Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

O suicídio de Sylvia Plath e a sombra de seu pai

por Mark Anspach*

A morte do pai de Sylvia Plath quando ela tinha oito anos deixou-a, nas palavras do poema “The Colossus” [“O Colosso”], “casada com a sombra”. Ao cometer suicídio aos 30 anos, em 11 de fevereiro de 1963, Plath deixou viúvo Ted Hughes, o marido que a abandonara.

Muitos culparam Hughes, futuro poeta laureado da Inglaterra, pela morte da esposa. À época, ele estava tendo um caso com uma amiga em comum que acabou ela própria cometendo suicídio. Por que as mulheres que se sentiam atraídas por ele tiraram as próprias vidas?

“Toda mulher adora um Fascista”, escreveu Plath em um de seus mais famosos poemas. “A bota na cara, o bruto / bruto coração de um bruto feito você”. Para seus acusadores, Hughes era um bruto que beijava meninas e as fazia morrer. Mas o sucídio de Plath provavelmente tem raízes bem mais profundas.

Um novo livro do jornalista Andrew Wilson afirma que ela já tinha tentado cortar a própria garganta quando tinha dez anos. Ainda que Mad Girl’s Love Song [Canção de Amor da Menina Louca] contenha novos detalhes, a ideia de que Sylvia foi traumatizada muito jovem pela morte do pai não surpreenderá aqueles que leram biografias anteriores ou os próprios poemas.

De fato, o verso “Toda mulher adora um Fascista” vem de um poema chamado “Daddy” [“Papai”]. É ele o bruto de botas que com uma mordida partiu seu “bonito coração vermelho em dois”, o “homem-panzer” que assustava-a com seu “bigode asseado” e seu “olho ariano”, sua Luftwaffe e sua suástica. Pelo menos é isso que diz o eu-lírico do poema.

Em The Death and Life of Sylvia Plath [A Morte e a Vida de Sylva Plath], o biógrafo Ronald Hayman sugere que ela na verdade idolatrava o pai quando era pequena, sendo louca por seus elogios. Filho estudioso e trabalhador de um ferreiro que imigrou para os EUA adolescente e estabeleceu uma carreira dando aulas de alemão e de biologia, Otto Plath não era nazista.

Era, porém, um tirano doméstico com uma vontade de ferro, que subjugava a mãe de Sylvia — uma inteligente ex-aluna 21 anos mais nova — e que talvez tenha tido um lado sádico. A fim de exibir seu desdém pelos preconceitos normais que governam o comportamento humano, escreve Hayman, “ele costumava esfolar um rato, cozinhá-lo e comê-lo na frente dos alunos”.

A coisa mais brutal que Otto fez aos olhos de Sylvia foi abandoná-la morrendo cedo. “Daddy” apresenta sua primeira famosa tentativa de suicídio — aquela descrita em seu romance A Redoma de Vidro — como um esforço de reunir-se com ele. Mas depois que os médicos “me juntaram com cola”, escreve ela, “eu sabia o que fazer”.

Fiz um modelo de você,

um homem de preto num estilo Meinkampf,

e um gosto por potro e anjinhos.

E eu falei: sim, sim.

O homem de preto num estilo Meinkampf é Ted Hughes, sempiternamente trajando seu uniforme de poeta boêmio: pulôver preto e calças pretas. Ela conhecia seu lado sádico quando se casou com ele, confidenciando a um mentor horrorizado que ele tinha o hábito de “maltratar as pessoas”. Mas isso não a impediu de dizer “sim”.

Ou melhor, “sim, sim” — como se estivesse desposando dois homens: não apenas Ted, mas também Papai. Para uma poeta que escreveu “Sonho que sou Édipo” (The Eye-Mote [“O Cisco no Olho”]) e casualmente dirige-se ao pai como “noivo” (The Beekeeper’s Daughter” [“A Filha do Apicultor”]), fazer sua psicanálise seria fácil — talvez fácil demais.

Quando ela diz ao pai: “Fiz de você um modelo”, ela parece querer dizer que Ted era um substituto para aquilo que ela realmente desejava, assim como um trem de brinquedo é uma réplica do original. Mas as palavras “Fiz de você um modelo” podem ter um escopo mais amplo. Sylvia parece ter considerado a morte prematura de Otto um modelo para seu próprio comportamento suicida, como sugerem os versos de “Daddy”:

Eu tinha dez anos quando enterraram você.

Ao vinte tentei morrer,

e voltar, voltar, voltar para você.

Ao dizer que tinha dez anos em vez de oito, Plath funde o ano da morte do pai com o de seu próprio primeiro gesto suicida, como revelado no novo ivro de Andrew Wilson — ainda que, em “Lady Lazarus” ela faça uma oblíqua alusão a essa “primeira vez” como um “acidente”.

Contudo, os dois poemas enfatizam a repetição: “De novo eu fiz. / Um ano em cada dez”, anuncia ela em “Lady Lazarus”, prefigurando seu efetivo suicídio aos 30 anos. “Daddy” nos permite ver suas três tentativas de pôr fim à própria vida — aos 10, 20 e 30 anos — como três tentativas de “voltar, voltar, voltar” para o pai.

Mas se a repetição tem sua raiz na imitação — se ela fez do pai um modelo — então ela não queria apenas voltar para ele; ela queria fazer a mesma coisa que ele fez. “Ainda que ele não tenha exatamente se matado”, observa Ronald Hayman, “ele deu um exemplo suicida”. Aos 50 anos, quando desenvolveu sintomas semelhantes aos de um amigo que estava morrendo de câncer, Otto Plath obstinadamente recusou-se a consultar um médico.

Seu amigo tinha passado por diversas cirurgias inúteis, e Otto, que se orgulhava de sua independência, estava decidido a evitar cirurgias desnecessárias. Ele tinha diagnosticado seu próprio câncer e não queria colocar-se nas mãos dos médicos. Se ele estava destinado a morrer de câncer, então tudo bem. Ele aceitaria seu destino como um homem.

Só que ele não tinha câncer, mas diabetes. A doença poderia ter sido tratada com insulina se tivesse sido diagnosticada a tempo. Quatro anos depois, quando ele reclamou de manchas-roxas no pé, sua esposa viu que os dedões estavam pretos, com listras vermelhas que iam até o tornozelo. Sua perna com gangrena teve de ser amputada. Poucas semanas depois, ele morreu.

Segundo Hayman, Sylvia considerava suicídio a morte do pai e “começou a ver a própria morte como a sequência inevitável da morte dele”. Isso sugere que o anseio de morte de Sylvia Plath era aquilo que René Girard, teórico de Stanford, chamaria de desejo mimético — um desejo imitado de outra pessoa.

Em sua clássica obra A Violência e o Sagrado, Girard diz que os objetos que mais queremos são apreciados nem tanto por seu valor intrínseco quanto pela importância a eles atribuída por um modelo admirado: “Se o modelo, que aparentemente já possui um ser superior, deseja algum objeto, esse objeto certamente deve ser capaz de conferir uma plenitude de ser ainda maior.”

Quando Sylvia era criança, ela admirava o pai, considerando-o o homem mais formidável que jamais conhecera. Por causa de sua morte prematura, esse foi o modo como ele permaneceu fixo para sempre em sua memória — como o gigante do poema “Colossus”.

Nada poderia ser menos desejável intrinsecamente do que a morte. Mas se o pai, aquele gigante ameaçador, abraçou-a voluntariamente, então a morte pode muito bem ter parecido a Sylvia o único objeto capaz de conferir a ela a plenitude superior que, em sua profunda infelicidade, ela sentia faltar-lhe.

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.

1 Comment

  1. E também:

    “I feel my life linked to her , somehow. I love her – – – from reading Mrs. Dalloway for Mr. Crockett – – – and I can still hear Elizabeth Drew’s voice sending a shiver down my back in the huge Smith class-room, reading from To The Lighthouse. But her suicide, I felt I was reduplicating in that black summer of 1953. Only I couldn’t drown. I suppose I’ll always be over-vulnerable, slightly paranoid.”

    http://goo.gl/9jWVfW

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