Evolução e Conversão

Evolução e Conversão, pp. 108-110.

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA E PIERPAOLO ANTONELLO: …poderíamos dizer que, assim como o desejo mimético não é uma invenção moderna, o mecanismo do bode expiatório é visível não apenas nos rituais primitivos ou sociedades arcaicas, mas também está presente no mundo moderno.

RENÉ GIRARD: É verdade. E para compreender como o mecanismo do bode expiatório funciona nas sociedades modernas, é necessário mais uma vez começar com o desejo mimético. O paradoxo do desejo mimético consiste no fato de parecer solidamente fixado em um objeto específico, quando, na verdade, é inteiramente oportunista. Quando tende a tornar-se oportunista, o desejo mimético orienta-se paradoxalmente por modelos substitutos, antagonistas substitutos. A era dos escândalos na qual vivemos corresponde a um deslocamento do desejo. Um grande skándalon coletivo equivale ao pequeno skándalon entre dois vizinhos multiplicado muitas vezes. Permitam-me insistir que, nos Evangelhos, skándalon significa rivalidade mimética, e, portanto, a ambição vazia, os ridículos antagonismos e ressentimentos recíprocos que todo mundo sente por todo mundo, pela simples razão de que nossos desejos às vezes são frustrados. Quando o skándalon em pequena escala se torna oportunista, tende a unir-se ao maior skándalon em curso, tranquilizando-se pelo fato de sua indignação ser partilhada por muitos. Nesse momento, a mímesis se torna “lateral”, em vez de voltar-se apenas para o vizinho, e isso é sinal de crise, de contágio crescente. O escândalo maior devora os menores, até restar um único escândalo, uma única vítima – assim funciona o mecanismo do bode expiatório. O ressentimento crescente que as pessoas sentem por causa do aumento da magnitude dos rivais miméticos desencadeia um ressentimento maior em direção a um elemento da sociedade, por exemplo os judeus durante o nazismo na Alemanha, o caso Dreyfus na França do final do século XIX, os imigrantes africanos na Europa contemporânea, os muçulmanos nos recentes atentados terroristas. Há um magnífico exemplo desse fenômeno em Júlio César, de Shakespeare: o recrutamento mimético dos conspiradores contra César1. Na peça, Ligário, um dos conspiradores, está muito doente, mas a ideia de matar César o restabelece, e seu ressentimento difuso se concentra. Ele esquece tudo, pois César passa a ser o alvo fixo de seu ódio. Que progresso! Infelizmente, nove entre dez políticos agem assim. O chamado espírito partidário não é nada além de escolher o bode expiatório que todos os demais. Porém, graças à revelação cristã da inocência fundamental daqueles vitimados como bodes expiatórios, e da arbitrariedade fundamental da acusação contra eles, essa polarização do ódio logo é revelada como aquilo que é, e a resolução unânime final não acontece. Como já falei do cristianismo, permita-me esclarecer rapidamente meu argumento a respeito da posição especial que ele ocupa na história do mecanismo mimético (ainda que a maioria dos meus leitores provavelmente já saiba disso).

Resumindo, antes do advento do judaísmo e do cristianismo, o mecanismo do bode expiatório era aceito e justificado porque permanecia despercebido. Ele trazia a paz de volta para a comunidade no apogeu da crise mimética caótica. Todas as religiões arcaicas baseavam seus rituais exatamente em torno da reprodução do assassinato fundador. Em outras palavras, elas consideravam o bode expiatório culpado da erupção da crise mimética. Por outro lado, o cristianismo, na figura de Jesus, denunciou o mecanismo do bode expiatório, mostrando o que ele verdadeiramente é: o assassinato de uma vítima inocente, morta para pacificar uma comunidade tumultuada. É nesse momento que o mecanismo mimético é totalmente revelado.

  1. Ver Júlio César, Ato II, Cena I. Ver igualmente René Girard, Shakespeare: Teatro da Inveja. Trad. Pedro Sette-Câmara. São Paulo, Editora é, 2010, p. 367-69. ↩︎