Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Uma Visão Girardiana do Terrorismo

Psychopolitics

Trecho do segundo capítulo de Psychopolitics, entrevista de Trevor Cribben Merrill com Jean-Michel Oughourlian.

Desde um ponto de vista girardiano, o terrorismo popular está situado num tempo pré-sacrificial: dessa vez, a violência infiltrou-se na comunidade, como acontecia antes do advento do mecanismo do bode expiatório. O inimigo está por toda parte e em lugar nenhum, e por definição é impossível identificá-lo antes que ele comece a agir. Logo todo mundo é inimigo de todo mundo, e nos vemos numa crise sacrificial, com a violência cega e indiferenciada espalhando-se por toda parte.

Ao contrário da guerra convencional, em que era necessário derrotar o inimigo e conquistar seu território, na guerra contra o terrorismo o que está em jogo são os membros da população. Maquiavel, depois de ter reconhecido cinicamente que "os homens mudam seu governante na esperança de melhorar de situação", advertia: "não importa o quão poderosos sejam seus exércitos, para entrar num país você precisa da boa vontade dos habitantes." Obviamente, MacArthur [o general responsável pela tomada do Japão após a Segunda Guerra Mundial] tinha lido Maquiavel, e Bush, não!

David Galula observa, por sua vez: "Quais, então, são as regras da guerra contra-revolucionária? (…) Temos pouco além de fórmulas — razoáveis em sua medida –, como 'A inteligência é a chave do problema', ou 'Deve-se conquistar o apoio da população'."

Com o terrorismo, o respeito mútuo entre soldados, o respeito de Napoleão em Austerlitz pelo dois imperadores que combatia, até o respeito de soldados como Montgomery e Eisenhower por um soldado como Rommel, é trocado pelo desprezo.

As forças legalistas ou o exército ocupante têm desprezo pelos terroristas, e não aplicam as leis da guerra ao lidar com eles. Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães atiravam nos guerreiros da resistência, a quem consideravam terroristas, sem hesitar, ao mesmo tempo em que respeitavam as leis da guerra ao lidar com prisioneiros militares.

Os guerreiros da resistência (desde seu próprio ponto de vista), considerados "terroristas" pelo governo incumbente ou pelas forças de ocupação, também sentem profundo desprezo pelos soldados ou pela polícia contra a qual estão lutando, e que eles qualificam de "forças repressivas".

Numa insurreição ou numa guerra do tipo que hoje é chamada de terrorista, os sentimentos nobres que predominavam nas guerras convencionais são trocados por sentimentos de degradação: como acabamos de dizer, os inimigos sentem desprezo um pelo outro, mas também ódio, ressentimento, inveja, ciúme. Desde um ponto de vista girardiano, na psicologia mimética, o inimigo é visto como um modelo-rival ou até como um modelo-obstáculo, que não inspira nada além de sentimentos negativos.

A esses sentimentos acrescenta-se outro, ainda mais deletério: a suspeita. O inimigo está do lado de dentro, ele pode ser qualquer um, até meu vizinho. Por isso, preciso suspeitar de todo mundo. A suspeita corrói os laços sociais: os ingleses ficaram horrorizados ao descobrir que os terroristas que explodiram os metrôs e ônibus eram cidadãos britânicos! Eles estoicamente suportaram o choque dos bombardeios dos V1 e V2, mas descobrir que alguns de seus concidadãos, que vivam entre eles, os detestavam, sentiam desprezo por eles, e queriam matá-los, escandalizou-os ao extremo.

Depois da suspeita generalizada vem o medo. Esse medo é sujo, ele empesteia a população, e é o medo que dá a esse tipo de conflito o nome de terrorismo. A população pode de fato ficar aterrorizada, e o governo pode adotar medidas degradantes a fim de "aterrorizar os terroristas", e a humanidade recua por todos os lados. Como escreve Galula: "Alguns contra-revolucionários caíram na armadilha de imitar os revolucionários em escalas tanto grandes quanto pequenas, como mostraremos. Essas tentativas nunca tiveram sucesso."

Insurreição, revolução, e agora o terrorismo brotam em chão podre: pobreza, humilhação, ressentimento, frustração. O terrorismo é uma violência política adiada, isto é, uma forma de vingança. O estudo dos processos vindicativos e das técnicas vindicativas nos ensina que a violência não pode apagar a vingança; só o dinheiro pode: "o dinheiro de sangue". É por isso que arrisco uma hipótese: a violência terrorista, que é uma vingança terrível, é solúvel numa sustância única: dinheiro. Em vez de gastar somas astronômicas em armas, gastemos em vez disso em estradas, em hospitais, em escolas, em casas, em empresas, para criar empregos etc. Em vez de financiar a guerra, compremos a paz.

Neste ponto, estou completamente de acordo com Guy Sorman: "No ano 328 antes da nossa era, e se devemos acreditar no historiador romano Quintus Curtius, Alexandre Magno em vão tentou conquistar o Afeganistão. Após algumas batalhas selvagens, mas inconclusivas, começaram as negociações entre os chefes tribais e o general grego. Este queria chegar à Índia. 'Por que você está nos combatendo?', disseram os afegães, 'quando bastaria comprar-nos?'. Foi o que Alexandre fez imediatamente."

O que é extraordinário é que todos os valores da guerra de que falávamos antes, coragem, heroísmo etc., são pervertidas pelo terrorismo no sentido de que o terrorismo é o resultado da humilhação, da pobreza, da fraqueza. Aquele que deseja lutar contra o terrorismo é afligido pela suspeita, envenenado por sentimentos negativos: depois da suspeita, vem o medo. Ele em certo sentido fica paranoico, porque suspeita de todo mundo, tem medo de todo mundo.

1 Comment

  1. Saudações!!,

    O modelo-obstáculo é o que move, por exemplo, Julien a ir mendigar o desprezo da aristocracia. Isso é algo que tem o seu charme na medida em que mostra que o personagem tem fortaleza o suficiente para se meter com quem é maior do que ele. Mas é também um traço de masoquismo.

    Na real, eu não tenho razão para considerar de antemão que quem pensa diferente é alguém que almeja destruir o outro. Os modelos superiores nem sempre são obstáculos. O Antônio Fernando me contava de um professor que gostava de fazer com que os alunos soubessem tanto quanto ele. Uma boa meta é que eles tenham interesse o suficiente para saber mais.

    Há, no entanto, opiniões girardianas que são polêmicas. Eu acho que René Girard está certo ao afirmar que a religião é uma forma de conhecimento. Pode até acontecer de outras pessoas julgarem essa opinião um equívoco, que é algo que fez, por exemplo, os guaranis sofrerem. Beethoven Alvarez, da UFF, vai nessa linha, o que sem dúvida é mais um modo de ver possível num país livre.

    No entanto, se alguém proíbe qualquer referência não-crítica à religião como se fosse algo proibido, um “ranço conservador” ou qualquer coisa no estilo, há algo de muito errado, e essa pessoa, ainda que seja muito douta, não serve nem para ser um modelo-obstáculo na Bósnia.

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