Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: 11 de setembro

René Girard discute o terrorismo

Rematar Clausewitz

Rematar Clausewitz

Cinthia Haven, em seu blog, já havia destacado, por ocasião dos atentados ao Charlie Hebdo em janeiro, um trecho de Rematar Clausewitz, publicado em 2007 na França por René Girard. Com os atentados de sexta em Paris, reproduzimos o mesmo trecho, sem no entanto fazer os cortes feitos por ela.

Além disso, vale a pena observar que, aqui no blog, já reproduzimos textos de Mark Anspach que de certo modo iniciam os esforços sugeridos por Girard no trecho abaixo:

  1. O 11 de setembro e o mito do martírio
  2. Para compreender Breivik

A tradução de Rematar Clausewitz foi uma dos momentos de maior intensidade intelectual da minha vida. Trata-se de um livro indispensável para começarmos a formar categorias para compreender a nova era de violência planetária.

Trecho de Rematar Clausewitz

Não vi nenhum livro sobre Atta [Nota de PSC: ver o primeiro artigo de Mark Anspach relacionado acima], o chefe do grupo de 11 de setembro, que pilotou um dos dois aviões. Ele era filho de um burguês egípcio. É estarrecedor pensar que ele passou as três noites anteriores ao atentado em bares com seus cúmplices. Há um lado misterioso e interessante nesse fenômeno. Quem aborda o problema da alma desses homens, daquilo que eles são, de suas motivações? O que o islã significa para eles? Qual o sentido de matar-se por essa causa? O número crescente de atentados no Iraque é impressionante. Acho estranho que haja tão pouco interesse por esses fenômenos que dominam o mundo, assim como a Guerra Fria dominava anteriormente. Ninguém teria imaginado, após a queda do Muro de Berlim, que estaríamos aqui, quase vinte anos depois. Isso abala nossa visão da história, tal como foi escrita a partir das revoluções americana e francesa, e que não leva em conta o fato de que o Ocidente inteiro foi desafiado e ameaçado por isso. Somos obrigados a dizer “isso” porque não sabemos o que isso é. A revolução islâmica foi reativada com atentados a duas embaixadas na África, durante o governo de Bill Clinton. Procuramos bastante, mas não achamos nada. Também não sabemos nem se Bin Laden é uma pessoa real. Será que as pessoas imaginam em que história entraram e de que história saíram? Não tenho muito o que dizer a partir daqui, porque essa realidade é desconhecida demais, e nossa reflexão aqui atinge seus limites.

Sinto-me, diante disso, um pouco como Hölderlin diante do abismo que o separava da Revolução Francesa. Mesmo no fim do século XIX, ainda havia a percepção de que alguma coisa extraordinária estava acontecendo. Estamos assistindo a uma nova etapa da escalada para os extremos. Os terroristas deixaram claro que têm todo o tempo do mundo, que sua noção de tempo não é a mesma que a nossa. Esse é um sinal claro do retorno da religião arcaica: um retorno aos séculos VII, VIII e IX, o que em si mesmo é significativo. Mas quem se ocupa dessa importância, quem toma sua medida? Será esse um trabalho para o Ministério das Relações Exteriores? É preciso estar atento a muitas coisas imprevistas no futuro. Assistiremos a coisas que certamente serão piores. As pessoas não vão mais continuar surdas.

No momento do 11 de setembro, houve um abalo, mas rapidamente a paz voltou a reinar. Houve um clarão de consciência, que durou algumas frações de segundo: percebemos que alguma coisa estava acontecendo. E um manto de silêncio veio nos proteger contra essa rachadura introduzida em nossa certeza de segurança. O racionalismo ocidental funciona como um mito: sempre fazemos um esforço maior para não ver a catástrofe. Não conseguimos nem queremos ver a violência tal como ela é. Contudo, só conseguiremos responder ao desafio terrorista mudando radicalmente nosso modo de pensar. Mas quanto mais os acontecimentos se impõem a nós, mais a recusa de tomar consciência deles se reforça. Essa configuração histórica é tão nova que não sabemos por onde começar a examiná-la. Ela é certamente uma modalidade daquilo que Pascal percebeu: da guerra da violência contra a verdade. Pensemos na pobreza daquelas vanguardas que pregavam a inexistência do real!

É preciso que entremos numa maneira de enxergar o tempo em que a batalha de Poitiers e as Cruzadas estão muito mais próximas de nós do que a Revolução Francesa e a industrialização do Segundo Império. Os pontos de vista dos países ocidentais constituem para os islamistas um detalhe sem importância. Eles pensam o mundo ocidental como algo que deve ser islamizado o mais rápido possível. Os analistas tendem a dizer que essas são minorias isoladas, muito alheias à realidade de seu país. No plano da ação certamente, mas e no plano das ideias? Não haveria aí, apesar de tudo, alguma coisa essencialmente islâmica? É preciso ter coragem de fazer essa pergunta, ainda que não se dispute que o terrorismo é um fato brutal que deturpa em seu próprio interesse os códigos religiosos. Ele não teria, porém, adquirido uma eficácia tão grande nas consciências se não tivesse atualizado alguma coisa desde sempre presente no islã. Este último, para grande surpresa dos republicanos leigos, ainda é muito vivo no plano do pensamento religioso. É inegável que hoje reencontramos certas teses de Maomé.

Assim, é preciso mudar radicalmente nossas maneiras de pensar, e tentar compreender sem preconceitos esse acontecimento com todos os recursos que a islamologia pode nos oferecer. A tarefa precisa ser realizada, e é imensa. Pessoalmente, tenho a impressão de que essa religião apoiou-se na Bíblia para recriar uma religião arcaica mais

forte do que todas as outras. Ela ameaça tornar-se um instrumento apocalíptico, o novo rosto da escalada para os extremos. Como agora não existe mais religião arcaica, é como se tivesse surgido uma outra, construída sobre a Bíblia, de uma Bíblia um pouco alterada. Seria uma religião arcaica reforçada por contribuições da Bíblia e do cristianismo, porque a religião arcaica evaporou diante da revelação judaico-cristã. Como o cristianismo acaba com o sacrifício onde quer que chegue, o islã parece sob muitos aspectos situar-se antes dessa expulsão.

É verdade que em sua atitude há ressentimento em relação à tradição judaico-cristã e ao Ocidente. Mas trata-se também de uma religião nova, isso é inegável. A tarefa que cabe aos historiadores das religiões, e até aos antropólogos, será mostrar como e por que ela surgiu. Porque em certos aspectos dessa religião há uma relação com a violência que não compreendemos e que por isso mesmo é mais inquietante. Para nós, estar disposto a pagar com a vida pelo prazer de ver o outro morrer não quer dizer nada. Não sabemos se esses fenômenos se relacionam ou não a alguma psicologia particular. Nossa incapacidade é total, não conseguimos falar disso, e também não podemos documentar o que acontece, porque o terrorismo é uma situação inédita que se vale dos códigos islâmicos, mas que não tem nada a ver com o islã clássico. O terrorismo atual é novo, até de um ponto de vista islâmico. Ele é um esforço moderno para contrapor-se ao instrumento mais poderoso e mais sofisticado do mundo ocidental: sua tecnologia. Ele faz isso de um jeito que não entendemos, e que talvez o islã clássico também não entenda.

Não basta, assim, condenar os atentados. O pensamento defensivo que opomos a esse fenômeno não é necessariamente um desejo de compreensão. Muitas vezes, ela é um desejo de incompreensão, ou vontade de conforto. Clausewitz é mais fácil de integrar a um desenvolvimento histórico. Ele nos fornece um instrumental intelectual para compreender a escalada da violência. Mas onde encontramos essas ideias no islamismo? O ressentimento moderno, de fato, nunca chega ao suicídio. Não temos, portanto, as cadeias analógicas que nos permitiriam entendê-lo. Não digo que elas não sejam possíveis, que elas não vão aparecer, mas confesso minha incapacidade de apreendê-las. É por isso que as explicações que damos muitas vezes não passam de propaganda enganosa contra os muçulmanos.

Comentário aos artigos de Mark Anspach sobre terroristas

Nos dois últimos artigos de Mark Anspach publicados no blog, pudemos ler uma discussão sobre terroristas: de um lado, o grupo de muçulmanos que praticou os atentados do 11 de setembro e, de outro, o ateu pró-cristianismo e anti-islã Anders Breivik. Em nenhum momento, Anspach discutiu posições pró-islã ou pró-cristianismo, nem deu a entender que a causa dos atentados esteja nas ideias professadas pelos terroristas. Antes, Anspach abordou pessoas, e quis elucidar suas motivações. Os motivos declarados seriam — Anspach não disse isso diretamente, mas a inferência é razoável — pretextos. Isso nos permite, é claro, conciliar o fato de que existe uma minoria de muçulmanos terroristas com o fato de que também existe uma esmagadora maioria de muçulmanos pacíficos; e, numa escala distinta, uma minoria de cristãos pró-ocidente ou de pró-cristãos e pró-ocidente raivosos e uma maioria pacífica.

A abordagem mimética pretenderia, então, estudar as motivações. É fácil pensar que há nisso o risco do psicologismo, e há mesmo, sobretudo se o pesquisador não enxerga que ele próprio também é mimético e não se esforça para conhecer seu lugar e suas tentações. Também é fácil pensar que então a teoria mimética teria a obrigação de dar uma resposta sistemática, explicando todos os casos de terrorismo — mas isso seria a busca da pedra filosofal. No entanto, como o próprio René Girard salienta em diversos momentos, o que lhe interessa é mais a continuidade e a semelhança do que a unicidade e a diferença. Por isso, uma abordagem mimética começara perguntando se não existe nada em comum os terroristas do 11 de setembro e Anders Breivik. Afinal, usamos até o mesmo nome para eles, e, mesmo que até agora não tenhamos proposto nenhuma definição do termo terrorista, captamos a sua referência de maneira imediata.1

Os terroristas discutidos por Anspach têm em comum o traço de serem “desajustados”, misfits, no original, que num literalismo poderíamos traduzir como “mal-encaixados”. (Poderíamos ainda ir além e observar que o prefixo inglês mis-, assim como o francês mé-, de méconnaissance não possuem correspondência exata, necessitando ser adaptados caso a caso.) Mis-fit, como verbo, seria “encaixar mal” ou “encaixar imperfeitamente”. Não se trata de um alheamento completo. Eu mesmo não me encaixo na sociedade tupinambá, mas eu não seria um desajustado nela no mesmo sentido em que Breivik ou Mohammed Atta são desajustados em suas respectivas sociedades.

Esse desencaixe é que nos leva a um ponto essencial, discutido por René Girard em diversos textos, conhecido entre os girardianos como “psicologia do subsolo”.

Se o pseudonarcisismo consiste na estratégia de demonstrar-se autônomo diante de olhos alheios, e portanto em adequar essa estratégia a olhos alheios sempre específicos, a psicologia do subsolo nasce da percepção de todo o jogo do pseudonarcisismo ao mesmo tempo em que se percebe a própria posição de perdedor como um desencaixe no jogo, pois essa posição parece ilegítima. Em algum momento de Mentira Romântica e Verdade Romanesca Girard diz que as patologias do desejo nascem de “uma promessa não-cumprida”, e a promessa provavelmente pode ser formulada assim: “você será um vencedor no jogo do pseudonarcisismo”.

O perdedor quer então virar a mesa de maneira violenta, e xatamente como alguém que, perdendo num jogo de tabuleiro, chuta o tabuleiro e espalha todas as peças. É uma tentativa desesperada de atribuir a si o prestígio do modelo, fazendo com que os outros o imitem: se ele está chateado, então todos vão ficar chateados.

O termo “psicologia do subsolo” vem das Memórias do Subsolo de Dostoiévski. O personagem, um ser mesquinho e ridículo, passa a ser amado por uma prostituta. Ele a manda embora. Não por estar cheio de opções e preferir uma relação com uma mulher não-estigmatizada, mas apenas para preservar para si próprio sua ilusão de autonomia. Se ele aceitasse o amor dela, teria de aceitar ver-se como ela o vê, para então imitar o amor dela por ele, e desempenhar o mesmo papel para ela. Daí, aliás, nascem muitas das histórias de amor da literatura: ao olhar uma pessoa sem imitar os olhos que a estigmatizam, o sujeito permite que a própria pessoa se veja com olhos amorosos.

Agora, o estudo da motivação sugere que qualquer discurso que consiga convencer um ressentido pode se tornar uma ideologia terrorista. É mais fácil dizer que o sistema é viciado — o que pode ser ao mesmo tempo verdadeiro e irrelevante para a questão discutida — do que tentar tornar-se um bom jogador. É mais fácil virar o tabuleiro do que perder com graça. A motivação do terrorista pode não ser algo tão estranho e distante. O terrorista pode ser um Werther que não se tornou Wilhelm Meister.

Claro que existem vários outros tipos de recusa do sistema viciado, inclusive positivos. Pode-se adotar uma posição ascética, religiosa, ou, no plano político, uma posição reformista, que evita o contágio do ressentimento, justamente por reconhecer que a psicologia do subsolo, correndo solta, pode levar a uma situação ainda pior.2


  1. Observemos, contudo, que um exame maior do terrorismo pode também levar a diferenças. Talvez precisemos acrescentar algumas noções para entender, por exemplo, Carlos, o Chacal.

  2. No plano político, um dos personagens históricos que mereceriam mais estudo, nesse sentido, é o russo-alemão Alexander Herzen. Herzen foi um dos primeiros liberais da Rússia, no tempo anterior a Marx em que liberalismo e socialismo utópico ainda poderiam ser confundidos. Após uma fase radical, Herzen, que era milionário, viajou pela Europa e testemunhou as revoluções da década de 1840. Tornou-se um reformista, tendo percebido que a derrubada do sistema czarista pelas forças radicais das cidades russas dificilmente levaria a uma situação melhor. A posição ética de Herzen era então complexa: aceitar a injustiça apenas na medida em que sua derrubada imediata pode levar a uma situação ainda mais injusta. Que dizer de sua capacidade de percepção histórica? Podemos dizer que o comunismo soviético representou um progresso em relação ao jugo do tzar? Não que estejamos defendendo o tzarismo. Certamente a teimosa recusa do czar Nicolau II em reformar o sistema contribuiu para sua derrocada. Mas entre a autocracia monárquica e o centralismo democrático há nada menos do que o clamor para que se escreva uma história mimética.

O 11 de setembro e o mito do martírio

por Mark Anspach*

Esta é a história de um fracassado nato que se suicidou em Nova York no dia 11 de setembro de 2001. Como muitas outras pessoas morreram naquele dia, poucos conhecem a solitária existência desse homem.

Deprimido e sem perspectivas profissionais, aos 33 anos ele nunca tinha tido uma namorada. Aos 27, ele tinha preparado instruções para seu funeral, traindo sua amargura. “Não quero que mulheres venham à minha casa pedir desculpas pela minha morte”, escreveu.

Na época em que fazia pós-graduação, seus colegas de quarto zombavam dele e o mantinham afastado. Tudo o que ele fazia era estudar, mas ele não tinha nascido para ser acadêmico. Ele só tinha se matriculado para agradar o pai dominador.

Suas duas irmãs mais velhas eram bem-sucedidas: uma era cardiologista, a outra professora de zoologia, e ambas tinham casado com médicos. Seu pai lhe tinha dito que precisava ouvir a palavra “doutor” antes do nome dele também.

O zeloso filho precisou de sete anos de luta para completar o mestrado. Então, jogou a toalha. Mas não teve coragem de dizer isso ao pai. Em vez disso, falou que tinha entrado num programa de doutorado.

Será que isso bastou para deixar o pai contente? Não quando seu filho retardatário tão obviamente precisava de ajuda com sua vida amorosa. O superpai entrou em cena e arranjou seu casamento com uma boa menina de seu país natal. Enfim o rapaz tristonho estava noivo. O casamento aconteceria assim que ele completasse o doutorado.

Agora sua vida estava toda organizada — e era tudo mentira. Ele nunca ouviria a palavra “doutor” antes do nome. Ele nunca se casaria com a noiva distante. E mais cedo ou mais tarde a verdade iria aparecer.

O futuro não prometia nada além de humilhação e de vergonha. Ele só conseguia enxergar uma saída — abraçar a morte com que já tanto fantasiara.

No dia 11 de setembro de 2001, Mohamed Atta tirou a própria vida jogando um avião contra o World Trade Center.

Quando Atta morreu, ele e os demais sequestradores levaram consigo milhares de nova-iorquinos. Mas, como diz Adam Lankford em The Myth of Martyrdom [O Mito do Martírio] (Palgrave Macmillan), seu livro iconoclasta de 2013, isso não deveria cegar-nos para os motivos pessoais que os levaram ao suicídio.

Claro que sua ideologia moldou suas ações, mas ela não serve de explicação total para aquilo que eles fizeram. Há muitas pessoas no mundo que compartilham a mesma ideologia, mas a maioria delas não joga aviões em prédios. A razão é simples: a menos que elas estejam tão desesperadas quanto Atta, preferem viver. “A religião e as opiniões políticas de Atta influenciaram a forma de seu suicídio e o alvo de sua raiva”, escreve Lankford, “mas elas não foram a causa subjacente de suas ações”.

O caso de Atta é importante. Ele era o líder. Ele pilotou o primeiro avião a acertar as Torres Gêmeas. Mas ele estava longe de ser o único indivíduo perturbado do grupo.

O piloto do segundo avião a acertar as torres, Marwan al Shehhi, tinha dito à família que estava passando por um período complicado. Ao contrário de Atta, al Shehhi era próximo do pai — talvez próximo demais. Quando estava na universidade, em outro país, a notícia da súbita morte do pai al Shehhi abalaram-no muito. Ele decaiu nos estudos e distanciou-se dos outros membros da família. Quando enfim disse-lhes que estava enxergando a luz no fim do túnel, o que ele efetivamente queria dizer era que estava ansioso para morrer.

Hani Hanjour, o piloto que acertou o Pentágono, era um solitário, tímido de doer. Um amigo da família que o recebeu nos Estados Unidos disse que ele ficava entocado no quarto “feito um ratinho”. Antes de se meter com terroristas, o “ratinho” sonhava em cruzar os ares — como comissário de bordo. Infelizmente, seu irmão convenceu-o a tentar ser piloto. Após ser rejeitado diversas vezes, ele conseguiu entrar numa escola de pilotagem, e foi tão mal que os instrutores sugeriram que ele desistisse. Como observa Lankford, Hanjour finalmente teve a oportunidade de virar piloto de avião “do único jeito que conseguiria: numa missão suicida, para derrubar o avião e causar um incêndio”.

Falta ainda o quarto piloto, Ziad Jarrah, que admitia estar “insatisfeito com a vida” e ansioso para não morrer “de maneira natural”. Enredado num tempestuoso relacionamento com uma mulher que tinha ela própria tentado o suicídio, Jarrah, que abandonara a faculdade, tinha violentas alterações de humor, que dificultavam-lhe concluir aquilo que começava. Ele quase desistiu da trama do 11 de setembro e começou a rir em seu vídeo de mártir. O avião de Jarrah foi o que caiu no mato, sem nem se aproximar do alvo. Sua missão suicida foi um fracasso sob todos os aspectos, exceto um: permitiu-lhe cometer suicídio.

Será que ele não podia simplesmente pular de uma janela? Claro — mas assim iria direto para o inferno. A maior parte das discussões sobre a motivação religiosa para o terrorismo suicida concentra-se na cenoura: a promessa de um bilhete instantâneo para o paraíso dos mártires. Mas há também um bom chicote impelindo as almas desesperadas para o martírio: a ameaça de que arderão com os condenados caso se matem por fraqueza pessoal.

O temos da punição eterna ajuda a explicar as baixas taxas de suicídio no mundo islâmico. Outro fator é o estigma cultural associado ao ato. Se Mohamed Atta tivesse tido uma overdose com comprimidos para dormir, isso teria trazido a ele e a sua família exatamente aquela vergonha e aquela desgraça de que ele estava tentando fugir. Considerando suas crenças, ele tinha todos os incentivos para disfarçar seu suicídio com a capa do martírio.

Além disso, quando alguém está tão cheio de ressentimento quanto Atta, pode perfeitamente ficar tentado a morrer numa irrupção dramática de violência, levando consigo tantas pessoas quanto conseguir. Em anos recentes, vimos uma procissão constante de indivíduos perturbados sucumbirem a essa tentação — que compartilhem ou não compartilhem a visão de mundo dos sequestradores do 11 de setembro. Por que tratar estes últimos como se fossem especiais?

Lankford apresenta bons argumentos para colocar os terroristas suicidas na mesma categoria que assassinos furiosos ou atiradores escolares como Eric Harris e Dylan Klebold, o duo de Columbine. Três anos antes do 11 de setembro, Harris escreveu que eles gostariam de “roubar mas muitas bombas mesmo e jogar um avião em Nova York com a gente dentro”. Os assassinos de Columbine e os sequestradores da Al Qaeda eram atraídos pelo mesmo tipo de ataque porque, como diz Lankford, “em algum nível mais profundo, eles tinham muito mais em comum do que jamais tínhamos percebido”.

Cedo demais aceitamos as palavras dos terroristas do 11 de setembro. Por mais que condenemos suas ações, ainda acreditamos que eles deram suas vidas apenas por uma devoção desinteressada a uma causa. Em suma, compramos aquilo que Lankford chama de “mito do martírio”. Por alguma razão, aceitamos esse mito em vez de reconhecer os sequestradores como aquilo que obviamente são: indivíduos desequilibrados dedicados a dar livre curso a uma pulsão de morte.

Lankford tem o cuidado de observar que essa descrição dificilmente serve para todos os terroristas. Os estudos mostram que a maioria deles é mentalmente estável. Eles podem colocar-se em risco, como os soldados, mas isso não os torna suicidas. São os suicidas que são voluntários para o “martírio”. Os outros valorizam demais as próprias vidas para deliberadamente derrubar um avião ou estourar a si próprios.

Os estudiosos familiarizados com pesquisas anteriores presumiram equivocadamente que os terroristas suicidas são exatamente como os terroristas comuns — uma amostra representativa — quando, na verdade, são em grande parte uma amostra autorrefletida. Esse erro é deveras elementar para ser cometido por aqueles que se dizem especialistas. Apenas uma pequena porcentagem dos ataques terroristas incluem o suicídio. O senso comum teria sugerido que essas operações atrairiam indivíduos suicidas.

Lankford precisou cavar apenas um pouco para descobrir indícios nesse sentido. No caso do 11 de setembro, não eram só os pilotos que eram perturbados. Pelo menos dois dos outros sequestradores parecem ter exibido sinais ainda mais claros de patologia. Em 1999, Ahmed al Nahmi começou a agir de um jeito que levou seus familiares a temer que ele tivesse um “transtorno bipolar”. No mesmo ano, Wail al Shehri teria caído numa depressão forte o bastante para que ele tivesse de parar de trabalhar e procurar tratamento médico. Os amigos descreviam-no como potencialmente “suicida”.

Lankford expressa perplexidade por pistas tão transparentes ficarem tanto tempo sem ser notadas. Um jovem professor com parcos recursos à disposição “não deveria ser capaz de descobrir as motivações secretas de terroristas suicidas em apenas poucos anos”, observa, “enquanto o resto do mundo essencialmente não consegue, na década que se seguiu ao 11 de setembro”. Essa incapacidade por si constitui um problema. Por que, após o 11 de setembro, o mito do martírio ganhou tanta força?

Não é possível responder essa pergunta sem levar em conta as dimensões míticas do próprio acontecimento. O ataque às Torres Gêmeas foi imediatamente percebido como inaugurador de uma nova era histórica por meio de um ato decisivo de violência espetacular — um ato de “violência fundadora”, para tomar emprestada uma expressão de René Girard, teórico cultural de Stanford.

Segundo Girard, os mitos e os rituais do mundo inteiro baseiam-se em atos sacrificiais de violência fundadora que permitem que a comunidade una-se em torno das vítimas. O ataque ao World Trade Center teve um impacto similar. O próprio Girard caracterizou-o como “um estranho retorno do arcaico dentro do secularismo da nossa época”.1

Em dezembro de 2001, Jean-Pierre Dupuy, colega de Girard em Stanford, esteve em Manhattan e decidiu fazer a peregrinação ao Ground Zero. Ele foi tomado pelo sentimento de intensidade religiosa que o local inspirava em todos que dele se aproximavam — uma consciência de temor reverencial por estar na presença do sagrado. Refletindo depois sobre essa sensação, Dupuy explicou que se tratava do produto de um sacrifício humano de tempos modernos:

Os perturbados perpretradores do 11 de setembro não fizeram um sacrifício de suas próprias vidas, como a ideologia do mártir (…) pretende que acreditemos. Não, trata-se de um verdadeiro sacrifício, no sentido antropológico do termo. Se os terroristas, por meio de seu ato hediondo, sacralizaram o local de seu crime, isso aconteceu porque, como indica a etimologia do termo, eles sacrificaram vítimas inocentes.”2

Etimologicamente, um “sacrifício” é um ato sacro, ou um ato que sacraliza alguma coisa. Ao realizar um bárbaro sacrifício humano numa escala de tirar o fôlego, os sequestradores sacralizaram tanto as vítimas quanto o local do crime. Com suas piscinas gêmeas refletoras postas nos ocos onde antes havia as torres, o memorial do 11 de setembro corporifica nosso senso intuitivo de que um local onde morreram milhares deveria permanecer sagrado.

Mas eis o detalhe: inevitavelmente, sem perceber, algo do sagrado arcaico liberado por seu crime terrível passou para os próprios sequestradores.

A prova é que aceitamos o mito do martírio. Achamos que os sequestradores também sacrificaram as próprias vidas. Acreditar nisso é dar-lhes uma nobreza indevida. Como observa Adam Lankford, quando um homem que odeia a vida comete suicídio, ele não abdicou de nada de grande valor para si próprio. Não houve sacrifício.

Ao vender seu suicídio como ato de auto-sacrifício, os sequestradores sequestraram parte do sagrado para si. Eles não fizeram com que nós os víssemos como heróis, mas cercaram-se de uma aura enganosa de sacrifício que nos impede de vê-los como fracassados suicidas.

Mohamed Atta era aquele tipo de desajustado angustiado que, num contexto cultural diferente, poderia dar atirado nos colegas de escola. As organizações terroristas como a Al Qaeda vão atrás dessas pessoas e, em vez de lhes dar a ajuda de que precisam, recrutam-nas para que cometam crimes horripilantes.

Quando esses indivíduos buscam o assassinato em massa, perdem qualquer direito à nossa simpatia. É tarde demais para salvá-los, mas talvez não seja tarde demais para impedir os demais de tomá-los como modelos. O primeiro passo, como insiste Lankford, é desmistificar os terroristas suicidas, desmontando o mito do martírio.


  1. Robert Doran, “Apocalyptic Thinking after 9/11: An Interview with René Girard,” SubStance, Vol. 37, No. 1, 2008, p. 25.

  2. Jean-Pierre Dupuy, “Anatomy of 9/11: Evil, Rationalism, and the Sacred,” SubStance, Vol. 37, No. 1, 2008, p. 46–47.

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.

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