Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Batman: O cavaleiro das trevas — 2

O Coringa interpretado por Heath Ledger

Não há, no sistema penal, nenhum princípio de justiça que realmente se distinga do princípio de vingança. É o mesmo princípio que opera nos dois casos, o princípio de reciprocidade violenta, de retribuição. Ou esse princípio é justo e a justiça já está presente na vingança, ou não há justiça em lugar nenhum. Sobre aquele que decide vingar-se por conta própria, a língua inglesa afirma: he takes the law into his own hands, “ele faz justiça com as próprias mãos”. Não há diferença de princípio entre vingança privada e vingança pública, mas há uma diferença enorme no plano social: a vingança não é mais vingada; o processo é concluído; o risco de uma escalada é afastado.

René Girard, “O sacrifício”, primeiro capítulo de A Violência e o Sagrado.1

Antes de retomar discussões sobre o Brasil e o Degree, vamos comentar um pouco mais O cavaleiro das trevas, filme que se distingue por apresentar de maneira tão escancarada temas explicitamente girardianos. Dificilmente se encontrará um filme mais in your face nesse sentido.

E isso, além dos pontos que já salientamos, porque o Coringa insiste na questão da imitação o tempo todo. Ele quer ser o anti-Batman insistindo na semelhança com o homem-morcego, e fica dizendo que eles dois são freaks, que precisam um do outro etc. O Batman, sendo “do bem”, quer que suas ações sejam governadas pela justiça, mas o Coringa explicita que por baixo da ideia de justiça está a de vingança, de retribuição. A disputa entre os dois personagens é semelhante à discussão sobre o aborto ou a praticamente qualquer outra discussão política: o que está em jogo é a maneira de formular o problema, porque a resposta vai decorrer naturalmente da formulação. Assim como no aborto ou está em jogo a vida dos bebês (devemos proteger os bebês) ou a vida das mães que se arriscam em condições precárias (devemos proteger as mães), ou o Batman atua como auxiliar do Estado e promotor da justiça (versão do Batman), ou ele é igual ao Coringa e está metido numa relação de reciprocidade violenta em cujo rastro não faltam vítimas (versão do Coringa).

O detalhe interessante é que nesse tipo de relação imitativa o mais comum, quase o “normal”, é que nenhum lado admita-se ou proponha-se imitador. Um lado bate, o outro reage por sentir-se lamentavelmente obrigado a isso, os dois lados acreditam nessa versão. Mas o Coringa diz-se igual ao Batman, e o Batman, que, junto com o Comissário Gordon, conhece todas as leis do mecanismo do bode expiatório, que sabe que sua motivação para o combate ao crime é uma reação ao assassinato dos pais, não pode admitir-se imitador do Coringa. E com boa razão: o Estado existe para conter as vinganças e para a proteção dos acusados (evitando, por exemplo, seu linchamento). Mesmo que o Estado seja imperfeito como tudo que é humano, seu ideal deve ser não imiscuir-se na lógica da retribuição violenta. Para o Batman ter alguma credibilidade perante o público do filme, ele não pode se deixar levar.

O Coringa ainda demonstra um conhecimento perspicaz do mimetismo ao admitir que o objeto que ele deseja possuir, e que diz disputar com o Batman, é numa certa medida intangível: “o coração e a alma de Gotham”. À medida que as disputas miméticas se acirram, seu objeto tende a desaparecer. Dois homens brigam por uma mulher e logo desejam simplesmente matar um ao outro. O motivo da briga vai ficando mais rarefeito: ora é uma mulher, um território, e logo é a honra, a justiça, ou “o coração e a alma” de uma cidade. Ou ainda, antes disso, lembremos que o Coringa queimou uma pilha de dinheiro — e dinheiro nada mais é do que valor quantificado, que pode corresponder a qualquer objeto — dizendo que o importante era “passar uma mensagem”, isso é, atingir o outro lado.

Mas até o dinheiro é tangível. Pode ser quantificado. E, mesmo que o efeito buscado pelo filme tenha sido apenas dramático, mostrando pilhas de dinheiro, fica uma pergunta ligada ao objeto final, mais difícil de delimitar. Como saber se você realmente conquistou “o coração e a alma de Gotham”?

O Coringa prepara um teste muito interessante. Coloca dois grupos de pessoas nos catamarãs que cruzam um dos rios em volta de Gotham (Manhattan). Num catamarã está um grupo de presidiários; no outro, um grupo de cidadãos que nunca foram presos e que devemos supor honestos e de bem. Cada grupo é informado de que dali a tanto tempo seu catamarã vai explodir — a menos que coletivamente cada grupo decida explodir o outro catamarã. Recordemos o que Sócrates diz no Górgias (475c): “É melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça.” Um dos presidiários assume o controle da situação e impede que o outro catamarã seja explodido. Gracas à renúncia da violência, nada acontece. E assim, de certo modo, por uma decisão moral, mesmo que a população termine contra o Batman, não se pode dizer que o Coringa tenha dominado “o coração e a alma de Gotham”.

Todavia, devemos evitar a tentação de olhar toda violência como se fosse sacrificial. Nesse caso dos catamarãs, um lado não estaria disposto a “sacrificar” o outro no sentido de fazer dele um bode expiatório. Abel não foi um bode expiatório para Caim. A morte de um dos lados viria dentro da lógica de retribuição. Para salvar “o coração e a alma de Gotham”, é preciso que Gotham ofereça a outra face e prefira, curiosamente, sofrer a injustiça a aceitar privatizar a violência. É preciso que Gotham queira sair da lógica da retribuição violenta privada. Essa é a fundação do Estado de direito: a transferência da retribuição a quem faz mal a você. Para além das conotações religiosas dessa reflexão, vale observar que, dentro da perspectiva evolutiva presente nos escritos de René Girard, é essa passagem da violência para a esfera pública que permite que os grupos humanos não se extingam por meio de homicídios intestinos.

NOTA


  1. Traduzido de De la Violence à la divinité (Paris: Grasset, 2007, p. 315), uma coletânea dos quatro primeiros livros de Girard. Na edição brasileira de A Violência e o Sagrado (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998, segunda edição), o trecho está na p. 28.

3 Comments

  1. Pedro,

    A cena dos catamarãs é um dos melhores argumentos libertários que conheço.

    Só achei que sua referência ao tema do aborto ficou deslocada.

    Abs.

  2. Robson Braga Marques

    23 de março de 2015 at 18:50

    Ainda nessa linha de reflexão sobre a evolução do mecanismo sacrificial, penso que ele se complexificou muito e na nossa sociedade moderna assume múltiplas faces. Girard se concentrou no estudo dessa estrutura em seu estado puro, em seu arquétipo primordial. Mas se tal mecanismo é realmente a força estruturante de toda a sociabilidade humana, devemos avançar numa interpretação mais completa da modernidade, em identificar as transformações que levaram as nossas instituições e estruturas econômicas e políticas – que mesmo tendo suas origens longínquas no sacrifício se afastaram há muito do seu estado original – a manter certa dinâmica sacrificial sublimada e escamoteada.

    Penso que na modernidade nossas estruturas jurídicas, econômicas e políticas conformam um todo dinâmico muito análogo ao que o Girard encontrou em forma pura nas sociedades ditas primitivas. Mesmo correndo o risco de cair em certo determinismo creio que aqui o econômico desempenha um papel primordial, é dele que provém o amálgama essencial entre os homens que outrora provinha do sentimento religioso em torno da vitima. É ele que proporciona um perpetuo estado de ritual e um manejo da mimésis de forma que ela fique controlada, evita até certo ponto que o estágio de violência recíproca exploda. Quando a economia vai mal, o perigo da violência descontrolada ressurge, surgem os totalitarismos, os discursos se radicalizam, procura-se novamente por vitimas sacrificiais efetivas. Hitler e o holocausto surgiram em grande parte graças ao sofrimento da Alemanha com a crise de 29.

    A política e o judiciário são satélites nesse sistema. A política é uma piada sacrificial, elege-se um responsável, um representante a quem culpar quando algo não vai bem. Os políticos são bodes expiatórios onde a cada eleição analisa-se a sua expulsão. É um refinamento das realezas sagradas que nasceram quando se postergou um pouco a execução das vitimas. O judiciário é a apólice de seguro desse sistema, graças a prodigiosa reprodução de mercadorias da economia e suas novas possibilidades de ascensão social e reprodução do mimetismo, a mimésis fica controlada a ponto de não degringolar na violência recíproca de todos contra todos (a não ser, é claro, em tempos de crise econômica onde esse risco se torna real). O judiciário é o responsável por lapidar o sistema, controlando os casos que fogem a regra, se a economia faz o manejo da mimésis aquisitiva para que ela não se torne metafísica e interna o suficiente a ponto de produzir violência, o judiciário tenta controlar os casos que ultrapassaram essa barreira e viraram mimésis violenta.

  3. Puxa! Quando você pensa que já percebeu tudo, que esgotou a avaliação, a TM te leva a outro ponto, depois outro e mais outro… parece o canto do galo do poema de João Cabal que, de ponto em ponto, vai tecendo uma teia tênue , se erguendo em tenda, toldo, onde entrem todos, se entretendendo para todos…
    As frases finais, onde você fala do poder público assumindo o monopólio da reparação (i.e. vingança), já me remeteu novamente ao degree, e daí à questão do aborto… já estou ansioso pela próxima postagem.
    Enquanto isso, acho que vou rever o filme.

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