Retomando o post anterior, gostaria de comentar um filme de super-heróis que desde sempre me pareceu repleto de temas girardianos, mas antes gostaria de fazer uma ressalva. Muitas obras prestam-se com maior ou menor facilidade a uma análise mimética; o que chama a atenção nas histórias de super-heróis que conheço é que os temas comuns na obra de René Girard — a formação de duplos, o bode expiatório — estejam absolutamente escancarados. Assim, a discussão das histórias de super-heróis parece uma boa introdução às questões do mimetismo, as quais, se podem ficar cada vez mais refinadas, permanecem estruturalmente as mesmas. Esta é uma das belezas da teoria de René Girard: relativamente simples de enunciar, ela se presta a aplicações muito sofisticadas, mas não — por favor — mecânicas.

Também por uma questão de método, mesmo que isto seja um blog e não um periódico acadêmico, parece razoável delimitar mais claramente o escopo da análise, e por isso gostaria de falar de apenas um filme, lançado perto da época em que eu começava a me aprofundar na teoria, e que deixou em mim uma impressão fortíssima. Revi o filme algumas vezes ao longo dos anos, já escrevi algo a respeito. Gostaria de, com o exemplo deste post, estimular outras pessoas que conheçam melhor outros super-heróis a apresentar suas ideias.

Batman: justiceiro e bode expiatório

Como a questão de spoilers é extemporânea aqui, apresentarei o enredo sem preocupar-me. O cavaleiro das trevas, de Christopher Nolan, é o filme que apresenta o confronto do Batman com o Coringa. O mimetismo está presente desde a primeira sequência, que mostra os imitadores do Batman tentando combater o crime pela cidade.

O próprio personagem do Batman, por sua vez, coloca-se no coração da questão da violência, cujo monopólio caberia ao Estado. Contudo, se o Estado não combater o crime de maneira eficaz, ficariam justificadas as intervenções de, digamos, instâncias privadas? E isso não evidenciaria, mais do que um contraste, uma oposição entre as ordens jurídica e moral? Essa oposição não minaria por si toda a autoridade do Estado?

Podemos até agradecer porque não existem super-heróis de verdade. Uma coisa é discutir essa questão teoricamente, e outra coisa seria vê-la como questão prática…

Mas o filme de Nolan não seria genial se não buscasse também esse lado prático, que vai muito além da tentação do esquematismo. A discussão de qualquer questão exige que ela seja reduzida (vejam por exemplo a Suma teológica: São Tomás de Aquino reduz todas as questões a termos menos ambíguos antes de discuti-las), mas o propósito de uma obra de arte, quando não se trata de uma obra “de tese”, não é discutir nem suscitar questões, mas comover o espectador — mesmo que, é claro, essa comoção passe por alguma reflexão.

Por isso, não se trata de pensar: temos um justiceiro, um vigilante (segundo o termo inglês) que, com sua fantasia de morcego e suas engenhocas, está fazendo o que a polícia deveria fazer. Nem todos olham essa figura misteriosa, que não se submete a nenhum controle, de maneira benévola. O público do filme vê a história do ponto de vista do Batman — assim como o leitor dos Evangelhos os lê desde o ponto de vista de Cristo — e por isso sabe que ele é inocente. O público do filme ainda sabe que o Batman é vítima de calúnias, e que aqueles que o caluniam são os principais vilões. Como se isso não bastasse, no final do filme o Batman ainda leva, perante o público de Gotham, a culpa pela morte do grande símbolo de justiça da cidade, o promotor (district attorney) Harvey Dent, e leva porque, como diz o comissário Gordon, ele — assim como Cristo, que o comissário não precisa mencionar — consegue aguentar o tranco da perseguição.

Podemos fazer um pequeno exercício imaginativo. Um habitante de Gotham City que não dispusesse das mesmas informações sobre o Batman dadas pelo filme, e que fosse um mero habitante, ficaria de que lado? Não teria ele o direito de suspeitar do Batman e de preferir os caminhos habituais da lei e do Estado? Quando um presidente inicia sozinho uma guerra contra outro país, não tendemos a acreditar que ele está agindo indevidamente como justiceiro entre as nações?

São essas meditações que nos levam a não descartar a pergunta de Pilatos: o que é a verdade? Digo isso porque por trás dos questionamentos anteriores está um pressuposto simples: “se as pessoas soubessem a verdade, ficariam do lado X”. Nós sabemos a verdade sobre Cristo, a “verdade” sobre Batman — que corresponderia à narrativa contada desde seu ponto de vista — e por isso ficamos ao lado deles. Concedemos nossa aprovação moral a esses personagens. E no entanto há pessoas que não conhecem essa verdade ou que duvidam dessa narrativa — daí também a tendência geral das Humanidades hoje em reduzir tudo a “narrativas” ou a confrontos de pontos de vista (nos quais a vítima tem sempre razão; daí a competição pelo papel de vítima).

O interesse de um Batman, portanto, é apocalíptico no sentido que essa palavra tem na obra de René Girard. Se “apocalipse” (apokálypsis) significa “revelação”, essa revelação é, no plano antropológico, a revelação do mecanismo do bode expiatório. Contudo, como insiste Girard, é preciso desconhecer que o bode expiatório é um bode expiatório para que o mecanismo funcione; você precisa realmente crer em sua culpa. Como, então, gerenciar a necessidade de bodes expiatórios quando seu mecanismo é conhecido por todos?

É isso que Batman e o Comissário Gordon tentam gerenciar em O cavaleiro das trevas: façamos do Batman um bode expiatório, porque ele aguenta o tranco de ser perseguido (afinal, ninguém sabe que na verdade ele é um bilionário playboy), enquanto mantemos a inocência de uma figura que se corrompeu (o comissário Harvey Dent, que, contagiado pela vingança, se transforma no Duas Caras).

E no entanto, permanecemos com uma questão: por que o público do cinema é mais inteligente do que o público de Gotham? Por que o público do filme pode conhecer a verdade, e o público da cidade imaginária não pode?