Nassim Nicholas Taleb, sem dúvida um pensador da moda, vem repetindo na internet a noção de que é importante ter “skin in the game”, expressão cuja melhor tradução não cabe num blog respeitável como este. Literalmente, é “pele no jogo”. O que Taleb quer dizer é que sua perspectiva muda quando você tem algo precioso a perder numa determinada situação; daí que ele critique intelectuais e jornalistas que teçam comentários sem considerar a perspectiva dos envolvidos.

Em 1972, em A Violência e o Sagrado, Girard apresentava a mesma crítica. (Na verdade, a compreensão da teoria mimética apresentada em 1961 já passava pela compreensão do próprio mimetismo.) Na passagem citada abaixo, tirada do segundo capítulo, e traduzida diretamente do original francês recolhido na edição digital de De la Violence à la divinité, com cotejos com o inglês (suspeito que Girard tenha revisado e melhorado a tradução inglesa), Girard se refere ao livro de Jules Henry sobre os índios Kaingang de Santa Catarina. Literalmente, skin in the game:

Mesmo que formulemos certas reservas sobre o exemplo preciso que ele [Jules Henry] nos oferece, as conclusões do etnólogo aplicam-se a diversos grupos humanos sobre os quais nada sabemos:

“Este grupo, cujas qualidades físicas e psicológicas tornavam-no perfeitamente capaz de triunfar sobre os rigores do ambiente natural, foi no entanto incapaz de resistir às forças internas que deslocavam sua cultura, e, sem dispor de nenhum procedimento regular para controlar essas forças, estava cometendo um verdadeiro suicídio social” (p. 7).

O medo de morrer se não matar primeiro, a tendência a “antecipar-se”, análoga à “guerra preventiva” dos modernos, não pode ser descrita em termos psicológicos. A noção de crise sacrificial destina-se a dissipar a ilusão psicológica. Mesmo quando seu linguajar é o mesmo da psicologia, Jules Henry não compartilha dessa ilusão. Num universo privado de transcendência judicial e entregue à violência, todos têm motivo para temer o pior; toda diferença se apaga entre a “projeção paranoica” e a avaliação friamente objetiva da situação (p. 54).

Uma vez que essa diferença é perdida, toda psicologia e toda sociologia fracassam. O observador que distribui aos indivíduos e às culturas as marcas boas e más do “normal” e do “anormal” precisa definir-se como um observador que não corre o risco de ser morto. A psicologia e as outras ciências sociais, “nas perspectivas ordinárias, supõem um fundamento pacífico tão natural aos olhos de nossos cientistas que sua presença mesma lhes escapa. E no entanto nada em seu pensamento, que se pretende radicalmente “desmistificado”, duro como ferro, desprovido de qualquer salamaleque idealista, autoriza ou justifica a presença desse fundamento.