Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: desejo metafísico

Gramáticas do desejo: uma aproximação de René Girard e Émile Benveniste

por Christiano Galvão, graduado em História pela Autarquia Educacional de Belo Jardim.

A intuição girardiana de que a cultura humana se radica numa dinâmica mimética do desejo nos desafia a conjeturar até que ponto essa mesma dinâmica influiu no surgimento da linguagem — principal vetor cultural. Em algumas de suas obras, como Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo e Um Longo Argumento do Início ao Fim, René Girard já havia levantado a hipótese de que o cadáver da vítima expiatória poderia atuar, entre outras coisas, como o primeiro “significante transcendental”, capaz de produzir desde si signos linguísticos de diferenciação, como vivo e morto, bom e mau, dentro e fora, etc., fundando um sistema binário de comunicação simbólica que, assim como o próprio mecanismo sacrificial, seria de recorrência universal: Não há cultura no mundo que não afirme como primeiros e fundamentais na ordem da linguagem, os vocábulos do sagrado.1

Mas, como dito acima, a hipótese aqui sugerida partiria de um ponto anterior, ou mesmo posterior à crise sacrificial geradora destes signos linguísticos, buscando averiguar se a simples dinâmica do desejo mimético não poderia também incidir nas convenções sintáticas da fala humana. Neste sentido, sem ousar propor gramáticas estruturalistas ou gerativas, poderíamos sondar caminhos já pavimentados por um linguista renomado como Émile Benveniste, e avaliar essa possibilidade de o desejo e a linguagem terem se desenvolvido numa insólita sinergia.

A opção por Benveniste não é casual. Como Girard, ele foi uma exceção nos meios acadêmicos de seu tempo (incluindo o estruturalista), distinguindo-se por uma metodologia que — sendo estritamente linguística — fez suas ideias repercutirem em campos diversos.2 A partir de um criterioso inventário dos nomes, pronomes e verbos dos ramos linguísticos indo-europeus, e de suas variadas sintaxes, Benveniste passou a lançar objeções contra hipóteses semióticas excessivamente solipsistas, demonstrando que, quando agrupadas num enunciado, as palavras submetem-se a relações paradigmáticas e sintagmáticas que produzem uma autêntica coerção semântica, permitindo expressar os aspectos referenciais da realidade humana e de suas experiências relacionais — cuja funcionalidade poderia remontar aos primórdios do convívio social.

Benveniste enfatizava ainda o caráter dialógico da linguagem, uma dinâmica necessariamente intersubjetiva, que é motivada por um Eu e um Tu acerca de um Ele (algo ou alguém, individual ou coletivo, abstrato ou concreto, presente ou ausente)3, o que encontra uma analogia na dinâmica triangular do desejo mimético, que também é necessariamente interdividual.

Apesar dessas afinidades, Benveniste não faz referência direta a uma correlação entre linguagem e desejo. Não obstante, suas análises histórico-comparativas de morfologia e de sintaxe revelaram uma carência ontológica que fez com que os mais arcaicos discursos humanos surgissem como enunciados de um recorrente desejo de autoafirmação. Curiosamente, porém, ele constatou que essa autoafirmação primitiva nunca era expressa pelo verbo ser, mas pelo verbo ter. O que parece denotar o aspecto aquisitivo do desejo humano, ou seja, aquilo que René Girard denominou de mímesis de apropriação.

Nos seus Problemas de Linguística Geral,4 Benveniste mostra que as formas verbais mais elementares para expressão de estado, existência e identidade, davam-se por lexemas que denotavam uma relação de apropriação, ou mais precisamente de posse — quer no sentido de possuir ou de estar possuído. Somente pela posse, tanto concreta quanto abstrata, o sujeito falante poderia se substantivar e adquirir predicados. Antes de dizer “Eu sou o dominador”, o ser humano dizia “Eu tenho domínios”, ou, antes de dizer “Eu sou belo”, ele dizia “Eu tenho beleza”. O “Eu” só adquiria existência, realidade e identidade quando referido a algo que não estava em si, mas numa relação de apropriação reciprocamente alienante, tornando-se ao mesmo tempo possuidor e possuído. Com efeito, Benveniste diz: “o ter é um ser-de invertido”.5 Aqui convém sublinhar que o prefixo grego όντος (ontos), presente por exemplo em “ontologia”, e que é usualmente traduzido como “o ser”, deriva do radical τὰ ὄντα (ta onta) cujo duplo significado é “realidade” ou “posse”.6 Poderíamos então inferir que o substantivo grego para ser alude semanticamente a uma existência que se realiza pela apropriação. Mas a razão pela qual o ter teria antecedido o ser na cronologia da linguagem humana como o primeiro verbo de estado foi algo que Benveniste jamais conseguiu elucidar. Aqui, poderíamos então nos perguntar se a dinâmica mimética que dá ao desejo aquisitivo um aspecto “metafísico” (que funciona a revelia de causas ou objetos físicos), não poderia explicar o advento do verbo ser como a expressão, radicalmente sintética, de estado, existência ou identidade, pela qual o sujeito falante consegue se substantivar e assumir predicados sem fazer referência a elementos extrínsecos. O próprio Benveniste parece divisar as peculiaridades ontológicas desses verbos, ao afirmar que: “ser presume uma relação intrínseca, ter uma relação extrínseca”.7

Especulações à parte, fato é que os estudos de Benveniste avizinham-se das intuições girardianas por detectar enunciados ou vestígios de enunciados alusivos a relações padronizadas de desejo; e por encontrar, através de sua catalogação do vocabulário indo-europeu, um número razoável de palavras tabus e de locuções circunscritas por uma zona de interdição sagrada, cuja semântica parece conter poderes insidiosos e violentos.8 É o caso da expressão homérica kydos, cuja tradução Girard comenta em A Violência e o Sagrado, destacando o bom senso de Benveniste em preservar as conotações mágico-religiosas, nas quais se projeta a falsa transcendência do double bind mimético.9

Essas poucas convergências talvez não sejam bastante para criação de uma linguística girardiana, mas abrem possibilidades de investigação relevantes não só para os linguistas, mas, potencialmente, para qualquer estudioso da teoria mimética.

REFERÊNCIAS

BENVENISTE, Émile. O vocabulário das instituições indo-europeias: Poder, Direito, Religião. Tradução: Denise Bottman. Campinas, SP: Unicamp, 1995. Vol. 2.

__________________. Problemas de Linguística Geral. Tradução: Maria da Glória Novak e Maria Luisa Néri. Campinas: Pontes, 1995. Vol. 1.

DOSSE, François. História do estruturalismo: o canto do cisne, de 1967 aos nossos dias. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Ensaio, 1994.

GIRARD, René. A Violência e o Sagrado. Tradução: Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

GIRARD, René. Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo. Tradução: Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2009.


  1. GIRARD, René. Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo. Tradução: Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2009. p. 128.

  2. DOSSE, François. História do estruturalismo: o canto do cisne, de 1967 aos nossos dias. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Ensaio, 1994. p. 68.

  3. BENVENISTE, Émile. Problemas de Linguística Geral. Vol. 1. Tradução: Maria da Glória Novak e Maria Luisa Néri. Campinas: Pontes, 1995.

  4. Émile Benveniste, ao abordar a funcionalidade linguística do “ser” e do “ter”, procurou analisar a razão pela qual esses dois verbos, tão distintos semanticamente, desempenham em diversos idiomas indo-europeus a mesma função sintática de verbos auxiliares, possibilitando enunciações de estado, realidade e identidade. Em momento algum, porém, de sua investigação ele deixa expresso que tal coincidência lexical possa ter resultado de uma dinâmica decorrente dos desejos que esses dois verbos exprimem. (BENVENISTE, Émile. Op. cit., pp. 204–227).

  5. Ibid. p. 215.

  6. Ibid. p. 205.

  7. Ibid. p. 218.

  8. BENVENISTE, Émile. O vocabulário das instituições indo-européias: Poder, Direito, Religião. Vol. 2. Tradução: Denise Bottman. Campinas, SP: Unicamp, 1995.

  9. GIRARD, René. A Violência e o Sagrado. Tradução: Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2008. pp. 190–193.

O desejo “metafísico”

Continuando a série sobre noções básicas girardianas, vamos apresentar a ideia de desejo “metafísico”, que é discutida longamente no capítulo “Os homens serão deuses uns para os outros”, o segundo de Mentira romântica e verdade romanesca, e rediscutida e mencionada em diversos outros pontos da obra de René Girard.

Como de costume, a noção é simples, mas permite aplicações sofisticadas. Podemos dizer que existe no desejo mimético um aspecto “metafísico” porque ele, em última instância, volta-se não para um objeto, mas para o ser do modelo que o designa. Descendo à banalidade, pense no seguinte: você enxerga pessoas com seus smartphones, e pensa que elas são conectadas, felizes e eficientes; o que você deseja é ser, como elas, conectado, feliz e eficiente, e o smartphone é apenas um instrumento para isso. Tanto é que você sabe que, após adquirir o seu objeto de desejo, o mundo mágico em que você esperava adentrar não se materializa; você apenas transfere sua expectativa para outro objeto.

(É claro que você pode querer possuir um smartphone por razões puramente utilitárias; não é disso que estamos falando. Mas mesmo uma escolha primariamente utilitária pode ser influenciada pelo mimetismo — na escolha do modelo de smartphone, por exemplo.)

O ensaio “From the Novelistic Experience to the Oedipal Myth”, de Oedipus Unbound (Stanford: Stanford University Press), inicia exatamente com a frase: “O desejo não é deste mundo… É para entrar em outro mundo que se deseja” (p. 1). Ou, no mesmo “Os homens serão deuses…”: “Todos os heróis de romance esperam da posse [do objeto] uma metamorfose radical de seu ser. (…) O objeto constitui-se apenas num meio de alcançar o mediador; é o ser desse mediador que o desejo almeja.” E, logo em seguida, valendo-se do exemplo do Proust de Em busca do tempo perdido, Girard explica que o narrador da obra sempre deseja ser iniciado numa nova vida — “vida de esportes, vida rústica, vida ‘desregrada’” — a cada vez que conhece uma pessoa interessante.

Vale a pena observar que o aspecto “metafísico” do desejo mimético está presente tanto na mediação externa quanto na interna. Nas duas, o sujeito percebe a si mesmo como alguém carente de ser, alguém cuja existência é pobre, mesquinha. A existência do outro é que é mais rica e mais plena. A diferença, como observamos, é que na mediação externa o sujeito admite que a superioridade do modelo, e, na interna, não admite.

Agora, o caráter “metafísico” do desejo está associado a dois outros fenômenos.

O primeiro deles é a tendência — enfatizemos: tendência — ao desaparecimento do objeto. O desaparecimento, por sua vez, pode indicar a irrelevância. A explicação em simples: como o que na verdade se deseja é o ser do outro, o objeto que o outro designa como desejável tende a tornar-se irrelevante. Contudo, é importantíssimo observar que, numa rivalidade produtiva, como aquela entre Picasso e Matisse discutida no artigo do prof. João Cezar de Castro Rocha com que iniciamos este blog, o objeto nunca se torna irrelevante.

Existem algumas maneiras de um objeto tender à irrelevância. Na mediação interna, por exemplo, uma rivalidade pode fazer com que os rivais prestem cada vez mais atenção um no outro, o que parece ilustrado por uma fórmula popular: “o que é que ela/ele tem que eu não tenho?”, isso é, o que há no ser dela ou dele? Num grau ainda mais avançado, um rival pode contentar-se não com a posse do objeto designado, mas com o aniquilamento do outro. (E, mesmo nesse caso, pode não se sentir “contente” em sentido mais estrito.) Um dos segmentos do filme Relatos Selvagens mostra exatamente isso: o que começa com uma simples disputa pela dianteira na estrada termina com a pura vontade de aniquilação, quando o objeto (a dianteira na estrada) já perdeu qualquer relevância.

Por outro lado, tanto na mediação interna quanto na externa, o sujeito pode perceber que a posse do objeto não lhe trouxe a vida nova tão sonhada. Se “o desejo não é deste mundo”, o objeto pode rapidamente revelar-se parte deste mundo aqui, com toda a sua banalidade. Seja adquirindo uma capacidade igual à de outro, comprando aquele smartphone com que iniciamos o texto, passando em primeiro lugar num concurso, o poder do objeto de fazer com que sintamos que passamos a uma esfera superior da existência tende a esvanecer-se com uma rapidez muitas vezes assustadora. O desejo, porém, permanece: podemos pular de um objeto a outro, e, como no exemplo de Proust dado por Girard, ora querermos ser esportistas, ora querermos a vida “desregrada” etc. Podemos desejar um smartphone, um livro, uma viagem, o que for. E não custa observar que a internet presta-se maravilhosamente a essa modalidade do desejo: podemos passar horas apenas contemplando possibilidades que seriam dadas pelos objetos x, y ou z.

Quando eu tinha uns vinte anos, li um livro muito conhecido: Ter ou ser?, de Erich Fromm. Ainda hoje encontramos, no jornalismo, na auto-ajuda em suas diversas modalidades (sem preconceitos: estoicismo e Padres da Igreja também podem ser chamados de “auto-ajuda”), essa oposição, que pode ser formulada como uma oposição à atitude aquisitiva, que deve ser trocada pelo cultivo de qualidades. A solução da auto-ajuda pode ser boa, mas a oposição entre ter e ser é falsa, porque ao buscar ter qualquer coisa nós na verdade esperamos que essa coisa modifique o nosso ser. Queremos “ter” para “ser”, e não por outra razão. Mesmo assim, a ideia de cultivar qualidades tem a virtude de lidar com o aspecto metafísico do desejo mais diretamente.

Também vemos o aspecto metafísico do desejo nos momentos em que Girard fala da vontade de “canibalizar” o outro — isso é, de absorver seu ser. Mesmo quando se fala do canibalismo ritual, não-metafórico, algo do aspecto metafísico do desejo está em jogo, mas entrar nessa questão já nos traria complicações muito além do escopo pretendido deste post.

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