Em março de 2009 René Girard dedicou algumas horas a produzir, usando caneta e papel, um breve resumo da teoria mimética. Para nós, interessados em permanentemente reinvestigar seus fundamentos, trata-se de um documento inestimável. Anteriormente disponível no site da Fundação Imitatio, sua versão inglesa original hoje pode ser encontrada no Scribd. — PSC

Descrição da Teoria Mimética

René Girard, março de 2009

A Teoria Mimética ou Imitativa é uma explicação do comportamento humano e da cultura humana.

Os seres humanos imitam uns aos outros em tudo, inclusive no desejo. O resultado é que eles escolhem os mesmos objetos e competem por eles. Paradoxalmente, portanto, a mesma força imitativa que une as pessoas também as afasta. A teoria mimética afirma que esse fenômeno mal compreendido é a mais importante causa da violência humana, e que a vingança é a forma mais importante assumida por ele. A vingança é a primeira instituição caracteristicamente humana. Chamamos esta primeira intuição de momento do desejo mimético ou da rivalidade mimética.

A vingança ilimitada destruirá a espécie, a menos que algum antídoto apareça. Paradoxalmente, o antídoto se origina nos mesmos impulsos miméticos que causam o problema. A reciprocidade mimética da vingança é desviada para uma única vítima, que mimeticamente atrai toda a violência para si. É esse o processo que os gregos chamavam de Katharsis, que significa as purificações da violência por meio de uma morte solene e sacrificial. Chamamos essa segunda intuição de momento do bode expiatório.

A religião arccaica é essencialmente a repetição ritualizada dessa morte sacrificial, com o fim de renovar sua eficácia. Chamamos essa terceira intuição de momento da religião.

O cristianismo, como aponta corretamente a antropologia ateísta, é exatamente o mesmo esquema, com uma diferença fundamental, ignorada sistematicamente pela moderna antropologia: a atribuição da culpa é invertida, e a vítima expiatória é explicitamente redimida. É por isso que o cristianismo, longe de ser apenas mais uma religião, revela a mentira de todas as religiões (incluindo de si próprio, quando mal compreendido).