirir por R$ 60 ou por R$ 30 (meia para estudantes) o acesso ao ciclo inteiro. O ingresso precisa ser comprado pelo site.

Por outro lado, na homepage do site do ciclo, há informações sobre como ver as palestras ao vivo pela internet.

A Biblioteca René Girard publicou O Tempo das Catástrofes, de Jean-Pierre Dupuy.

Abaixo, o resumo da palestra a ser dada.

Congresso Internacional do Medo: Quando o Medo é Bom Conselheiro

Jean-Pierre Dupuy

Sabemos hoje que o humanismo orgulhoso que dá ao mundo moderno seu dinamismo extraordinário põe em perigo a continuação mesma da aventura humana. Vivemos a partir de agora à sombra das catástrofes futuras que, dispostas em sistema, provocarão talvez o desaparecimento da espécie. Nossa responsabilidade é enorme, já que somos a única causa do que nos acontece. Mas o sentimento de nossa responsabilidade tem todas as chances de fazer aumentar desmedidamente o orgulho inicial. Convencidos de que a salvação do mundo está em nossas mãos e de que a humanidade deve ser sua própria salvadora, corremos o risco de nos precipitar sempre mais nessa fuga para diante, nesse grande movimento pânico a que se assemelha cada vez mais a história mundial.

Essa conferência tem por objeto reabilitar e fundar de novo a posição do profeta da desgraça na comunidade humana. O profeta da desgraça não é ouvido porque sua palavra, mesmo se traz um saber ou uma informação, não entra no sistema das crenças daqueles a quem se dirige. Não basta saber para aceitar o que se sabe e agir de maneira consequente. Mesmo quando sabemos de fonte certa, não conseguimos acreditar no que sabemos. Sobre a existência e as consequências dramáticas do aquecimento climático, há mais de um quarto de século os cientistas sabem que posição tomar e fazem conhecer essa posição. Eles pregam num deserto.

Para tentar explicar o fato de que muitos judeus da Europa recusaram até o extremo fim, mesmo estando em Auschwitz-Birkenau, acreditar na realidade do extermínio industrial, Primo Levi cita um velho adágio alemão: “As coisas cuja existência parece moralmente impossível não podem existir”. A capacidade de nos cegarmos frente à evidência do sofrimento e da atrocidade é o obstáculo principal que o profeta da desgraça deve enfrentar.

Segundo o filósofo alemão Hans Jonas, é apostando no medo que deveríamos sentir, mas não sentimos, que buscaremos uma solução diante das catástrofes anunciadas. É o que faremos no caso de ameaças como a guerra nuclear, a mudança climática, os riscos industriais e tecnológicos que vão dos acidentes de centrais nucleares até os perigos ligados ao desenvolvimento das nanotecnologias ou da inteligência artificial. Demonstraremos que a razão pode e deve se alimentar do medo, mas não de qualquer medo: não o que nos apavora e nos impede de pensar e agir, mas sim o medo simulado, intelectualizado, imaginado, que nos mostra o que tem valor, está sob risco de perda e deve ser conservado. Pois, como nota Günther Anders, outro intelectual alemão de primeira importância, o verdadeiro pensamento progressista hoje não é mais o da revolução, mas o da preservação daquilo que a história humana nos legou.