O Livro da Imitação e do Desejo

Vítor Hugo dos Reis Costa, email:victordafilosofia@gmail.com

É com a mais pura satisfação que encontramos estudos que apresentam, antes de nós e de maneira incomparavelmente melhor do que poderíamos fazer, nossas ideias, impressões e conclusões acerca daquilo que investigamos – sobretudo quando a investigação é realizada de forma tão apaixonada que faz simbiose com a própria vida.

Porém, quem conhece a prática da pesquisa acadêmica nas universidades — especificamente na área das humanidades, onde eventualmente as paixões são um ingrediente que condiciona e possibilita uma pesquisa autêntica — sabe que o sentimento de alegria diante da descoberta de uma obra que nos contempla e nos ultrapassa eventualmente vem acompanhado de uma discreta mancha de ciúme, de inveja, de rancor (isso na melhor das hipóteses). Porém, seja qual for o sentimento dessa constelação afetiva ressentida que acompanhe a apreciação de uma obra dessas características, será um sentimento agridoce: a beleza e a inteligência não raro adoçam, embelezam e redimem qualquer desejo de ser o autor de uma obra que, infelizmente, não é nossa.

Esse é meu sentimento diante de O Livro da Imitação e do Desejo, de Trevor Cribben Merrill.

O texto de Merrill, dividido em nove capítulos, é, segundo o que o próprio autor promete no subtítulo da obra, uma leitura de Milan Kundera com René Girard. Com e não por meio de. Ou seja: quem quer que folheie as páginas de O Livro da Imitação e do Desejo deve desistir de esperar uma vasta ou sistemática exposição do pensamento girardiano. Pelo contrário: deve, talvez, presumi-lo. Merrill, no máximo, nos oferece alguns delicados suportes textuais em que as ideias de Girard acerca da arte do romance podem ser vistas em suas simplicidade e profundidade. O livro, como o subtítulo promete, será um passeio pela vasta obra ficcional e ensaística de Milan Kundera com

René Girard – aliás, o autor da obra preferida de Kundera sobre a arte do romance: em Os Testamentos Traídos, Kundera faz essa afirmação, en passant, numa nota de rodapé, ao elogiar Mentira Romântica e Verdade Romanesca.

Qualquer apreciador da obra romanesca de Milan Kundera sabe que a bibliografia de estudos sobre Kundera disponível em língua portuguesa é escassa. Se o apreciador em questão, que é o meu caso, tem o interesse em eventuais relações entre a prosa de Kundera e o pensamento filosófico, a escassez se aproxima da nulidade. É impossível não saudar, portanto, a tradução da obra de Merrill para o português feita por Pedro Sette-Câmara e publicada pela É Realizações.

Sobre o livro, é difícil não notar: é a obra de um apaixonado que, como ele próprio confessa no texto, aprecia tanto os romances de Kundera que gostaria de tê-los escrito – e eu mesmo só gostaria de ser o autor do estudo de Merrill sobre Kundera porque também gostaria de ser e não sou o autor da obra de Kundera. É para mim difícil imaginar como seria minha vida sem as histórias do romancista tcheco.

Dividido em nove capítulos, o livro é um sobrevoo temático que põe em relevo alguns dos temas mais obsessivamente perseguidos pela pena de Kundera. Porém, como o próprio romancista tcheco sustenta em seus ensaios – A Arte do Romance, Os Testamentos Traídos, A Cortina, Um Encontro – a única missão de um romance é explorar a existência humana em suas estruturas e possibilidades. E embora uma afirmação desse teor talvez sugira que Kundera deveria escrever fenomenologia ou outra forma de reflexão filosófica, para o romancista tcheco é só no romance que as estruturas e possibilidades aparecem de forma concreta e singular, encarnadas em situações. Todavia, como Kundera, enquanto ensaísta, não se furta a comentar sua própria obra romanesca – bem como a dos clássicos consagrados pela tradição – Merrill lê Kundera com Girard mas também lê Kundera com Kundera.

O primeiro capítulo da obra já evidencia a sagacidade e a pretensão de Merrill em seu título: “As Mulheres Buscam Homens que Tiveram Belas Mulheres”. Quem conhece o pensamento de Girard já percebe pulsante o apelo à ideia do desejo mimético na formulação dessa frase e talvez pudesse atribuí-la ao próprio Girard se não soubesse, através de Merrill, que é um excerto de um conto de Kundera. Pinçando a frase do conto e a transformando em aforismo, Merrill sugere que Kundera é um moralista da linhagem de La Rochefoucauld – embora o próprio Kundera se defina como um “hedonista apanhado na armadilha de um mundo demasiadamente politizado”.

O livro segue perseguindo o desejo mimético, em suas condições, consequências e variações, pela extensão de toda obra romanesca de Kundera. Merrill trata da rivalidade que se segue da imitação entre as irmãs de A Imortalidade – romance preferido de Merrill, considerado por este a obra-prima de Kundera –; da transformação da admiração pelo mediador, razão da gênese da própria imitação, em inveja; da pequena “teoria do ressentimento” de Kundera, que acompanha sua reflexão acerca de uma palavra tcheca – litost – que o romancista considera intraduzível para outras línguas e indispensável para a compreensão da condição humana; da complexificação do triângulo mimético no par de casais que formam Tereza, Tomas, Sabina e Franz do famoso A insustentável leveza do ser, onde a leveza é sinônimo de força e o peso de fraqueza mas também de imitação; do kitsch estético, político e existencial que acompanha os regimes totalitários e impõe a imitação do modelo como regra de conduta em um mundo de imagens, slogans e uma verdadeira olimpíada mimética e exibicionista dos padrões de excelência comportamental.

Nos capítulos finais, Merrill deixa evidentes sua inspiração girardiana e sua paixão por Kundera. As considerações sobre a sabedoria específica da arte do romance e sobre o nascimento do romancista a partir de uma conversão – a saber, da saída de uma atitude lírica para uma atitude trágica – a partir da qual essa sabedoria do romance pode ser captada são considerações nas quais parece ser possível ver a comunhão das ideias de Girard e Kundera – e, evidentemente, do próprio Merrill. O romance não deve pretender moralizar, ensinar, edificar: ele deve ser comprometido com a exploração das verdades mais estruturais, fundamentais, transcendentais da condição humana, por mais desagradáveis que elas eventualmente sejam, por mais que atinjam frontalmente nossas vaidades. E as verdades da imitação e do desejo que Girard desbravara em Mentira Romântica e Verdade Romanesca podem ser observadas na paisagem romanesca da inteligência meditativa e do procedimento polifônico de Kundera. Se a mentira – romântica segundo Girard, lírica segundo Kundera – surge para amenizar a angústia ou saciar a vaidade, a verdade romanesca é aquela que surge detrás das cortinas atrás das quais escondemos o que não suportamos – como o caráter imitativo de todos os nossos desejos.

Poderíamos nos perguntar, então: estamos “condenados à imitação”, segundo Kundera e Girard, assim como o estamos à liberdade, segundo Sartre? Como entender a paz de Tomas ao final de A Insustentável leveza do Ser, ao abandonar seu destino? Ou a experiência quase-mística de uma solitária Agnes, em A Imortalidade, ao perceber (longe do marido, longe da irmã que a imitara a vida inteira, longe da terra natal, em um exílio talvez apenas tão libertador quanto aquele que o próprio Kundera experimentou ao se instalar na França) que é uma felicidade imensa se sentir destituída de seu ego – ou, pior, que a insustentável leveza de ser é a de ser um “eu”, e que ser um “eu” é sofrer? Seremos sempre miméticos? É nossa natureza? Parece que sim. Na teoria mimética, a liberdade consiste em ser capaz de assumir o mimetismo e escolher o seu modelo. Porque teremos um modelo de qualquer jeito. Ler Kundera e Girard com Merrill é explorar essas e outras questões que emergem da fecunda iluminação da arte do romance pelas luzes dos gênios de Kundera e Girard.

O livro ainda conta com uma resposta à Elif Batuman, escritora que atribuiu certos infortúnios pessoais à um eventual efeito pernicioso da obra de Girard no caráter de algumas pessoas. Também há um apêndice em que Merrill, num esforço de delicadeza, menciona o incontornável caráter de exilado de Milan Kundera, perpétua chave de leitura de não poucas obras acerca do escritor e da obra do escritor – chave de leitura a partir da qual se deduz, não raramente de modo reducionista, todo o gênio romanesco de Kundera de sua condição de exilado.

A edição brasileira conta também com notas sobre teoria mimética e literatura por parte de João Cézar de Castro Rocha e com um posfácio de Trevor Merrill com considerações sobre o desejo triangular num conto de Milan Kundera.