Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Shakespeare segundo Shakespeare

Rematar Clausewitz

Teatro da Inveja

Nos últimos anos algumas vezes me perguntaram qual o melhor livro sobre Shakespeare, o que ler a respeito de Shakespeare… Sim, este é um blog sobre René Girard, e claro que vou indicar o livro de Girard sobre Shakespeare, Teatro da inveja1, mas vou deixar claro que não estou escrevendo uma mera peça de propaganda.

Existem muitos bons comentários a Shakespeare, e, tirando o de Girard, meu favorito é o de Auden: seu Lectures on Shakespeare2 é na verdade uma reconstituição, a partir das copiosas notas dos alunos, de um curso que o poeta deu em Nova York em 1946. (Aproveito para fazer um comentário tradutório e dissipar uma confusão comum: lecture também tem o sentido de “aula”. Quando você vai fazer um curso universitário nos EUA, ele pode ser descrito como lecture and seminar, e isso significa “aula e discussão”, isso é, em alguns encontros o professor vai falar, “palestrar”, e em outros ele vai conduzir uma discussão.)

Mas o que tem o comentário de Girard de especial? Dando uma resposta talvez bastante subjetiva, tenho a impressão de que os demais comentários (incluindo o de Auden) ou costumam estender-se por aspectos marginais das peças, isso é, por aspectos que não dizem respeito diretamente à sua construção, ou então costumam ser projetivos e, grosseiramente falando, “gnósticos”, alegando existir um sentido oculto em Shakespeare, que é perceptível se você levar em conta algum elemento exterior, ainda que contemporâneo, a sua obra. Nesse segundo tipo de comentário podemos incluir os de Martin Lings3 e de Harold Bloom4

A vantagem da argumentação de Girard é a seguinte. Antes de tudo, ele nunca sai do texto de Shakespeare. Se o pensador francês diz em seu prefácio que Shakespeare é teórico do desejo mimético, e que as menções diretas ao mecanismo do desejo (Shakespeare usa expressões como “desejo sugerido”; ver p. 43) são atenuadas para não ofender o público que acredita em sua espontaneidade, ele também mostra que basta ler as peças com atenção para notar essas menções e, sobretudo, para ver o mecanismo escancarado. O melhor exemplo disso está nos capítulos iniciais, em que Girard discute a fala, em Sonho de uma noite de verão, da personagem que reclama de um amor que “dependesse da escolha dos amigos”5, e de como os friends do original devem ser interpretados como “amigos” mesmo — e não, como sugere grande parte da crítica, como “pais”. Mesmo na prestigiosa edição Arden6 a justificativa para interpretar “amigos” como “pais” ocupa as páginas 154 e 155 inteiras…

O próprio Auden, em algum ensaio de que não consigo me lembrar, diz que a coisa mais importante numa obra de arte é “o assunto, o assunto, o assunto” (“subject, subject, subject”). Enfatizando o desejo mimético, Girard traz então para o primeiro plano a própria construção das peças. É o assunto que as organiza; é do desejo que Shakespeare está falando. Um aspecto interessante da argumentação de Girard é que ele propõe que os 154 sonetos deixados por Shakespeare constituem uma espécie de “chave” para a interpretação de sua obra. E, de fato, o que mais chama a atenção em alguns dos sonetos é o quanto eles são compactos, o quanto têm de sentido comprimido em poucos versos. É claro que há sonetos “leves”, como o famoso “Devo comparar-te a um dia de verão?” (“Shall I compare thee to a summer’s day?”), mas outros, como o 42, são bastante densos — e Shakespeare dedica-lhes o capítulo 32 inteiro.

Permitam-me insistir: trata-se da única obra que conheço que nunca sai do texto de Shakespeare, que não propõe sentidos diferentes para sua obra e que aliás nem chega a discutir as diversas edições das peças (caso o leitor não saiba, de uma edição para outra, a pontuação pode mudar bastante, e, em alguns casos, até a ordem das cenas). Girard parte da edição Cambridge (The Riverside Shakespeare) e pronto. Contudo, contrariando talvez diversas expectativas, inclusive a do próprio Auden, para quem obra e vida deveriam ficar separadas, Girard recorre a diversas especulações sobre as experiências do homem Shakespeare. Não me parece que isso diminua o livro: as palavras referem-se a coisas, e uma parte significativa do prazer estético consiste em admirar a formulação da experiência que não conseguimos formular. No entanto, com o apoio de Girard, não dependemos de uma compreensão particular da virada do século XVI para o XVII na Inglaterra para conseguirmos entender o âmago da obra shakespeariana.

NOTAS


  1. Trad. Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010.

  2. Organização de Arthur Kirsch. Princeton: Princeton University Press, 2002.

  3. A Arte Sagrada de Shakespeare. Trads. Mateus Soares de Azevedo e Sergio Sampaio. São Paulo: Polar, 1994.

  4. Em diversos textos, Bloom diz que Shakespeare é gnóstico, e também tem a honestidade de avisar que ele próprio, Bloom, é também gnóstico. Ver por exemplo The Western Canon (Nova York: Riverhead Books, 1995) e Shakespeare: The Invention of the Human (idem, 1999), além do livro mais “gnóstico” de Bloom, Omens of Millenium (ibidem, 1996).

  5. Versos 139 e 140 de A Midsummer Night’s Dream (Sonho de uma Noite de Verão): Lysander: Or else it stood upon the choice of friends! / Hermia: O hell! To choose love by another’s eyes.

  6. Shakespeare, William. A Midsummer Night’s Dream. Arden Second Series. Londres: Methuen & Co., 1979.

1 Comment

  1. Eu tomei uma antipatia desse Harold Bloom!… Tem coisa mais chata do que aquela lenga-lenga gnóstica? Até hoje não sei como pude gastar dinheiro comprando os livros dele. Aliás, sei. Depois daquelas listinhas dos “vinte mais” ou dos “cem mais”, nas quais arvorou-se em pontifex-maximus da literatura universal, canonizando quem era gênio e quem não era (sem nenhuma justificativa plausível, apenas com umas tiradinhas espirituosas), ele conseguiu desempenhar o papel de modelo-mediador highbrow para um vulgo que quase não entendia bulhufas do que ele escrevia, mas, na ânsia de parecer sabido, acatava todas as suas indicações como revelações oraculares. Falo por mim, claro. Verdade é que muitas das indicações (não todas) não eram más, mas o mérito antes provinha dos indicados e não do indicador, que nunca dizia coisa com coisa. Pelo menos para mim.
    Mas Bloom usufrui desse truque de mediação sabendo que tem sérios rivais (ou rivais sérios), dotados de real argúcia crítica e, portanto, capazes de fazer verdadeiras revelações sobre às obras literárias. Tanto que cuidou em bancar o papel de modelo-obstáculo (ou mesmo rival) fazendo críticas às críticas alheias, sobretudo as de Girard, a quem ele sempre se refere como um católico francês tipicamente jansenista que, obcecado por uma suposta condição maléfica do desejo humano, deduz de todas as obras literárias o mesmo enredo de imitação e violência!…
    Ora, vindo de um crítico gnóstico – para quem, não só desejo humano, mas toda a realidade física é um malefício demiúrgico; e que ainda por cima é o renomado autor de “A Angústia da Influência”, onde sustenta a tese de que a história da literatura mundial se estrutura numa emulação perene e semiconsciente entre os grande escritores – essa definição soa bastante incongruente.
    Mesmo assim, sem um pingo de simancol, esse Chacrinha da crítica (“eu não vim para explicar, vim para confundir”) usou novamente, há pouco tempo atrás, o trololó gnóstico para desqualificar, ou melhor, para parasitar as ideias de Girard em favor desse mesmo trololó. Quem quiser averiguar pode acessar aqui: https://books.google.com.br/books?id=M8FrZmMQbfsC&pg=PA204&lpg=PA204&dq=harold+bloom+on+rené+girard+jansenist&source=bl&ots=n_PG0llrRX&sig=tY0Q5LG3X3PUxe4ORKpgam9InJw&hl=pt-BR&sa=X&ei=25IVVbGUGtLjsASSvIDABg&ved=0CCAQ6AEwAA#v=onepage&q=harold%20bloom%20on%20ren%C3%A9%20girard%20jansenist&f=false

    Como se pode constatar, o recalque de Bloom bate na Teoria Mimética e volta como uma gnóstica angústia da influência.

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