Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: assassinato

Respostas a um comentário sobre o bode expiatório

O leitor Lisandro Gaertner deixou um comentário num post há menos de duas semanas. Vale a pena comentar o comentário, a fim de esclarecer pontos importantes da teoria de René Girard.

É importante começar com um esclarecimento inicial. Como Girard ressalta em Evolução e Conversão, a hipótese sobre o bode expiatório é uma hipótese sobre um processo que se dá na realidade concreta e não simbólica; aliás, é por dar-se na realidade concreta que ele pode dar origem a uma realidade simbólica. Para Girard, houve entre grupos de hominídeos um assassinato coletivo; aqueles grupos de hominídeos que foram capazes de reproduzir esse assassinato com outras vítimas, ritualizando-o, foram capazes de sobreviver, por ter encontrado um método para conter suas violências endógenas. A vítima do assassinato primeiro é culpada da desordem na sociedade e, ao restabelecer a paz com sua morte (e por restabelecer a paz com sua morte, num processo que parece misterioso aos envolvidos), é em seguida divinizada. Além disso, como observou o professor Jean-Pierre Dupuy na Escola de Inverno René Girard, apenas a violência ritual é observável; esse assassinato fundador não pode ser observado, permanecendo uma hipótese.

Se existem processos culturais hoje que aparentemente seguem o mecanismo do bode expiatório, como o assassinato de reputações, é importante observar que a relação entre esses processos é apenas de analogia. As pessoas que creem na transgressão daquele que teve a reputação assassinada não passam a adorá-lo depois. Ele não é morto fisicamente. Se você disser que a cultura de certas instituições condena certas transgressões de maneira totalmente injusta, nem por isso as vítimas dessas injustiças passam a ser deuses dessas instituições.

No plano da violência física propriamente dita, se acontece um linchamento, a polícia age e ele não passa a ser ritualizado, até porque nós já temos o rito judicial, que substitui o rito segundo o mecanismo do bode expiatório.

Uma vítima de uma violência histórica também não é um bode expiatório em sentido estrito. Pensemos nas mulheres queimadas como bruxas: elas teriam de passar a ser divinizadas pelas mesmas pessoas que as queimaram (não o mesmo grupo de pessoas, historicamente considerado, mas os mesmos indivíduos, materialmente falando) para serem bodes expiatórios girardianos.

Assim, se é razoável dizer que existem resquícios do mecanismo na cultura “civilizada” moderna e contemporânea, não é razoável dizer que o mecanismo esteja em plena atividade. O que está em plena atividade é a violência, que, não podendo ser canalizada pelo mecanismo, dá a impressão de ser aleatória.

Agora passo à resposta ao comentário, o qual contém cinco pontos de destaque.

1. O bode expiatório “tira a culpa” dos que o sacrificaram.

Se tomarmos a Paixão de Cristo como modelo do desvelamento do mecanismo, veremos que Cristo pediu ao Pai que perdoasse a multidão, pois ela não sabia o que fazia. Além disso, a palavra “culpa” traz algumas complicações. A culpa parece uma carga moral negativa, um estigma, associado a uma certa responsabilidade. A responsabilidade não pode ser retirada. Cristo, porém, pode retirar as culpas, mas enquanto Cristo, um bode expiatório particular. O bode expiatório das culturas primitivas apazigua a violência durante um certo tempo, o que é outra coisa. Cristo, porém, admite que as pessoas estão arrebatadas (em Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago, Girard usa o termo “emballement mimétique”, ou “arrebatamento mimético”) pelo mimetismo violento e veio para oferecer-lhes uma alternativa, mostrando-nos que os bodes expiatórios são inocentes.

2. A violência “sem propósito” precisa ser justificada.

Sim, mas isso é uma percepção subjetiva diante da violência que não veio justificada. Perdoem-me se pareço tautológico. Diversas vezes aqui no blog se ressaltou, especialmente nas resenhas da Júlia Reyes, que o bode expiatório é sacrificado de maneira a que todos sejam responsáveis, inclusive para impedir a possibilidade de vingança. Claro que esse bode expiatório era filho, irmão, primo, amante de alguém. Ou já não era, já tinha sido “purificado” das relações a fim de tornar-se uma vítima propiciatória que vai apaziguar o deus, isto é, que vai apaziguar a violência na comunidade, porque ninguém clamará por vingança, denunciando o sacrifício como mero assassinato. Por isso, para haver bode expiatório em sentido estrito, é preciso acreditar na justiça e na necessidade do sacrifício de antemão. A necessidade de justificação a posteriori já é um sinal claro de que não há vítima expiatória, mas apenas a vítima de um assassinato.

Vejamos bem que o próprio vocabulário pode dificultar. A palavra “sacrifício” representou um obstáculo ao próprio René Girard por designar, dentro de sua teoria, posições opostas (o oferecimento da própria vida e a violência contra o outro), e a palavra vítima pode designar o bode expiatório no sentido mais estrito e um coitado que receba uma bala perdida. São todos vítimas, mas não do mesmo processo.

4. No caso do genocídio do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial, houve um “irracional genocídio ressignificado como holocausto”.

Não creio que o genocídio do povo judeu seja diminuído pela alegação de que ele não é exatamente irracional, mas baseado numa premissa falsa: os judeus são culpados. O falso pode ser racional; os nazistas não tinham preconceitos, mas conceitos falsos que serviram para justificar uma violência pouco moderada pela razão. O genocídio do povo judeu no século XX veio a ser conhecido como “holocausto” provavelmente porque, como um sacrifício, ele pareceu seguir uma certa racionalidade, com campos de extermínio etc., ainda que essa seja uma racionalidade escandalosa para as pessoas razoáveis. No entanto, desde a década de 1940 o termo usado entre os judeus para referir essa perseguição específica é shoah, que pode ser traduzido como “catástrofe”. O uso de shoah tem justamente o objetivo de afastar as conotações sacrificiais dessa violência. Nesse ponto voltamos ao entendimento do genocídio como algo irracional — uma “catástrofe”.

A questão de “holocausto” x shoah é interessante porque dizer que o genocídio judeu foi um holocausto significa dizer que ele foi um sacrifício e que portanto ele teve certa legitimidade dentro da cultura em que foi realizado. Dizer que foi uma catástrofe significa assumir duplamente o ponto de vista das vítimas: primeiro, porque esse é o termo que elas usam; segundo, porque retira a legitimidade “sacrificial” da violência sofrida.

5. “O sacrifício do bode expiatório não seria libertador tanto para os vitimizadores quanto para os vitimizados?”

Dentro do mecanismo em sentido estrito, o bode expiatório, sendo uma vítima humana, não seria “libertada”. No entanto, ela e seus parentes teriam de acreditar na legitimidade do sacrifício. A comunidade inteira é que se julgaria livre da ira do deus, ou de algum mal supostamente sobrenatural, mas que na verdade consistiria na crise mimética e em seus efeitos colaterais. Seria mais razoável dizer que o mecanismo do bode expiatório é “restaurador” e não “libertador”. As escrituras judaico-cristãs é que podem libertar o homem do mecanismo ao mostrá-lo e, com isso, retirar sua eficácia. No entanto, como o próprio Girard insiste, principalmente em Rematar Clausewitz, essa liberdade inclui riscos tremendos.

O bode expiatório

Na teoria girardiana, existe um ambiguidade proposital na expressão “bode expiatório” que deriva diretamente da maneira como ela é usada na língua comum. Se dizemos que alguém é um bode expiatório, então estamos dizendo que esse alguém é um bode expiatório de outras pessoas, que acreditam de fato na culpa desse bode expiatório. Ou seja: para nós, esse alguém é um bode expiatório, alguém inocente, porém considerado culpado; para os outros, esse alguém é de fato culpado.

Ao escrever os posts sobre o filme O Cavaleiro das Trevas, observei aqui no blog que sua apreciação dependia justamente dessa ambiguidade. O público do filme sabe que o Batman é inocente, porque vê a história do Batman contada a partir do ponto de vista do Batman; o público da cidade de Gotham não conhece a história íntima e por isso acredita na culpa do Batman. A bem da verdade, boa parte do cinema de hoje em dia se baseia nessa ambiguidade, nesse convite: “entenda, público de fora da obra, que o que você vê será visto de maneira inversa pelo público de dentro da obra”.

René Girard principia o livro O Bode Expiatório com uma discussão de um texto de perseguição medieval, um poema de Guillaume de Machaut no qual os judeus são acusados de envenenar a água de uma cidade. Hoje, lendo o texto, sabemos que os judeus são inocentes. Não conseguimos acreditar na acusação, que nos parece estapafúrdia demais. Contudo, ao dizer que o poema de Machaut era um “texto de perseguição”, eu já tinha dado a entender a inocência dos judeus.

Aliás, Quando hoje se diz que alguma coisa é hate speech, o que motiva essa categorização? A perpetuação de estereótipos que justificam violências ou perseguições contra pessoas inocentes (daquilo de que são acusadas). Existe uma relação cultural direta entre a consciência progressiva da vitimação, trazida pela cultura judaico-cristã, e movimentos que pretendem apartar-se dessa mesma cultura.

***

Após essas considerações, cabe fazer ainda outras distinções, e nisto essencialmente repetirei o que disse o prof. Jean-Pierre Dupuy há duas semanas, na Escola de Inverno René Girard.

Em A Violência e o Sagrado, existem dois momentos distintos da violência: o assassinato e o sacrifício, que correspondem, por sua vez, ao linchamento e ao rito.

Girard julga que o mecanismo do bode expiatório é um mecanismo encontrado por grupos primitivos de hominídeos para conter sua violência interna. Seria, portanto, uma vantagem evolutiva. Após um linchamento, esses grupos teriam conseguido perceber que sua repetição encenada, o rito, poderia apaziguar os ânimos.

Haveria então o primeiro momento, de todos contra todos, em que a violência acaba se dirigindo sem deliberação para uma única pessoa: trata-se do linchamento, do assassinato.

No segundo momento, a violência é dirigida de maneira deliberada para uma única pessoa: trata-se do ritual, do sacrifício.

Para nós, modernos, de cultura cristã, a expressão corrente “bode expiatório” pode ser aplicada às duas vítimas, porque as duas são inocentes do crime de que são acusadas. No entanto, ao dizer que a cultura humana se baseia no rito e portanto no sacrifício e no bode expiatório, estamos falando do segundo tipo de vítima.

E sim, claro que todo sacrifício humano é um assassinato, mas nem todo assassinato é um sacrifício.

É equivocado, é claro, tratar uma minoria perseguida como bode expiatório nesse segundo sentido, que é menos abrangente. Mesmo que se fale em violência “estrutural”, ou numa violência perpetuada por costumes, ela será sempre metafórica em comparação à violência ritualizada de uma cultura arcaica. Sem contar que certos grupos tratados como vítimas não são vítimas da violência, mas, como bem assinala Jean-Pierre Dupuy, vítimas da indiferença.

Para voltarmos a O Cavaleiro das Trevas, podemos dizer que a persistência do tema do bode expiatório se deve ao sentimento de indignação que muitos de nós, numa cultura cristianizada (e por “cristianizada” quero dizer: uma cultura de defesa das vítimas), sentimos diante da persistência de perseguições e de violências contra pessoas inocentes dos crimes dos quais são acusadas.

O desafio lançado pela cultura judaico-cristã, no entanto, e que vai marcar a experiência da “conversão romanesca” em sentido girardiano, é a vivência subjetiva de sermos nós mesmos perseguidores. Para nós, é fácil adotarmos o ponto de vista do perseguido; entender quando e onde perseguimos, porém, é difícil, porque, como sabemos, da própria noção moderna de bode expiatório sai a frase sempre repetida por Girard: ter um bode expiatório é não saber que se tem um bode expiatório.

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