NOTA: O artigo foi publicado originalmente no blog Estado da Arte, mas esta versão contém um (longo) acréscimo ao final.

(Preciso dizer que há spoilers? O que estraga o prazer para mim é a má dramaturgia, não saber o final; ninguém reclama da peça Henrique V por saber que, ao final, os ingleses vencem a batalha de Azincourt.)

Conhecemos a história: um policial, usando métodos que não seriam aprovados pela burocracia, obtém os resultados que ninguém mais consegue. A narrativa cresce em torno do sistema que precisa do elemento que mina o próprio sistema. Mindhunter, a nova série da (do?) Netflix sobre a divisão do FBI dedicada a estudar serial killers, é a mais nova abordagem desse topos — e seu mérito reside em parte em ter conseguido de certo modo esconder esse tema por alguns episódios, ao mesmo tempo que o escancarava.

O truque usado para esconder essa estrutura que qualquer um reconheceria de cara foi, obviamente, o interesse do tema. O policial em questão está mais para psicólogo do que para policial. E o tema do estudo da mente dos serial killers, por si, já é um elefante que esconde quase tudo o mais, nos deixando atônitos, num choque mudo, à espera de qualquer palavra que nos esclareça.

Penso numa frase, creio que de Claude Lanzmann, sobre como buscar as causas de uma monstruosidade como o Holocausto é dessacralizá-la. Ele tem razão. Mas deixamos de ler Hannah Arendt por isso? Mais importante do que sacralizar não é apostar que ao menos certos casos de violência podem ser impedidos pelo estudo?

Assim acompanhamos dois agentes do FBI — um dos quais, Holden Ford, nosso policial transgressor e eficiente, que obtém resultados espetaculares às custas do protocolo — em sua suas entrevistas com assassinos já cumprindo suas penas. Logo os dois veem-se equipados para colocar outros assassinos atrás das grades.

Só que, entre as entrevistas de uns e a captura de outros, o que há não é apenas o encontro de grandes mentes da psicologia que bolam métodos infalíveis. O triunfo da ciência é parcial. O que há é aquela dramática quebra de protocolo: os assassinos condenados só se abrem quando Holden começa a imitá-los, a falar a linguagem deles; para extrair confissões dos suspeitos, Holden também começa a tratá-los de igual para igual, borrando a diferença que separa um respeitável agente do FBI de gente que mata e em seguida estupra o cadáver.

Claro que se pode dizer que falar como um serial killer é diferente de ser um serial killer — mas os superiores de Holden e a plateia sem dúvida compreendem o medo da contaminação.

Holden, cheio dos outros em si, começa a ficar cheio de si. Seu sucesso o leva a desafiar diretamente a corregedoria que questiona seus métodos. Depois desse choque, ele vai diretamente encontrar-se com Ed Kemper, o primeiro assassino que entrevistou, do outro lado do país. O resultado desse encontro é que Holden se reconhece mais do que um mero leitor hipócrita de Kemper. O desprezo pelo órgão para o qual trabalha faz com que Holden se veja também seu semelhante, seu irmão.

A série não tem nada de boba e por isso também se antecipa à plateia. Num momento em que, no Brasil, arte e liberdade são temas em voga, não custa recordar que a obra de arte capaz de antecipar as reações tem mais chance de sobreviver do que a obra facilmente abatida.

O ataque reducionista consiste em reduzir qualquer obra dramática a uma obra de tese, como se fosse apenas o exemplo que ilustra um argumento. Apesar de eu mesmo não crer na autonomia absoluta do estético (nem do estético, nem de nada), entendo que ela possa ser procurada como refúgio desse inferno reducionista.

Mas retorno. A série, então, não se esquiva das perguntas inevitáveis, inevitavelmente enunciadas: os assassinos ficam assim ou já nascem assim? Nós compartilhamos com eles certos traços?

Existe, é claro, uma vertigem retórica nessas perguntas. Se reconhecermos em nós a banalidade do mal, teremos de rever nossa auto-imagem. Só que a obra de arte nem responde perguntas, nem, por favor, propõe debates: ela apresenta uma primeira imitação de algo do mundo, de uma ação.

Dentro de Mindhunter, perguntar se Ford “é” também um psicopata trará uma resposta sempre variável: a obra resiste a essa — digamos — problematização. O que, enfim, só é um problema para quem vai à dramaturgia em busca de respostas e debates.

O vídeo acima cabe num blog de teoria mimética. Em que ponto atuar distingue-se de imitar?

***

Após escrever o artigo acima, comecei a ler Whoever Fights Monsters, de Robert K. Hessler e Tom Shachtman, o famoso “livro que deu origem à série”.

No artigo, quis deixar claro que a série lança uma pista falsa para o espectador, que vai querer acreditar que o agente Holden Ford pode combater psicopatas porque é um deles. Nesse sentido, a série está apenas brincando com um certo “essencialismo” presente no senso comum, com a ideia de que as pessoas podem ser isso ou aquilo, e que é preciso temer o ovo da serpente. Aliás, a depender da cultura popular e do senso comum, estamos pisando em ovos da serpente.

Porém, é muito difícil dizer que as pessoas “são” X ou Y sem se perguntar em relação a quê, como se pessoas pudessem “ser” no vácuo, deuses olímpicos com propriedades do monoteísmo cristão. (Mesmo no catolicismo, ao menos, você “é” aquilo que Deus vê em você.)

É este o salto que devemos evitar: mesmo que o agente Holden Ford da vida real tenha simplesmente dado a volta na burocracia e usado métodos que o sistema (naquele momento) condena, não é simplesmente a ideia de “transgredir” que faz de todo transgressor um serial killer potencial — mas a série faz piada com essa expectativa.

Tanto é que o fato de Holden rapidamente reconhecer em si uma pequena semelhança com os assassinos que estuda é motivo para um enorme choque pessoal. Ele percebe a continuidade entre ser “normal” (e como faltam aspas) e ser um assassino, e, ao contrário de um assassino, se assusta consigo mesmo a ponto de considerar frear suas disposições transgressoras.

A maior dificuldade em falar dessas coisas está na ânsia de emitir juízos definitivos que um tema tão forte provoca, especialmente numa época tão polarizada. Se você disser que há continuidade entre o sujeito normal e o serial killer, logo vai aparecer alguém para dizer que você é “a favor” dos serial killers. Se você disser que não há continuidade, que eles são absurdos, bem, então nem é possível estudá-los, nem prevenir seus crimes.

A questão não é nem sequer adotar uma “posição intermediária”, mas deixar claro que ninguém está falando na esfera jurídica.

Dramaticamente, basta observar que esse dilema já foi representado várias vezes na literatura. O transgressor eficiente é o herói trágico que paga com a vida (ou o emprego) pelo valor que proporciona — ele é mais uma versão do bode expiatório.

Ao mesmo tempo, a desestabilização de sistemas em nome “do que é certo” é representada, para nossos olhos de hoje, desde Antígona.

Porém, a Ilíada começa com a rivalidade entre Aquiles, o agente Holden Ford do exército grego, e o rei Agamêmnon. Aquiles acha que tem razão porque é o maior guerreiro e quer ficar com sua escrava sexual — que Agamêmnon manda devolver. Daí começa a “cólera” de Aquiles, a birra do guerreiro que decide não guerrear.

A Antígona de Sófocles é morta pelo rei (e tio) Creonte porque deseja enterrar o irmão. Sem dúvida, uma causa muito mais nobre do que manter uma escrava sexual. O apelo de Antígona a leis não-escritas parece fazer dela uma proto-cristã liberal defensora do Estado direito united under God.

Aqui vai a proposta escandalosa: Aquiles estava subjetivamente tão convencido de que tinha razão quanto Antígona. Podemos simpatizar com Antígona e rejeitar Aquiles porque somos ocidentais cristianizados, mas os dois desestabilizam os sistemas em que estão, afastando-se da “normalidade” e da hierarquia. Antígona morta no final faz dela uma espécie de mártir. Agora, suponha que um general renegado dissesse a Antígona que Creonte traiu os deuses e que ela é a verdadeira rainha — pronto, acabou-se a Antígona mártir indefesa, eis que nasce a defensora de Tebas, e ai de quem ficar em seu caminho. Começa a guerra das Duas Rosas de Tebas, e estamos nos dramas históricos de Shakespeare.

(A ideia de que respondemos a uma autoridade superior, transcendente a tudo o que é humano, e com a qual podemos nos comunicar diretamente, é a ideia mais transgressora e desestabilizadora que jamais existiu.)

O reconhecimento de Holden ao final pode vir a ser, para ele, o despertar da virtude que hoje parece a mais démodé: a prudência. Hoje em dia achamos que todos os outros têm a obrigação de serem perfeitos conosco, e não queremos admitir nossa fraqueza, evitando as más ocasiões — exceto quando se trata de dietas. Holden percebe que o mal existe, que sua eficiência transgressora pode ter custos negativos (para ele e para os outros: imagine um estudo daqueles ser engavetado porque um agente não soube conversar com um burocrata), que esse mal está nele mesmo também — que, em suma, ter razão pode ser só um dos começos da conversa, na melhor das hipóteses.


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