Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Apocalipse

Muito barulho por mísseis em Cuba

por Mark Anspach

Só existe uma coisa pior do que destruir o mundo: é destruir o mundo sem justificativa. Durante 13 dias em outubro de 1962, o mundo esteve à beira da aniquilação nuclear sem justificativa.

Cinquenta anos depois da crise dos mísseis cubanos, a maior parte dos comentadores ainda passa por cima dessa verdade perturbadora. Eles se concentram em como o presidente Kennedy “gerenciou” a crise e conseguiu obter a remoção dos mísseis soviéticos. Mas raramente eles se perguntam por que era tão urgente atingir esse objetivo.

O pressuposto que ninguém menciona é que a colocação de mísseis nucleares em Cuba apresentava uma ameaça sem precedentes à segurança dos Estados Unidos. Mas isso simplesmente não é verdade. Os mísseis cubanos não eram mais perigosos do que aqueles que já estavam apontados para os EUA desde o território soviético.

Robert McNamara, secretário de Defesa, sabia disso. “Um míssil é um míssil”, teria dito ele durante uma reunião estratégica sobre a crise. “Não faz diferença se você morre por um míssil disparado da União Soviética ou de Cuba”.1 Valia mesmo a pena arriscar a guerra nuclear por alguma coisa que não fazia diferença?

O próprio presidente Kennedy dizia que a chance de haver guerra estava “entre 1 e 3 e quase lá”. O Comando Estratégico do Ar elevou sua prontidão para DEFCON 2, um nível antes da guerra nuclear iminente. Um avião de espionagem U–2 foi derrubado sobrevoando Cuba; outro foi parar no espaço aéreo soviético e foi perseguido por MIGs, fazendo com que o comando reunisse às pressas caças americanos armados com mísseis nucleares táticos. Um submarino soviético questionado por destróieres americanos no Caribe considerou usar seu torpedo nuclear mas desistiu.

Enquanto isso, sem que a inteligência americana soubesse, os soviéticos tinham não apenas mísseis balísticos em Cuba, mas cerca de 100 armas nucleares táticas menores prontas para ser usadas em caso de ataque. De acordo com o especialista em crises Graham Allison, “a invesão e o ataque aéreo americanos que estavam programados para a terceira semana do confronto provavelmente teriam provocado uma resposta nuclear contra tropas e navios americanos, e talvez até contra Miami. A guerra resultante poderia ter levado às mortes de 100 milhões de americanos e de mais de 100 milhões de russos.”2

Diante de possibilidades tão inacreditavelmente dramáticas, a mente humana revolta-se contra a ideia de que um conflito poderia surgir sem justificativa. É difícil admitir que, como enfatiza René Girard, teórico de Stanford, em seu clássico estudo A Violência e o Sagrado, “a violência opera sem razão”. A violência tem sua própria lógica; uma vez libertada, ela pode sair do controle, não importando o quão insignificante seja a causa inicial de uma disputa ou de uma guerra.

Em Rematar Clausewitz (São Paulo: É Realizações, 2011), Girard cita o estrategista prussiano Carl von Clausewitz: “Pode existir entre dois povos e Estados uma tensão tal, e tama- nha soma de elementos hostis, que um motivo de guerra, ainda que mínimo em si mesmo, desencadeará um efeito desproporcionado, uma verdadeira explosão” (p. 47). Essa não é uma descrição ruim da situação que prevalecia entre os Estados Unidos e a União Soviética no apogeu da Guerra Fria.

Contudo, a crise dos mísseis não foi apenas um confronto entre dois povos ou Estados, mas entre seus respectivos líderes. Para Clausewitz, “a guerra é apenas um duelo numa escala mais vasta”. A crise dos mísseis nunca escalou para uma guerra total; ela desenrolou-se como um duelo entre dois homens: Nikita S. Khruschev e John F. Kennedy.

Numa carta ao presidente Kennedy, o primeiro-ministro Khruschev reagia ao bloqueio naval e à exigência de que ele retirasse os mísseis soviéticos de Cuba dizendo: “Presidente, o senhor lançou um desafio.” Claro que do ponto de vista de Kennedy era Khruschev que tinha lançado um desafio ao colocar mísseis perto do litoral da Flórida. Mas, em outra carta, Khruschev lembrou seu rival de que havia mísseis americanos “bem do nosso lado” na Turquia.

“O agressor sempre foi agredido primeiro”, observa Girard em Rematar Clausewitz. “Por que as relações de rivalidade nunca são percebidas como simétricas? Porque as pessoas sempre têm a impressão de que o outro foi o primeiro a atacar” (p. 60). Muitas vezes, o resultado é uma cadeia sempre maior de represálias.

Felizmente Kennedy e Khruschev nunca iniciaram um combate mortal. Ambos se afastaram da ameaça de um Armagedom atômico. Como sugere o filósofo francês Jean-Pierre Dupuy, o espectro da guerra nuclear às vezes funciona como o equivalente moderno de um sagrado primitivo — uma forma de violência tão transcendente que contém a violência humana comum.

Kruschev retirou os mísseis de Cuba; Kennedy prometeu não invadir a ilha e secretamente concordou em retirar os mísseis da Turquia, que ele considerava obsoletos e planejava retirar de qualquer jeito.

Tudo está bem quando acaba bem… Ou muito barulho por nada?

Quando a crise acabou, o presidente explicou pela televisão americana que os mísseis soviéticos não teriam alterado o equilíbrio aparente de poder — “não que eles quisessem dispará-los, porque, se eles pretendiam entrar numa guerra nuclear, já tinham seus próprios mísseis na União Soviética”.3

E, como ele poderia ter acrescentado, não faz diferença ser morto por um míssil disparado da União Soviética ou de Cuba.


  1. Ronald Steel, “Endgame”. In: The Cuban Missile Crisis. Robert A. Divine (org.). Chicago: Quadrangle, 1971, p. 217.

  2. ”The Cuban Missile Crisis at 50”, Foreing Affairs, julho/agosto 2012.

  3. Divine, The Cuban Missile Crisis, p. 113.

Apocalipse

A palavra grega apokálypsis, como muitos sabem, significa “revelação”. Tanto que o livro do Apocalipse, que termina o Novo Testamento, é conhecido em inglês como The Book of Revelations, ou simplesmente Revelations.

O comentário que faremos, alinhado com as ressalvas feitas pelo próprio René Girard ao longo de sua obra, diz respeito ao entendimento antropológico do apocalipse, e não a diversas conotações sobrenaturais associadas ao livro do Novo Testamento.

Assim, a primeira observação a fazer é que a palavra “revelação” é um nome que pede complemento. Revelação precisa ser revelação de alguma coisa.

A esta altura o leitor já lembrou que um dos livros fundamentais de René Girard chama-se Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo, e já suspeita que a revelação seja justamente a revelação dessas “coisas ocultas” — as quais, em termos antropológicos, consistem principalmente no mecanismo do bode expiatório.

O bode expiatório, veja-se bem, é o mecanismo fundador da cultura porque é um mecanismo eficaz. A vítima é acusada de provocar a desordem na comunidade e sua morte traz a ordem, o que parece maravilhoso. Por essa razão ela é divinizada.

No entanto, como já foi ressaltado no texto anterior, ter um bode expiatório é não saber que se tem um bode expiatório. Se agora conhecemos o mecanismo do bode expiatório, não podemos mais contar com ele para a contenção da violência.

Essa seria uma interpretação possível das palavras de Cristo: “Eu não vim trazer a paz, mas a espada.” Ao revelar o mecanismo que mata vítimas inocentes, Cristo nos mostra que não temos moral para atirar a primeira pedra e nos tira a proteção coletiva contra a violência disseminada.

(E vale observar que a maior parte da argumentação apocalíptica de Girard em Rematar Clausewitz baseia-se não no livro do Apocalipse, mas nas passagens apocalípticas dos evangelhos.)

Se é possível então demarcar o apocalipse como uma época distinta, trata-se da época em que não podemos mais, com a mesma ingenuidade de antes, acreditar na culpa de nossos bodes expiatórios.

Existe, é claro, um agravante. Como Girard observou em Rematar Clausewitz, repetindo o próprio general Carl von Clausewitz, a violência por si “tende para os extremos” — e, sem um mecanismo de controle, a promessa é de fato a destruição total. Numa rivalidade entre duas pessoas, uma pode matar a outra, ou as duas podem matar-se mutuamente, deixando outras vítimas em seu rastro. Porém, quando falamos de disputas entre nações, há uma mudança de escala.

O alistamento militar obrigatório, a indistinção de facto entre alvos civis e alvos militares, o envolvimento de todos no esforço de guerra — eis um primeiro passo histórico da escalada para os extremos. Se esse passo foi dado por Napoleão, a resposta à Grande Armée vem na forma de guerrilha: a violência que pode surgir em qualquer lugar, a qualquer hora. A partir desse ponto, é fácil ver como chegamos ao terrorismo.

Resta, como freio para a violência, a política. Mas até quando? Verificamos sempre que muitos Estados têm dificuldade de dar credibilidade a seus esforços de guerra. Sem o mecanismo do bode expiatório, não é possível criar uma atribuição unânime do mal a um outro. Não conseguimos acreditar todos na monstruosidade dele. A “verdade” é substituída por “narrativas”.

Essa desmistificação do mecanismo do bode expiatório está por toda parte. Boa parte da dramaturgia contemporânea não faz mais do que contar a história de pessoas às quais foram atribuídos sinais vitimários.

No entanto, permanecemos violentos. Permanecemos cheios de rivalidades. O leitor não deve supor que cairemos numa tentação prescritiva, como se, após descrever uma situação drástica, fôssemos propor uma adesão nominal ao cristianismo como solução para os problemas da humanidade. Não apenas o cristianismo está repleto de rivalidades internas, como, após essa improvável adesão, permaneceríamos miméticos e cheios de rivalidade. Talvez essa seja uma das razões por que Girard diz que o cristianismo é a única religião que prevê o próprio fracasso.

O que desejamos ressaltar, seguindo o próprio René Girard, é que a o apocalipse é também um tempo de esperança. É um paradoxo: de um lado, a violência nunca teve possibilidades tão extremas. De outro, conhecemos o funcionamento da violência, o que torna a situação mais clara. Sabemos que ela depende da reciprocidade. Sabemos que a violência, por trás da diferença de motivos alegados, baseia-se na semelhança de atitudes. Estamos portanto diante de algo tremendo, que é a aceitação de que não é um deus mítico, como numa visão arcaica do Deus cristão (em que Girard e o autor deste post), que vai se “vingar” das transgressões do homem, mas o próprio homem que tem o poder de destruir a si mesmo.

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