Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Batman

O bode expiatório

Na teoria girardiana, existe um ambiguidade proposital na expressão “bode expiatório” que deriva diretamente da maneira como ela é usada na língua comum. Se dizemos que alguém é um bode expiatório, então estamos dizendo que esse alguém é um bode expiatório de outras pessoas, que acreditam de fato na culpa desse bode expiatório. Ou seja: para nós, esse alguém é um bode expiatório, alguém inocente, porém considerado culpado; para os outros, esse alguém é de fato culpado.

Ao escrever os posts sobre o filme O Cavaleiro das Trevas, observei aqui no blog que sua apreciação dependia justamente dessa ambiguidade. O público do filme sabe que o Batman é inocente, porque vê a história do Batman contada a partir do ponto de vista do Batman; o público da cidade de Gotham não conhece a história íntima e por isso acredita na culpa do Batman. A bem da verdade, boa parte do cinema de hoje em dia se baseia nessa ambiguidade, nesse convite: “entenda, público de fora da obra, que o que você vê será visto de maneira inversa pelo público de dentro da obra”.

René Girard principia o livro O Bode Expiatório com uma discussão de um texto de perseguição medieval, um poema de Guillaume de Machaut no qual os judeus são acusados de envenenar a água de uma cidade. Hoje, lendo o texto, sabemos que os judeus são inocentes. Não conseguimos acreditar na acusação, que nos parece estapafúrdia demais. Contudo, ao dizer que o poema de Machaut era um “texto de perseguição”, eu já tinha dado a entender a inocência dos judeus.

Aliás, Quando hoje se diz que alguma coisa é hate speech, o que motiva essa categorização? A perpetuação de estereótipos que justificam violências ou perseguições contra pessoas inocentes (daquilo de que são acusadas). Existe uma relação cultural direta entre a consciência progressiva da vitimação, trazida pela cultura judaico-cristã, e movimentos que pretendem apartar-se dessa mesma cultura.

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Após essas considerações, cabe fazer ainda outras distinções, e nisto essencialmente repetirei o que disse o prof. Jean-Pierre Dupuy há duas semanas, na Escola de Inverno René Girard.

Em A Violência e o Sagrado, existem dois momentos distintos da violência: o assassinato e o sacrifício, que correspondem, por sua vez, ao linchamento e ao rito.

Girard julga que o mecanismo do bode expiatório é um mecanismo encontrado por grupos primitivos de hominídeos para conter sua violência interna. Seria, portanto, uma vantagem evolutiva. Após um linchamento, esses grupos teriam conseguido perceber que sua repetição encenada, o rito, poderia apaziguar os ânimos.

Haveria então o primeiro momento, de todos contra todos, em que a violência acaba se dirigindo sem deliberação para uma única pessoa: trata-se do linchamento, do assassinato.

No segundo momento, a violência é dirigida de maneira deliberada para uma única pessoa: trata-se do ritual, do sacrifício.

Para nós, modernos, de cultura cristã, a expressão corrente “bode expiatório” pode ser aplicada às duas vítimas, porque as duas são inocentes do crime de que são acusadas. No entanto, ao dizer que a cultura humana se baseia no rito e portanto no sacrifício e no bode expiatório, estamos falando do segundo tipo de vítima.

E sim, claro que todo sacrifício humano é um assassinato, mas nem todo assassinato é um sacrifício.

É equivocado, é claro, tratar uma minoria perseguida como bode expiatório nesse segundo sentido, que é menos abrangente. Mesmo que se fale em violência “estrutural”, ou numa violência perpetuada por costumes, ela será sempre metafórica em comparação à violência ritualizada de uma cultura arcaica. Sem contar que certos grupos tratados como vítimas não são vítimas da violência, mas, como bem assinala Jean-Pierre Dupuy, vítimas da indiferença.

Para voltarmos a O Cavaleiro das Trevas, podemos dizer que a persistência do tema do bode expiatório se deve ao sentimento de indignação que muitos de nós, numa cultura cristianizada (e por “cristianizada” quero dizer: uma cultura de defesa das vítimas), sentimos diante da persistência de perseguições e de violências contra pessoas inocentes dos crimes dos quais são acusadas.

O desafio lançado pela cultura judaico-cristã, no entanto, e que vai marcar a experiência da “conversão romanesca” em sentido girardiano, é a vivência subjetiva de sermos nós mesmos perseguidores. Para nós, é fácil adotarmos o ponto de vista do perseguido; entender quando e onde perseguimos, porém, é difícil, porque, como sabemos, da própria noção moderna de bode expiatório sai a frase sempre repetida por Girard: ter um bode expiatório é não saber que se tem um bode expiatório.

Batman: O cavaleiro das trevas — 2

O Coringa interpretado por Heath Ledger

Não há, no sistema penal, nenhum princípio de justiça que realmente se distinga do princípio de vingança. É o mesmo princípio que opera nos dois casos, o princípio de reciprocidade violenta, de retribuição. Ou esse princípio é justo e a justiça já está presente na vingança, ou não há justiça em lugar nenhum. Sobre aquele que decide vingar-se por conta própria, a língua inglesa afirma: he takes the law into his own hands, “ele faz justiça com as próprias mãos”. Não há diferença de princípio entre vingança privada e vingança pública, mas há uma diferença enorme no plano social: a vingança não é mais vingada; o processo é concluído; o risco de uma escalada é afastado.

René Girard, “O sacrifício”, primeiro capítulo de A Violência e o Sagrado.1

Antes de retomar discussões sobre o Brasil e o Degree, vamos comentar um pouco mais O cavaleiro das trevas, filme que se distingue por apresentar de maneira tão escancarada temas explicitamente girardianos. Dificilmente se encontrará um filme mais in your face nesse sentido.

E isso, além dos pontos que já salientamos, porque o Coringa insiste na questão da imitação o tempo todo. Ele quer ser o anti-Batman insistindo na semelhança com o homem-morcego, e fica dizendo que eles dois são freaks, que precisam um do outro etc. O Batman, sendo “do bem”, quer que suas ações sejam governadas pela justiça, mas o Coringa explicita que por baixo da ideia de justiça está a de vingança, de retribuição. A disputa entre os dois personagens é semelhante à discussão sobre o aborto ou a praticamente qualquer outra discussão política: o que está em jogo é a maneira de formular o problema, porque a resposta vai decorrer naturalmente da formulação. Assim como no aborto ou está em jogo a vida dos bebês (devemos proteger os bebês) ou a vida das mães que se arriscam em condições precárias (devemos proteger as mães), ou o Batman atua como auxiliar do Estado e promotor da justiça (versão do Batman), ou ele é igual ao Coringa e está metido numa relação de reciprocidade violenta em cujo rastro não faltam vítimas (versão do Coringa).

O detalhe interessante é que nesse tipo de relação imitativa o mais comum, quase o “normal”, é que nenhum lado admita-se ou proponha-se imitador. Um lado bate, o outro reage por sentir-se lamentavelmente obrigado a isso, os dois lados acreditam nessa versão. Mas o Coringa diz-se igual ao Batman, e o Batman, que, junto com o Comissário Gordon, conhece todas as leis do mecanismo do bode expiatório, que sabe que sua motivação para o combate ao crime é uma reação ao assassinato dos pais, não pode admitir-se imitador do Coringa. E com boa razão: o Estado existe para conter as vinganças e para a proteção dos acusados (evitando, por exemplo, seu linchamento). Mesmo que o Estado seja imperfeito como tudo que é humano, seu ideal deve ser não imiscuir-se na lógica da retribuição violenta. Para o Batman ter alguma credibilidade perante o público do filme, ele não pode se deixar levar.

O Coringa ainda demonstra um conhecimento perspicaz do mimetismo ao admitir que o objeto que ele deseja possuir, e que diz disputar com o Batman, é numa certa medida intangível: “o coração e a alma de Gotham”. À medida que as disputas miméticas se acirram, seu objeto tende a desaparecer. Dois homens brigam por uma mulher e logo desejam simplesmente matar um ao outro. O motivo da briga vai ficando mais rarefeito: ora é uma mulher, um território, e logo é a honra, a justiça, ou “o coração e a alma” de uma cidade. Ou ainda, antes disso, lembremos que o Coringa queimou uma pilha de dinheiro — e dinheiro nada mais é do que valor quantificado, que pode corresponder a qualquer objeto — dizendo que o importante era “passar uma mensagem”, isso é, atingir o outro lado.

Mas até o dinheiro é tangível. Pode ser quantificado. E, mesmo que o efeito buscado pelo filme tenha sido apenas dramático, mostrando pilhas de dinheiro, fica uma pergunta ligada ao objeto final, mais difícil de delimitar. Como saber se você realmente conquistou “o coração e a alma de Gotham”?

O Coringa prepara um teste muito interessante. Coloca dois grupos de pessoas nos catamarãs que cruzam um dos rios em volta de Gotham (Manhattan). Num catamarã está um grupo de presidiários; no outro, um grupo de cidadãos que nunca foram presos e que devemos supor honestos e de bem. Cada grupo é informado de que dali a tanto tempo seu catamarã vai explodir — a menos que coletivamente cada grupo decida explodir o outro catamarã. Recordemos o que Sócrates diz no Górgias (475c): “É melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça.” Um dos presidiários assume o controle da situação e impede que o outro catamarã seja explodido. Gracas à renúncia da violência, nada acontece. E assim, de certo modo, por uma decisão moral, mesmo que a população termine contra o Batman, não se pode dizer que o Coringa tenha dominado “o coração e a alma de Gotham”.

Todavia, devemos evitar a tentação de olhar toda violência como se fosse sacrificial. Nesse caso dos catamarãs, um lado não estaria disposto a “sacrificar” o outro no sentido de fazer dele um bode expiatório. Abel não foi um bode expiatório para Caim. A morte de um dos lados viria dentro da lógica de retribuição. Para salvar “o coração e a alma de Gotham”, é preciso que Gotham ofereça a outra face e prefira, curiosamente, sofrer a injustiça a aceitar privatizar a violência. É preciso que Gotham queira sair da lógica da retribuição violenta privada. Essa é a fundação do Estado de direito: a transferência da retribuição a quem faz mal a você. Para além das conotações religiosas dessa reflexão, vale observar que, dentro da perspectiva evolutiva presente nos escritos de René Girard, é essa passagem da violência para a esfera pública que permite que os grupos humanos não se extingam por meio de homicídios intestinos.

NOTA


  1. Traduzido de De la Violence à la divinité (Paris: Grasset, 2007, p. 315), uma coletânea dos quatro primeiros livros de Girard. Na edição brasileira de A Violência e o Sagrado (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998, segunda edição), o trecho está na p. 28.

Batman: O cavaleiro das trevas — 1

Retomando o post anterior, gostaria de comentar um filme de super-heróis que desde sempre me pareceu repleto de temas girardianos, mas antes gostaria de fazer uma ressalva. Muitas obras prestam-se com maior ou menor facilidade a uma análise mimética; o que chama a atenção nas histórias de super-heróis que conheço é que os temas comuns na obra de René Girard — a formação de duplos, o bode expiatório — estejam absolutamente escancarados. Assim, a discussão das histórias de super-heróis parece uma boa introdução às questões do mimetismo, as quais, se podem ficar cada vez mais refinadas, permanecem estruturalmente as mesmas. Esta é uma das belezas da teoria de René Girard: relativamente simples de enunciar, ela se presta a aplicações muito sofisticadas, mas não — por favor — mecânicas.

Também por uma questão de método, mesmo que isto seja um blog e não um periódico acadêmico, parece razoável delimitar mais claramente o escopo da análise, e por isso gostaria de falar de apenas um filme, lançado perto da época em que eu começava a me aprofundar na teoria, e que deixou em mim uma impressão fortíssima. Revi o filme algumas vezes ao longo dos anos, já escrevi algo a respeito. Gostaria de, com o exemplo deste post, estimular outras pessoas que conheçam melhor outros super-heróis a apresentar suas ideias.

Batman: justiceiro e bode expiatório

Como a questão de spoilers é extemporânea aqui, apresentarei o enredo sem preocupar-me. O cavaleiro das trevas, de Christopher Nolan, é o filme que apresenta o confronto do Batman com o Coringa. O mimetismo está presente desde a primeira sequência, que mostra os imitadores do Batman tentando combater o crime pela cidade.

O próprio personagem do Batman, por sua vez, coloca-se no coração da questão da violência, cujo monopólio caberia ao Estado. Contudo, se o Estado não combater o crime de maneira eficaz, ficariam justificadas as intervenções de, digamos, instâncias privadas? E isso não evidenciaria, mais do que um contraste, uma oposição entre as ordens jurídica e moral? Essa oposição não minaria por si toda a autoridade do Estado?

Podemos até agradecer porque não existem super-heróis de verdade. Uma coisa é discutir essa questão teoricamente, e outra coisa seria vê-la como questão prática…

Mas o filme de Nolan não seria genial se não buscasse também esse lado prático, que vai muito além da tentação do esquematismo. A discussão de qualquer questão exige que ela seja reduzida (vejam por exemplo a Suma teológica: São Tomás de Aquino reduz todas as questões a termos menos ambíguos antes de discuti-las), mas o propósito de uma obra de arte, quando não se trata de uma obra “de tese”, não é discutir nem suscitar questões, mas comover o espectador — mesmo que, é claro, essa comoção passe por alguma reflexão.

Por isso, não se trata de pensar: temos um justiceiro, um vigilante (segundo o termo inglês) que, com sua fantasia de morcego e suas engenhocas, está fazendo o que a polícia deveria fazer. Nem todos olham essa figura misteriosa, que não se submete a nenhum controle, de maneira benévola. O público do filme vê a história do ponto de vista do Batman — assim como o leitor dos Evangelhos os lê desde o ponto de vista de Cristo — e por isso sabe que ele é inocente. O público do filme ainda sabe que o Batman é vítima de calúnias, e que aqueles que o caluniam são os principais vilões. Como se isso não bastasse, no final do filme o Batman ainda leva, perante o público de Gotham, a culpa pela morte do grande símbolo de justiça da cidade, o promotor (district attorney) Harvey Dent, e leva porque, como diz o comissário Gordon, ele — assim como Cristo, que o comissário não precisa mencionar — consegue aguentar o tranco da perseguição.

Podemos fazer um pequeno exercício imaginativo. Um habitante de Gotham City que não dispusesse das mesmas informações sobre o Batman dadas pelo filme, e que fosse um mero habitante, ficaria de que lado? Não teria ele o direito de suspeitar do Batman e de preferir os caminhos habituais da lei e do Estado? Quando um presidente inicia sozinho uma guerra contra outro país, não tendemos a acreditar que ele está agindo indevidamente como justiceiro entre as nações?

São essas meditações que nos levam a não descartar a pergunta de Pilatos: o que é a verdade? Digo isso porque por trás dos questionamentos anteriores está um pressuposto simples: “se as pessoas soubessem a verdade, ficariam do lado X”. Nós sabemos a verdade sobre Cristo, a “verdade” sobre Batman — que corresponderia à narrativa contada desde seu ponto de vista — e por isso ficamos ao lado deles. Concedemos nossa aprovação moral a esses personagens. E no entanto há pessoas que não conhecem essa verdade ou que duvidam dessa narrativa — daí também a tendência geral das Humanidades hoje em reduzir tudo a “narrativas” ou a confrontos de pontos de vista (nos quais a vítima tem sempre razão; daí a competição pelo papel de vítima).

O interesse de um Batman, portanto, é apocalíptico no sentido que essa palavra tem na obra de René Girard. Se “apocalipse” (apokálypsis) significa “revelação”, essa revelação é, no plano antropológico, a revelação do mecanismo do bode expiatório. Contudo, como insiste Girard, é preciso desconhecer que o bode expiatório é um bode expiatório para que o mecanismo funcione; você precisa realmente crer em sua culpa. Como, então, gerenciar a necessidade de bodes expiatórios quando seu mecanismo é conhecido por todos?

É isso que Batman e o Comissário Gordon tentam gerenciar em O cavaleiro das trevas: façamos do Batman um bode expiatório, porque ele aguenta o tranco de ser perseguido (afinal, ninguém sabe que na verdade ele é um bilionário playboy), enquanto mantemos a inocência de uma figura que se corrompeu (o comissário Harvey Dent, que, contagiado pela vingança, se transforma no Duas Caras).

E no entanto, permanecemos com uma questão: por que o público do cinema é mais inteligente do que o público de Gotham? Por que o público do filme pode conhecer a verdade, e o público da cidade imaginária não pode?

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