Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

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Deus Ineffabilis, novo livro de Carlos Mendoza-Álvarez

Deus Ineffabilis

No XV Congresso da ABRALIC semana que vem (19 a 23 de setembro, na UERJ), teremos a presença de três autores da Biblioteca René Girard: William Johnsen (em sua segunda visita ao Brasil), Carlos Mendoza-Álvarez, e Trevor Cribben Merrill.

Carlos Mendoza-Álvarez lançará durante a ABRALIC seu segundo título da Biblioteca René Girard, Deus Ineffabilis — Uma Teologia Pós-Moderna da Revelação do Fim dos Tempos.

O objetivo desta obra é aprender a evocar Deus com esperança, no meio dos escombros da sociedade pós-moderna. A teologia fundamental da ideia de revelação proposta em Deus Ineffabilis responde às inquietudes dessa sociedade, que busca um habitat sustentável, onde todos possam caber.

Padre dominicano nascido no México, Mendoza-Álvarez graduou-se em Filosofia em seu país natal e doutorou-se em Teologia na França e Suíça. Procura articular a hermenêutica de Paul Ricoeur, a ética da alteridade de Emmanuel Levinas e a teoria mimética de René Girard, numa análise fina da condição pós-moderna.

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Lançamento: Mímesis e Invisibilização Social

Mímesis e Invisibilização Social

A Biblioteca René Girard conta com um novo lançamento: Mímesis e Inviabilização Social: A Interdividualidade Coletiva Latino-Americana. Traduzido por Simone Campos, o livro foi organizado por José Luiz Jobim, Mariana Méndez-Gallardo, e Carlos Mendoza-Álvarez, o qual já tem um título publicado na biblioteca: O Deus Escondido da Pós-Modernidade.

A Sinopse:

Este livro é fruto de reflexões e debates realizados por um grupo latino-americano interdisciplinar (Filosofia, Antropologia, Ciências da Religião, Letras etc.) de teoria mimética que coloca em questão a pertinência e a urgência de pensar o crescente fenômeno da violência social no mundo. Sua finalidade é elaborar critérios para a compreensão deste fenômeno e oferecer pistas para gerar e acompanhar novas práticas a partir das quais prevaleçam a justiça, a equidade, a democracia. Trata-se de formular narrativas da reconstituição do tecido social, retomando sabedorias populares que permitam a superação dos conflitos e a edificação de sociedades inclusivas em que os outros se tornem visíveis e reconhecíveis em sua dignidade e diferença.

Texto de Contracapa:

Mímesis e Invisibilização Social: A Interdividualidade Coletiva Latino-Americana leva adiante uma nova fase da Biblioteca René Girard, a vertente “Diálogos”. Seu principal objetivo é o de ampliar a recepção da teoria mimética, enriquecendo-a pela diferença da abordagem. Essa vertente aproxima autores que não são necessariamente girardianos, porém cujas preocupações guardam relevantes afinidades eletivas com o instigante pensamento de René Girard.

Assim: contrastes e confrontos: “Diálogos” — portanto.

Em outubro de 2014, no lançamento de ¿Culturas Shakepearianas? Teoría Mimética y América Latina, de João Cezar de Castro Rocha, a Universidad Iberoamericana, graças à iniciativa de Carlos Mendoza-Álvarez, promoveu o colóquio internacional “La Interdividualidad Colectiva: Sobre las Paradojas de la Invisibilización Social del Otro”, a fim de discutir o quadro teórico proposto pelo autor brasileiro, com ênfase no conceito de interdividualidade coletiva e invisibilidade fraca, contribuições propriamente latino-americanas ao pensamento girardiano.

O presente livro reúne as contribuições apresentadas naquele colóquio internacional.

Um bonde chamado desejo

Artigo publicado originalmente em El País.

por Carlos Mendoza-Álvarez

Conheci René Girard numa tarde de outono em Paris no ano de 2007. Sua esposa Martha me aguardava na porta de seu apartamento perto da torre Eiffel, com um sorriso amável e um pouco de chá. Seu esposo estava doente, mas concedeu-me algumas horas de entrevista, pois estava interessado em saber o que nós latino-americanos pensávamos sobre a teoria mimética, e poderia desenvolver-se aquela intuição que surgiu de seus estudos literários, mas agora em contextos culturais diversos e diante de problemas crescentes de violência.

Cinquenta anos antes, o jovem investigador que emigrou para os Estados Unidos — onde, após um périplo, acabou dando aula por décadas em Stanford — tinha publicado seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), onde explorava a literatura ocidental como narrativa do desejo, com as rivalidades que geram, cedo ou tarde, os sacrifícios que mantêm viva uma comunidade. Ao longo de cinquenta anos, essa intuição de esquadrinhar o desejo levou-o a caracterizar os mecanismos da imitação até postular uma teoria original: todo desejo é uma mímesis de apropriação, mas não tanto do outro como objeto de desejo, o que já tinha sido assinalado por Platão, mas como apropriação do modelo buscado por essa relação de alteridade indiferenciada. Em suas obras seguintes, A Violência e o Sagrado (Paris, 1972), Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (Paris, 1978) e O Bode Expiatório (Paris, 1982), o pensador nascido em Avignon continuou pesquisando na mitologia das diversas culturas da humanidade, incluindo a bíblica, o papel do assassinato fundador como origem da cultura. Porém, até suas últimas obras, Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago (Paris, 1999), Evolução e Conversão Rio de Janeiro, 2000 [com o título de Um Longo Argumento do Princípio ao Fim]) e Rematar Clausewitz (Paris, 2007), que Girard, junto com seus interlocutores, fechou o círculo hermenêutico para explicar o mecanismo do bode expiatório, propondo uma conclusão que deixou boquiaberta a maioria dos estudiosos do social e do político: a inocência absoluta da vítima em todo processo de violência como verdade antropológica fundamental e a mentira correlacionada do processo vitimário que justifica o sacrifício de alguns para a sobrevivência do resto.

A teoria mimética chegou rapidamente à América Latina. Já em 1989 o teólogo Hugo Assman organizou no Brasil um colóquio dos teólogos da libertação com René Girard, cujo resultado foi publicado em Petrópolis em 1991. Como consequência deste primeiro encontro latino-americano, vários dos discípulos de Girard em Stanford, como o crítico brasileiro João Cezar de Castro Rocha, o teólogo inglês radicado no Brasil James Alison e o filósofo colombiano Roberto Solarte começaram a organizar colóquios interdisciplinares em São Paulo, em Bogotá e no Rio de Janeiro para debater e aprofundar as contribuições da teoria mimética. Os temas, no início, eram aqueles próprios da cultura universitária: a literatura latino-americana como imitação da europeia e da norte-americana, deixando na sombra muitos dos invisibilizados por esse sistema; ou, ainda, o impacto da rivalidade mimética na discriminação sexual das minorias ou dos movimentos de violência armada.

Coube-me participar de vários destes encontros, onde captei a profundidade e o alcance da teoria mimética para compreender as difíceis relações intersubjetivas entre pessoas e coletivos. Porém, me fazia falta um vínculo mais claro com os processos de libertação dos povos latino-americanos e suas resistências culturais e anti-hegemônicas, muitas delas recorrendo à violência armada e outras à não-violência ativa. Por isso propus a colegas de diversas universidades mexicanas e latino-americanas conversar sobre esses desafios, mas desde o Sul, a partir de uma pergunta básica: como interpretar a práxis de resistência de movimentos sociais, de gênero, de povos nativos e de outros coletivos, na lógica do desejo mimético? Três livros surgiram desses encontros nos últimos cinco anos, publicados pela Universidad Iberoamericana Ciudad de México e pelo Sistema Universitario Jesuita: ¿Culturas Shakespearianas? Teoría Mimética y América Latina (Guadalajara, 2014), de João Cezar de Castro Rocha; Caminos de Paz. Teoría Mimética y Construcción Social (México, 2015); e Mímesis y Alteridad. La Interdividualidad Colectiva Latinoamericana (México, no prelo), os dois últimos coordenados pelo autor destas linhas.

A contribuição de Girard para a cultura contemporânea é crucial para compreender a espiral de violência que vivemos na aldeia global, seja na escala micro, em processos intersubjetivos de casais, de famílias ou de ideias, ou ainda em escala macro, nas redes de injustiça, de impunidade e de violência sistêmica do país, da região e do mundo globalizado. O enfrentamento da violência demanda a compreensão do processo vitimário, a força das resiliências e a potência do perdão como um horizonte de liberdade complexo e difícil.

Girard é incômodo para todo poder que se constitui à força da invisibilização social de muitos. Os poderes que justificam a violência nos altares do bem comum são perversos e, como diria Girard, satânicos.

Um bonde chamado desejo pode levar a humanidade ao precipício ou a novos vales de sobrevivência. A humanidade hoje enfrente um desafio vital de sobrevivência, junto com o planeta inteiro: ou “continuar vivendo na mentira de Satanás”, que consiste em sacrificar inocentes para a sobrevivência de alguns, ou “atrever-se a uma conversão” ética, política e espiritual para viver a verdade do Messias na lógica da superação do ressentimento.

Quando os muros do ódio caem, abrem-se rachaduras de sobrevivência. Este é o legado de René Girard, e o chamado urgente a pensar a guerra global que vivemos no incerto tempo presente.

Carlos Mendoza-Álvarez é professor do Departamento de Ciências Religiosas da Universidad Iberoamericana Ciudad de Mexico e publicou, pela Biblioteca René Girard, O Deus Escondido da Pós-Modernidade.

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