Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Os Pés da Vítima

por Christiano Galvão

Qualquer leitor de Sófocles dirá, sem hesitação, que os reveses trágicos da vida de Édipo foram precipitados pela descoberta do parricídio e do incesto. Ledo engano! Édipo só se convence de haver cometido parricídio e incesto quando descobre que seus pés defeituosos e inchados são a única evidência concreta do parentesco com Laio e Jocasta. Todo o resto sobrevém como dedução. Nem as acusações do clarividente Tirésias, nem o testemunho do pastor que presenciara o assassinato de Laio (e que sequer apareceu para confirmar se fora Édipo o assassino), tiveram a mesma relevância daqueles pés, cuja deformidade bastava para distingui-lo como a criança fatal predita pelo oráculo de Apolo.

Essa “diferença” física era tão determinante para garantir a imputabilidade de qualquer suspeita ou culpa, que Sófocles teve o cuidado de destacá-la ao longo de todo o texto, e não apenas no nome do protagonista. Com efeito, o scholar Simon Goldhill, catedrático em filologia grega do King’s College of Cambridge, demonstrou que o antigo dramaturgo recorreu a vários parônimos das palavras que compõem o nome de Édipo – Oedi (Οἰδί: inchado), Pus (πους: pés) –, criando amiúde rimas e trocadilhos, como se quisesse fixar a atenção do público nessa deformidade1. Tirésias, por exemplo, vaticinando a desgraça iminente, refere-se a Édipo como deinopus (δεινό-πους), isto é, “pés malditos” (v. 418). Curiosamente, essa palavra foi omitida nas traduções para o português, e só aparece como “terrible-footed” numa tradução americana feita por Thomas Fauss Gould. Outro trocadilho expressivo ocorre quando Jocasta faz oferendas para obter um esclarecimento divino, e escuta um mensageiro dos pais adotivos de Édipo chegar à sua porta dizendo: Senhores, façam-me saber onde fica o palácio de Édipo. Ou mesmo onde agora ele se encontra, caso saibam. No texto original da tragédia, essas sentenças compõem uma estrofe cuja rima é igualmente marcada pelo lexema pus (πους):

Façam-me saber (μάθοιμ᾽ ὅπους)

o palácio de Édipo (ἐστὶν Οἰδίπους)

caso saibam (κάτισθ᾽ ὅπους)2

Noutros versos ocorrem junções entre os lexemas Oidâ (Οἰδα: eu sei) e Pou (που: onde), num trocadilho claro com o nome Oedipus (Οἰδί-πους), dando a impressão de que bastaria ao protagonista contemplar os pés, ou reparar no próprio nome para “saber onde” radicava-se a causa de seus infortúnios. A propósito, o filólogo helenista sugere que tais assonâncias, só perceptíveis no original grego, permitiram a Édipo decifrar o enigma da Esfinge – que mesmo não figurando na obra de Sófocles, mas na Biblioteca de Apolodoro, também se constitui de um jogo de palavras relacionado aos pés: Qual o animal que, possuindo voz, anda pela manhã com quatro pés (tetrapus: τετράπους), ao meio-dia com dois pés (dípus: δίπους), e ao entardecer com três pés (trípus: τρίπους)?3… Pela repetição do lexema pus (πους), logo se compreende porque Édipo – na condição de trípus, escorando-se num bastão por causa dos pés aleijados – não teve a mínima dificuldade em matar a charada.

No ensejo, seria bom recordar que Édipo não é o único herói mitológico cujos pés vulnerados prenunciam sinas terríveis para si e/ou para outros. Sófocles também nos conta a tragédia de Filotete, o jovem argonauta que, após ter um dos pés picado pela serpente da deusa Crise, foi excluído de sua tripulação e abandonado à própria sorte na ilha de Lemnos. Dos tornozelos de Zeus (mutilados para que ele não matasse seu pai Cronos) até o calcanhar de Aquiles, é possível rastrear uma ampla variedade de pegadas disformes. E a insistência dos autores clássicos em destacar tais deformidades vem confirmar aquilo que René Girard denomina de “estereótipos persecutórios”4, ou seja, traços de seleção vitimaria que resultam de um excedente de “diferença”.

Todo grupo social, diz Girard, estrutura-se em diferenças que são protegidas por interditos ou tabus, cuja função é evitar o risco de comportamentos perigosamente miméticos e, por conseguinte, de uma nova crise de indiferenciação. Mesmo nos grupos mais diminutos e primitivos há a observância de diferenças etárias, parentais, e sexuais, que constituem formas elementares de hierarquia, e desde as quais se padroniza todo o ordenamento social. Nessas circunstâncias, qualquer “diferença” que não demonstre proveito para a coletividade passa a ser vista como uma inesperada quebra de padrão, e seu portador como um indivíduo fatalmente inadaptável à ordem preestabelecida. Entretanto, pela méconnaissance da mímesis, essa lógica é vista de uma perspectiva invertida, ou seja, não se trata de admitir que todos possam ser diferentes desde que ninguém seja mais diferente do que os outros. Os grupos arcaicos não viam um excesso de diferença, mas uma ausência, ou melhor, uma privação: Não é um outro ‘nomos’ que se vê no outro, mas a anomalia; não é uma outra norma, mas a anormalidade5.

O anormal polariza assim todas as inquietações do grupo, figurando como uma criatura falhada, liminar e, portanto, apta a ocasionar situações deletérias. Essa hipótese girardiana se reforça pela constatação de que algumas figuras mitológicas não precisavam ter os pés lesionados, mas tão somente expostos. Neste sentido, os vários relatos e representações de entidades arcaicas tendo apenas um dos pés calçados atestam melhor a percepção da anormalidade como privação, e não como excesso de “diferença”. Ter só um dos pés calçados produz o mesmo efeito de assimetria e desequilíbrio de um pé defeituoso. O estereótipo persecutório manifesta-se então pela claudicação, que sinaliza a quebra do padrão diferenciador. Tome-se como exemplo o mito de Jasão, sobre quem foi profetizado que, com um dos pés descalços, haveria de matar o próprio tio, o rei Pélias. Na versão de Píndaro, conta-se que logo ao nascer Jasão é falsamente declarado natimorto, depois abandonado no rio Anauros de onde será salvo pelo centauro Quíron. Ocorre que, durante o salvamento, Jasão perde uma das sandálias, e assim passa a conviver com o monstro que se torna seu tutor6. Nas versões de Hesíodo e de Apolodoro7, Jasão perde uma das sandálias na perigosa expedição em que, liderando os argonautas, rouba o velocino de ouro e retorna à terra natal para matar o tio. Malgrado as variantes narrativas, a profecia se cumpre e o estereótipo persecutório – a claudicação decorrente do pé descalço –, que parece um dado supérfluo e negligenciável, é cuidadosamente preservado. Enredo similar ocorre no mito de Perseu: um oráculo diz que matará o avô, Acrísio; ao nascer é lançado ao mar, mas depois é salvo e criado numa ilha, onde lhe é imposta a tarefa de eliminar a górgona Medusa; nessa empreitada, ele recebe ajuda das ninfas que o presenteiam com um escudo, e do deus Hermes que o presenteia com uma de suas sandálias; munido desses dons ele decepa a cabeça da górgona, torna-se herói e volta para a ilha onde, durante um torneio de discos, atinge e mata acidentalmente um dos reis convidados, que depois ele descobre ser seu avô Acrísio8.

As semelhanças flagrantes entre os mitologemas de Édipo, Filotete, Jasão e Perseu evidenciam que o pé (defeituoso ou descalço) é um estereótipo axial em torno do qual se apoiam outros estereótipos secundários, compondo enredos quase similares: todos são crianças fatais que, segundo os oráculos, ocasionarão a morte de um parente (pai, mãe, tio, avô, irmão, etc.); todos são expulsos de seu grupo (família, tripulação, cidade, etc.); todos são criados e/ou favorecidos por criaturas animalescas, monstruosas, elementais; todos são astuciosos e já incorreram em algum crime (trapaças, roubos, homicídios, etc.) que resultou num bem depois revertido num mal. Enfim, por esta breve lista de estereótipos já é possível perceber como a privação de “diferença”, denotada inicialmente pelos pés, acentua o caráter dúbio que faz esses heróis anormais oscilarem entre o humano e o inumano, entre o lícito e o ilícito, entre o benigno e o maligno, e, por conseguinte, os predispõe a anulação de outras diferenças, sobretudo as parentais, etárias e sexuais (daí as acusações de parricídio, incesto, etc.).

Claude Lévi-Strauss foi quem primeiro percebeu e definiu o pensamento mítico como “uma espécie de bricolage intelectual”, ou seja, uma nova construção a partir de elementos preexistentes9. Neste mesmo sentido, o etnólogo russo Vladimir Propp declarou-se convicto de haver uma lógica, todavia incógnita, para a combinação desses motivos recorrentes (tanto nas fábulas populares como nos mitos clássicos), que provavelmente teriam uma raiz comum10. Propp ainda chegou a sugerir “esquemas estereotipados” que se decompostos em seus motivos básicos revelariam afinidades inusitadas entre narrativas distantes no tempo e no espaço11. Mesmo assim, ele ignorava qual seria o denominador comum dessas afinidades. Da perspectiva do mecanismo vitimário, certamente ambos poderiam compreender essa lógica, verificando que os estereótipos quase sempre tendem a uma perseguição.

Para melhor esclarecer esse mecanismo, René Girard diz que quando se hesita em reconhecer um estereótipo persecutório em tal ou tal traço particular de determinado acontecimento, não é preciso procurar resolver o problema apenas no nível desse traço, isolado de seu contexto, mas é preciso se perguntar se outros estereótipos lhe estão justapostos12. Somente com essa estratégia hermenêutica pode-se verificar que a ordem dos estereótipos não altera o desígnio de perseguição.

É o que ocorre, por exemplo, na fábula d’A Gata Borralheira. O título, de imediato, sublinha a condição de pária da protagonista, que logo é reafirmada por seu nome que, tal como o de Édipo, tem uma conotação derrisória: Cenerentola, Cendrillon, Cenicienta, Cinderela, etc. – apesar das variações linguísticas o nome preserva as “cinzas” que aludem ao aspecto sujo, resultante das baixas ocupações a que ela, como serva, vivia exposta. Aliás, segundo os irmãos Grimm, no francês e no inglês optou-se, respectivamente, pelos radicais cendre e cinder (ao invés de gris e gray) porque ambos mantém o sentido de “escória”, comum tanto no latim (cinis) como no germânico (sendhro ou sinder), e que designava a mistura de fuligem, gordura e sangue coagulado que restava dos assados nas lareiras13. Eis então o primeiro estereótipo persecutório da Gata Borralheira, e a partir do qual se desdobram vários outros que, independente da versão e da língua, acentuam uma condição anormal de “não pertencimento”: a) ela só tem parentes por afinidade (madrasta, meias-irmãs); b) ela suscita más reciprocidades; c) ela só conta com a afeição dos animais; d) ela é culpada de algum delito (na sexta novela do Pentameron de Basile, que é a versão impressa mais antiga d’A Gata Borralheira na Europa, a Cenerentola mata sua primeira madrasta, golpeando-lhe a cabeça com a tampa de um baú! Este detalhe sinistro foi suprimido nas versões mais modernas, como a de Charles Perrault e a dos Grimm); e) ela rompe as interdições e desforra-se das rivais com recursos sobrenaturais (os ossos dos animais mortos por suas meias-irmãs, os frutos da árvore que cresce no túmulo de sua mãe, a fada madrinha, etc.); e, por fim, o detalhe crucial, f) ela depende de um calçado perdido (sandália de veludo, sapato de cristal) para reverter as circunstâncias de exceção a que está sujeita.

Os traços de seleção vitimária esquematizados nessa fábula são tão evidentes quanto sua finalidade persecutória, fato que poderia ser explicado pelo embotamento da méconnaissance mítica no contexto de uma mentalidade já cristianizada. Não obstante, até mesmo nas versões atenuadas, essa fábula apresenta um revanchismo residual que se faz notável pela inversão de papéis entre perseguido e perseguidores. Sintoma, talvez, de uma violência latente em que os estereótipos persecutórios ganham uma sobrevida, não mais servindo para escamotear a violência do perseguidor, mas antes para provocá-la, desencadeando assim um novo ciclo de retaliações no qual ele poderá sucumbir como vítima substitutiva. Mediante a tentação do ressentimento, tal suposição jamais será descabida.

Muito possivelmente, foi visando não só a violência implícita dos mitos, mas também a violência dos ressentidos, que a Igreja de Creta concebeu um ícone do tipo hodegetria (ou seja, daquela que indica o Caminho), em que a Virgem Maria expõe o menino Jesus tendo apenas um dos pés calçados. Embora se desconheça a data e o autor deste ícone, então denominado de “Mãe de Deus da Paixão” (Theotókos tou Páthos: θεοτόκος του Πάθους), sabe-se que ele chegou à cristandade ocidental por duas vias: primeiramente, por meio de um comerciante italiano que, para evitar a depredação dos invasores turcos, contrabandeou-o da paróquia cretense para Roma, onde passaria à custódia da Ordem Redentorista com título de “Nossa Senhora do Perpétuo Socorro”. Posteriormente, quando Creta ficou sob o domínio de Veneza, os mecenas da poderosa família Morosini adquiriram vários ícones do pintor e monge Viktor Heraklion (hegúmeno do monastério de São João Mertzreoi na região cretense de Candia), dentre os quais constava uma cópia do ícone da Virgem da Paixão (ou seja, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro) circundado pelos seguintes palavras de Isaías: como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que anuncia a paz!… (52:7)14.

Trata-se de um dos versos que antecedem o quarto canto do Servo Sofredor e, aparentemente, enseja um acréscimo semiótico à representação do ícone. Pois a justaposição dos detalhes da pintura com os versos de Isaías permite perceber que vários estereótipos persecutórios ali convergem, porém ressignificando o papel da vítima. A sandália pendente do pé descalço prenuncia que aquela criança também foi marcada para padecer perseguição e morte violentas; por isso seu rosto se volta na direção do anjo que segura uma cruz, enquanto sua mãe olha para o outro que traz lança, vara e o cálice com a esponja amarga. São os instrumentos pelos quais ele testemunhará sua Paixão (daí o título grego do ícone). Mas, ao contrário dos congêneres míticos, o oráculo não o acusa de nada, antes o exalta, prenunciando-lhe a solidariedade gratuita para com todos os perseguidos, de modo especial aqueles que, em face das multidões, foram desfigurados e perderam o aspecto humano – ou seja, os privados de “diferença”, os anormais. E essas mesmas multidões e seus reis, diz ainda o oráculo, verão e compreenderão coisas que jamais lhes foram contadas, coisas até então inauditas para os padrões míticos: um servo sofredor que, depois de massacrado, renuncia à vingança, abole o ressentimento e volta para a reconciliação de todos. Conquanto seja apenas um exercício hermenêutico, tal hipótese poderia ajudar na compreensão de um pé exposto que, contrastando com seus protótipos arcaicos, é belo porque anuncia a paz, o perpétuo socorro para todos aqueles que a violência pode vitimar, quer seja o perseguido ou o perseguidor.

NOTAS

  1. GOLDHILL, Simon. Sophocles and the Language of Tragedy. New York: Oxford University Press, 2015. ↩︎
  2. Ibid. p. 217. ↩︎
  3. APOLLODORUS. The Library. trad. James George Frazer,1921(v. 3.5.8).< http://www.theoi.com/Text/Apollodorus3.html > ↩︎
  4. GIRARD. René. O Bode Expiatório. Trad. Ivo Storniolo. São Paulo: Paulus, 2004. pp. 18-32. ↩︎
  5. Ibid. p. 11. ↩︎
  6. PÍNDARO. Pythin Odes. Trad. William H. Race. Cambridge: Harvard University Press, 1997. vv. 108-116. ↩︎
  7. APOLLODORUS. Opus cit. vv. 1.9.8-28. ↩︎
  8. Ibid. vv. 2.2.1-39. ↩︎
  9. LÉVI-STRAUSS, Claude. La Pensée Sauvage. Paris: Plon, 1962. p. 26. ↩︎
  10. PROPP, Vladimir. Morfologia do Conto Maravilhoso. Trad. Jasna Paravich Sarhan. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1984. ↩︎
  11. Ibid. p. 52. ↩︎
  12. GIRARD, René. Opus cit. p. 29. ↩︎
  13. HAASE, Donald. The Greenwood Encyclopedia of Folktales and Fairy Tales. Westport: Greenwood Publishing Group, 2008. pp. 429-431. ↩︎
  14. < http://www.openarchives.gr/view/610977 > ↩︎

2 Comments

  1. Belíssimo texto! Surpreendente para mim essa leitura da história da Cinderela, sempre me passou batido esses traços vitimários. A conclusão com a referência a Jesus é perfeita!

  2. Robson, muito obrigado pela apreciação sempre generosa. Fico feliz que tenha gostado.

    Abraços,

    Christiano.

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