Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Daniel Lance

A gênese de uma ideia

Aproveitando o post anterior, sobre o livro de Daniel Lance, vale chamar a atenção também para o livro Dostoiévski: Do Duplo à Unidade*, de René Girard. O livro é vendido com um DVD com a ótima entrevista que Daniel Lance fez com René Girard em sua casa, em Stanford, em 2009. Abaixo, alguns trechos dessa entrevista.

*Numa outra nota, Richard Pevear, que junto com sua esposa Larissa Volokhonsky produziu a mais celebrada versão inglesa de Os Demônios, de Dostoiévski, destaca em seu prefácio à tradução
justamente o livro Dostoiévski: Do Duplo à Unidade.

Além do Desejo, de Daniel Lance

Além do Desejo

Além do Desejo

Além do Desejo, de Daniel Lance, um dos últimos lançamentos da Biblioteca René Girard, é de fato um livro instigante. Como diz o próprio René Girard na contracapa, “Este ensaio contém muitas intuições extraordinárias. Algumas que reconheço, outras que eu desconhecia; estas me parecem ainda mais interessantes que aquelas.”

Com uma recomendação dessas em mente, demos uma olhada no livro.

Lance — que pude conhecer no Seminário Internacional René Girard em São Paulo, há alguns anos — inicia o livro examinando três dramaturgos: Paul Claudel, Jean Genet e Tennessee Williams. Se a ligação entre Genet e Williams talvez não surpreenda, a associação dos dois, especialmente Genet, com Paul Claudel, é bastante surpreendente (e o próprio Claudel ficaria bastante surpreso, com certeza). Claudel é um dos autores mais assumidamente católicos do século XX; Jean Genet, chamado às vezes de Saint (“São”) Genet, é praticamente associado a uma postura satânica. Contudo, essa associação pode mostrar que a intuição dos mecanismos do desejo é a mesma, independentemente da atitude do artista. Não se trata, é claro, de separar o homem de sua arte (creio que nem Claudel, nem Genet aceitariam essa dissociação), mas de entender que há respostas diferentes.

Lance reproduz em pequena escala a estrutura da obra do próprio Girard, isso é, passa do estudo da arte para a antropologia, sempre orientado pela intuição girardiana fundamental de que o desejo pode orientar-se para qualquer objeto, dependendo apenas do modelo. Por isso, não faria sentido em falar em identidades sexuais que existiriam a priori. Teoricamente, o desejo de qualquer sujeito pode voltar-se para qualquer objeto, bastando apenas que mudem o modelo e as condições. Assim, Daniel Lance examina modalidades hetero- e homossexuais de rivalidade e de aprendizado, passando da sociedade ocidental moderna a sociedades antigas e a certas tribos nas quais existem modalidades institucionalizadas de homossexualismo.

Como destaca em seu prefácio o professor João Cezar de Castro Rocha, Lance dá uma espécie de “passo atrás” no desejo mimético, distinguindo o desejo “metafísico”, ou desejo pelo ser do outro, do desejo sexual — distinção essa que é claramente funcional, podendo, na prática, os dois desejos estarem perfeitamente associados. Lance, porém, declara interessar-se pelo aspecto sexual, o que o leva a fazer distinções que, por sua vez, parecem pautadas pelo critério metafísico:: uma das grandes ênfases do livro está na distinção entre sexualidade movida pela rivalidade (e em Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo é esse tipo que aparece) e sexualidade movida pelo aprendizado, isso é, sexualidade sem rivalidade, justamente porque os papéis sexuais estão perfeitamente diferenciados.

Vale ainda observar que, mesmo que Lance enfatize o aspecto “sexual”, como há um aspecto “metafísico” do desejo, isso é, um desejo pelo ser do outro, a sexualidade pelo aprendizado, presente por exemplo em sociedades guerreiras ou em ritos de iniciação de caçadores, parte do pressuposto de que o ser do homem mais velho é desejável e estabelece canais institucionais de transferência desse ser aos mais novos. Lance, é claro, não deixa de observar o aspecto de double bind que existe nas posições ativa e passiva dessa relação.

Se existe hoje em nossa cultura moderna uma certa guerra de identidades sexuais, o livro de Lance vem mostrar que a questão pode ser infinitamente mais complexa. Lance propõe um esquema, um continuum de sexualidades, e ao final afirma que podem haver tantas “sexualidades” quanto indivíduos, o que quer dizer que o desejo pode organizar-se de miríades de maneiras diferentes, com triangulações de tipo sujeito-modelo-objeto sobre triangulações. E, se há uma questão normativa, ética, para Lance, ela consiste fundamentalmente em tratar o outro sempre como um sujeito, e não como mero objeto.

© 2017 Miméticos

Theme by Anders NorenUp ↑