Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Falecimento de René Girard

A morte de René Girard e sua herança

por Pierpaolo Antonello*

(Artigo publicado originalmente em L’Indice dei Libri del Mese.)

A morte de René Girard no último 4 de novembro em Stanford, na Califórnia, não chegou inesperada, considerando-se a idade do pensador francês, nascido em Avignon em 25 de dezembro de 1923. O que chamou a atenção de muitos comentaristas foi a coincidência entre sua morte e alguns acontecimentos recentes (em particular, os ataques de Paris em 13 de novembro), que parecem confirmar, uma vez mais, e de maneira espetacularmente vidente, aquilo que Girard teorizou por meio século. Não surpreende também que em muitas análises feitas no calor da hora tenha-se evidenciado a dimensão profética de seu pensamento e de sua pesquisa antropológica, que, desde a publicação de A Violência e o Sagrado em 1972 nos acompanhou num percurso de reentendimento das origens violentas da socialidade humana e das estruturas sacrificiais do sacro arcaico, com sobrevivências que chegam até os nossos dias. Numa época histórico-cultural que parecia abandonar toda preocupação apocalíptica, rendendo-se a uma teleologia histórica tranquilizante e em perfeita união com as supostas conquistas democrático-liberais do mundo ocidental, totalmente alheia a qualquer dependência do sagrado, o pensamento de Girard apareceu como um prisma de clareza premonitória, e a esta clareza está sendo rendido o devido tributo, sobretudo nos últimos anos, a partir do evento simbólico que foi a eleição de René Girard entre os imortais da Academia Francesa em 2005, e cuja conferência de posse, intitulada O Trágico e a Piedade, foi publicada em italiano pelas Edizioni Dehoniane, aos cuidados de Roberto Alessandrini e de Maurizio Rossi (pp. 88, €9, Bolonha, 2015).

Apesar da excepcional fortuna que teve na Itália, o pensamento de René Girard nunca gozou da popularidade de outros intelectuais e filósofos ocidentais, sobretudo em âmbito acadêmico internacional. Pelo contrário: por muito tempo foi tratado com certa distância cética, pela recusa dos círculos intelectuais mais à la page (os franceses em primeiro lugar) em aceitar, de um lado, sua perspectiva apologética, e, de outro, sua radicação na linguagem e nos procedimentos da ciência (achando essa união absolutamente inexplicável). Mesmo assim, René Girard continuou a ter uma recepção lenta mas constante, certa e inicialmente dentro do mundo católico (após o ceticismo inicial de muitos teólogos), mas sempre mais ainda no interior de contextos acadêmicos e intelectuais de muitos países que prescindem de instâncias confessionais ou de perspectivas disciplinares particulares, fato testemunhado seja pela crescente bibliografia crítica sobre seu trabalho (veja-se as centenas de títulos presentes no banco de dados do Colloquium on Violence and Religion), seja pelo número de tributos recentemente expressos na imprensa internacional, de Le Monde a The New York Times, de Forbes a El País, de Die Welt a The Guardian (incluindo numerosos blogs em nível mundial, da América Latina à Austrália, da Turquia à Coreia do Sul). Este é um fato surpreendente, sobretudo no contexto anglo-saxão, onde René Girard sempre permaneceu um pensador “periférico”, conhecido sobretudo dentro dos departamentos de literatura, com pouquíssima visibilidade midiática.

No âmbito da crítica e da teoria literária, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961) foi um livro lido a amado por muitos mas citado por poucos, principalmente no contexto acadêmico, mas que nos últimos anos recebeu atenção explícita justamente daqueles que estão mais interessados nos mecanismos substanciais da criação literária, os escritores: John Maxwell Coetzee, Christa Wolf, Milan Kundera, Jonathan Littell, Elif Batuman, Alberto Garlini, Parul Sehgal são apenas alguns dos nomes de nível internacional que se aproximaram das leituras girardianas, encontrando nelas consonância e temas. Do mesmo modo, no campo antropológico, os hábitos disciplinares e o viés politicamente correto da etnografia contemporânea de molde anglo-saxão, que expulsou qualquer preocupação comparativa, fizeram com que Girard fosse quase ignorado, marginalizando uma teoria que, a um olhar superficial, pode parecer grosseira, reducionista e etnocêntrica. Mesmo assim, suas perspectivas teóricas foram recentemente abordadas e comentadas por antropólogos do calibre de William Durham, Melvin Konner, Douglas Frye e Scott Atran (e também por psicólogos como Andrew Meltzoff, por neurocientistas como Vittorio Gallese ou por arqueólogos como Ian Hodder), encontrando uma recepção sintomática também no contexto da antropologia sul-americana.

A teoria de Girard e o debate sobre o terrorismo internacional

Além disso, é particularmente interessante o interesse cada vez maior por René Girard (muitas vezes em contato com Carl Schmitt, de um lado, e com Giorgio Agamben, de outro) no âmbito das relações internacionais e da filosofia política. A teoria de Girard de fato parece capaz de unir de maneira orgânica os dois momentos do debate sobre o terrorismo internacional: aquele orientado para a compreensão das motivações individuais nos mecanismos dos ataques e aquele empenhado em descrever os fenômenos numa escala global e de interações entre agentes internacionais, e de campos ideológicos opostos. A dimensão competitiva do desejo segundo o Outro; os infernos psicológicos dos “homens do subsolo”; o ressentimento venenoso como produto típico dos processos de indiferenciação social produzidos pela sociedade democrática, são os termos de partida de uma teoria que não permite dicotomizar de maneira maniqueísta a linha que nos separa da suposta alteridade, responsável por trazer desordem e violência para o interior de nossas vidas completamente reguladas. É o próprio mundo ocidental que cria o mesmo sistema reativo, a mesma agressão auto-imune, o cultivo desses bolsões de anomia e de busca mítica de sentido que levam à construção de um exército de “lobos solitários” (no mais, já imaginados por Dostoiévski e por Stirner).

Visão apocalíptica e seu antídoto, a herança de René Girard

Além disso, Rematar Clausewitz (2007), tinha finalmente trazido Girard ao terreno da modernidade, depois de anos confinado à discussão de textos antropológicos e de textos bíblicos, do já citado A Violência e o Sagrado a Eu Via Satanás Cair como o Relâmpago (1999), abrindo-se a perspectivas de compreensão do político contemporâneo absolutamente inéditas, e mais profundas do que boa parte do pensamento contemporâneo. O problema da reciprocidade da violência leitmotiv da teoria girardiana, não se manifesta apenas no nível das estruturas individuais, ou no interior de concepções feudais e arcaicas da justiça, mas instala-se no coração mesmo de nossa modernidade, inspirada apenas falsamente e de maneira superficial no racionalismo iluminista, mas carregada de um viés totalitário em que a ideologia está com frequência a serviço de uma vontade de atacar, de aniquilar fisicamente o rival, como única solução imaginável para o conflito perene.

E é nesse cenário apocalíptico que a recepção teológica e a filosófica de René Girard parecem convergir de comum acordo, na consciência de que o sagrado tem uma relação profunda com a violência do homem, sendo o instrumento designado para conter essa violência sistêmica: “conter” no duplo sentido do termo, como represa da proliferação indiscriminada da mesma, e como estrutura que a prevê farmacologicamente, como instrumento político-social. Para esse viés apocalíptico, René Girard propõe como antídoto o retorno à verdade evangélica, um retorno à leitura de textos esquecidos como o Apocalipse de João. O motor do pensamento e da ação ética do cristianismo vive justamente na iminência da catástrofe: estar próximo dessa iminência que convida a transformar nossos gestos em atos responsáveis; em traduzir a reciprocidade conflituosa em reciprocidade pacífica, sob pena de nos autodestruirmos. Desse ponto de vista, emergem, às margens da reflexão filosófica e acadêmica, também grupos de trabalho ou think tanks que acolhem Girard como um dos textos teóricos de reflexões para o desenvolvimento de políticas de resolução de conflitos, seja em nível de comunidades de base, seja em nível estratégico gera. E talvez seja essa uma das perspectivas mais importantes que Girard deixa coo herança neste momento histórico.

*Pierpaolo Antonello (paa25@cam.ac.uk) é professor de literatura e cultura italiana moderna e contemporânea na Universidade de Cambridge. Com René Girard e João Cezar de Castro Rocha, é autor de Evolução e Conversão, publicado pela É Realizações.

René Girard, da literatura ao terrorismo

Publicado originalmente na Gazeta do Povo

Em 4 de novembro último, nove dias antes dos atentados terroristas em Paris, faleceu na Califórnia o teórico francês René Girard, cujo último livro, Rematar Clausewitz, é uma longa meditação sobre o fim da guerra institucionalizada e sobre a nova era da violência política, que hoje pode irromper a qualquer momento, em qualquer situação — e não apenas no campo de batalha. Girard pensa em termos antropológicos, numa escala de milênios, mas, para nos restringirmos à época do general prussiano Carl von Clausewitz — aquele que é lembrado por ter dito que a “a guerra é uma continuação da política por outros meios” e que aparece no título do livro citado — é a Revolução Francesa que primeiro militariza toda a sociedade, decretando o alistamento militar obrigatório. Da reação espanhola aos enormes exércitos de Napoleão nasce a guerrilha. As guerras mundiais do século XX levam o processo adiante com ataques maciços a alvos civis. Entre estes, o terrorismo e as investidas de drones a diferença não é de natureza.

Todavia, seríamos profundamente infiéis a Girard caso o tratássemos como um teórico do “quem começou”, nem que seja porque, no próprio Rematar Clausewitz, ele observa que ninguém considera estar simplesmente agredindo outro, mas sempre reagindo a uma agressão — nem que seja uma agressão potencial que pede uma ação preemptiva. Essa intuição, que sugere que estamos fazendo como o outro antes que ele faça o que fará, nos leva ao cerne do desejo mimético, a primeira de suas duas teorias, exposta originalmente (ainda com o nome de “desejo triangular”) em Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), dedicada à crítica literária. Nela, Girard propõe que o desejo não existe numa relação direta entre sujeito e objeto, mas que essa relação é sempre mediada por um terceiro. Dom Quixote deseja realizar proezas para ser como Amadis de Gaula. Emma Bovary deseja ter aventuras amorosas para ser como as heroínas dos livros que lê. Nós compramos cacarecos, fazemos viagens, na mesma esperança de que nossa vida seja tão especial quanto aquelas que vemos nos outros. Porém, também podemos ser disciplinados, piedosos, honestos, generosos, para honrar um modelo que se impõe a nós: um parente, um professor, um grande filósofo, o próprio Cristo. Na síntese do crítico João Cezar de Castro Rocha, que com René Girard e Pierpaolo Antonello escreveu o livro Evolução e Conversão (2000), a contribuição da teoria mimética é mostrar a centralidade do outro na formação do eu.

A segunda grande teoria de Girard, a do bode expiatório, diz respeito à maneira como a violência ritualizada em torno de uma vítima inocente dá origem à cultura — por isso seu segundo livro chama-se A Violência e o Sagrado (1972). Para Girard, a contribuição antropológica do judaísmo e do cristianismo consiste em ter revelado a inocência das vítimas, impedindo essa ritualização. O detalhe é que a ritualização servia de amálgama social por canalizar as violências contra uma única vítima e criar uma válvula de escape. Sem poder recorrer a bodes expiatórios, enxergamos a violência que há em nós mesmos — e, voltando a Paris, é por isso que vemos um Ocidente tão assolado pelas próprias culpas, e tão perplexo diante dos elementos arcaicos que o assediam.

Um bonde chamado desejo

Artigo publicado originalmente em El País.

por Carlos Mendoza-Álvarez

Conheci René Girard numa tarde de outono em Paris no ano de 2007. Sua esposa Martha me aguardava na porta de seu apartamento perto da torre Eiffel, com um sorriso amável e um pouco de chá. Seu esposo estava doente, mas concedeu-me algumas horas de entrevista, pois estava interessado em saber o que nós latino-americanos pensávamos sobre a teoria mimética, e poderia desenvolver-se aquela intuição que surgiu de seus estudos literários, mas agora em contextos culturais diversos e diante de problemas crescentes de violência.

Cinquenta anos antes, o jovem investigador que emigrou para os Estados Unidos — onde, após um périplo, acabou dando aula por décadas em Stanford — tinha publicado seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), onde explorava a literatura ocidental como narrativa do desejo, com as rivalidades que geram, cedo ou tarde, os sacrifícios que mantêm viva uma comunidade. Ao longo de cinquenta anos, essa intuição de esquadrinhar o desejo levou-o a caracterizar os mecanismos da imitação até postular uma teoria original: todo desejo é uma mímesis de apropriação, mas não tanto do outro como objeto de desejo, o que já tinha sido assinalado por Platão, mas como apropriação do modelo buscado por essa relação de alteridade indiferenciada. Em suas obras seguintes, A Violência e o Sagrado (Paris, 1972), Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (Paris, 1978) e O Bode Expiatório (Paris, 1982), o pensador nascido em Avignon continuou pesquisando na mitologia das diversas culturas da humanidade, incluindo a bíblica, o papel do assassinato fundador como origem da cultura. Porém, até suas últimas obras, Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago (Paris, 1999), Evolução e Conversão Rio de Janeiro, 2000 [com o título de Um Longo Argumento do Princípio ao Fim]) e Rematar Clausewitz (Paris, 2007), que Girard, junto com seus interlocutores, fechou o círculo hermenêutico para explicar o mecanismo do bode expiatório, propondo uma conclusão que deixou boquiaberta a maioria dos estudiosos do social e do político: a inocência absoluta da vítima em todo processo de violência como verdade antropológica fundamental e a mentira correlacionada do processo vitimário que justifica o sacrifício de alguns para a sobrevivência do resto.

A teoria mimética chegou rapidamente à América Latina. Já em 1989 o teólogo Hugo Assman organizou no Brasil um colóquio dos teólogos da libertação com René Girard, cujo resultado foi publicado em Petrópolis em 1991. Como consequência deste primeiro encontro latino-americano, vários dos discípulos de Girard em Stanford, como o crítico brasileiro João Cezar de Castro Rocha, o teólogo inglês radicado no Brasil James Alison e o filósofo colombiano Roberto Solarte começaram a organizar colóquios interdisciplinares em São Paulo, em Bogotá e no Rio de Janeiro para debater e aprofundar as contribuições da teoria mimética. Os temas, no início, eram aqueles próprios da cultura universitária: a literatura latino-americana como imitação da europeia e da norte-americana, deixando na sombra muitos dos invisibilizados por esse sistema; ou, ainda, o impacto da rivalidade mimética na discriminação sexual das minorias ou dos movimentos de violência armada.

Coube-me participar de vários destes encontros, onde captei a profundidade e o alcance da teoria mimética para compreender as difíceis relações intersubjetivas entre pessoas e coletivos. Porém, me fazia falta um vínculo mais claro com os processos de libertação dos povos latino-americanos e suas resistências culturais e anti-hegemônicas, muitas delas recorrendo à violência armada e outras à não-violência ativa. Por isso propus a colegas de diversas universidades mexicanas e latino-americanas conversar sobre esses desafios, mas desde o Sul, a partir de uma pergunta básica: como interpretar a práxis de resistência de movimentos sociais, de gênero, de povos nativos e de outros coletivos, na lógica do desejo mimético? Três livros surgiram desses encontros nos últimos cinco anos, publicados pela Universidad Iberoamericana Ciudad de México e pelo Sistema Universitario Jesuita: ¿Culturas Shakespearianas? Teoría Mimética y América Latina (Guadalajara, 2014), de João Cezar de Castro Rocha; Caminos de Paz. Teoría Mimética y Construcción Social (México, 2015); e Mímesis y Alteridad. La Interdividualidad Colectiva Latinoamericana (México, no prelo), os dois últimos coordenados pelo autor destas linhas.

A contribuição de Girard para a cultura contemporânea é crucial para compreender a espiral de violência que vivemos na aldeia global, seja na escala micro, em processos intersubjetivos de casais, de famílias ou de ideias, ou ainda em escala macro, nas redes de injustiça, de impunidade e de violência sistêmica do país, da região e do mundo globalizado. O enfrentamento da violência demanda a compreensão do processo vitimário, a força das resiliências e a potência do perdão como um horizonte de liberdade complexo e difícil.

Girard é incômodo para todo poder que se constitui à força da invisibilização social de muitos. Os poderes que justificam a violência nos altares do bem comum são perversos e, como diria Girard, satânicos.

Um bonde chamado desejo pode levar a humanidade ao precipício ou a novos vales de sobrevivência. A humanidade hoje enfrente um desafio vital de sobrevivência, junto com o planeta inteiro: ou “continuar vivendo na mentira de Satanás”, que consiste em sacrificar inocentes para a sobrevivência de alguns, ou “atrever-se a uma conversão” ética, política e espiritual para viver a verdade do Messias na lógica da superação do ressentimento.

Quando os muros do ódio caem, abrem-se rachaduras de sobrevivência. Este é o legado de René Girard, e o chamado urgente a pensar a guerra global que vivemos no incerto tempo presente.

Carlos Mendoza-Álvarez é professor do Departamento de Ciências Religiosas da Universidad Iberoamericana Ciudad de Mexico e publicou, pela Biblioteca René Girard, O Deus Escondido da Pós-Modernidade.

Filósofo francês René Girard foi um conservador revolucionário

por João Cezar de Castro Rocha*

René Girard nasceu em 1923, na França, e morreu na quarta-feira (4 de novembro de 2015), nos Estados Unidos. Lida pelo avesso, essa frase, mera transmissão de dados biográficos, revela um traço inquietante.

Seguindo os passos paternos formou-se paleógrafo e arquivista – e, como o pai, deveria assumir o cargo de curador da Biblioteca e do Museu de Avignon.

Num gesto de distanciamento, definidor de sua personalidade, Girard reinventou-se, deixando a França em 1947 para iniciar um doutorado em história nos EUA. Depois da tese "American Opinion on France, 1940-1943", seguiu carreira no país que adotara.

Novo desvio: professor de literatura comparada, ele publicou seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961). Nesse brilhante exercício crítico, intuiu a categoria que marcou sua obra: o desejo mimético, isto é, a centralidade do outro na determinação do eu.

Girard radiografou as metamorfoses do desejo mimético na obra de Cervantes, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski e Proust. Em lugar da diferença absoluta, a repetição relativa. Porém, na teoria girardiana, a mimese é matriz de rivalidade e conflito.

Noção aprofundada em seu segundo livro-chave, A Violência e o Sagrado (1972). Formado durante a Guerra Fria, o francês voltou a remar contra a corrente. Muitos pensadores defendiam formas não violentas de organização política. Ao contrário, Girard afirmou a onipresença da violência nos primórdios da cultura; daí a conjunção aditiva: violência e sagrado.

Mais: Girard ampliou radicalmente seu horizonte disciplinar, apropriando-se da antropologia. Contudo, valorizou a associação, à época desacreditada, entre emergência da cultura e manifestação do fenômeno religioso.

Em seu terceiro livro fundamental, Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo (1978), a rebeldia manteve-se viva. O autor afirmou a singularidade ética e epistemológica do cristianismo, em sua defesa da vítima, do menos favorecido.

Cristão praticante (mas que acolheu a mim, um estudante brasileiro ateu, sem reservas), ele poderia ter dito: “Só me interessa o que não é meu”. Afinal, propôs: “Devemos concordar com os que dizem ser a Eucaristia oriunda do canibalismo arcaico”.

Crítico literário, Girard apostou na repetição e não na diferença; antropólogo, buscou o mecanismo matriz da cultura e não a irredutível particularidade das culturas; filósofo cristão, privilegiou a especificidade antropológica e não teológica das Escrituras. Pensador inclassificável, adversário de binarismos, ele foi um conservador revolucionário, um rebelde sereno. Em suas palavras: “Posso ser definido como uma espécie de outsider”.

No Brasil de hoje, cindido por uma intolerância sempre mais míope porque a cada dia mais dicotômica, a leitura da obra girardiana reveste-se de inesperada urgência. Atenção: uma urgência sem pressa –como os tantos paradoxos da vida e da obra de René Girard.

João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura comparada da UERJ. Este artigo foi originalmente publicado na Folha de São Paulo em 6 de novembro de 2015.

Repercussões do falecimento de Girard

***Este post pode ser atualizado ao longo do dia.***

Um dia após o falecimento de René Girard, propagam-se pela web textos em sua memória — e, cá no Brasil, já começamos a preparar algo.

Por ora, temos algumas indicações ao leitor.

Em inglês

Um pequeno obituário pode ser encontrado na homepage do Australian Girard Seminar, e, a partir dali, pode-se ler o texto “The ‘Darwin of Human Sciences’: René Girard, a Theologial Perspective”, de Scott Cowdell.

Destacamos também o texto do site Patheos.

A rádio canadense CBC chama a atenção para The Scapegoat seu áudio-documentário, com entrevistas em inglês com Girard, sobre o bode expiatório.

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Em francês

A Academia Francesa publicou uma nota. O editor do suplemento literário do Le Monde publicou um artigo; o Nouvel Observateur republicou uma longa entrevista de 2004; o Figaro, por sua vez, republicou o artigo de Girard sobre o filme A Paixão do Cristo, de Mel Gibson.

O jornal Causeur apresenta uma homenagem a Girard, enfatizando desde o começo que seu pensamento está sujeito a mal-entendidos.

A Revue des Deux Mondes republica um texto em que Girard nos instiga definindo o totalitarismo como “perseguir um bode expiatório sabendo que se faz isso”.

Falecimento de René Girard

René Girard faleceu na madrugada de hoje, 4 de novembro de 2015, aos 91 anos.

A É Realizações, o blog Miméticos e, com certeza, os leitores e estudiosos brasileiros de sua obra expressam sua solidariedade com seus familiares, bem como gratidão pela obra que ele nos deixou.

Leia, em inglês, seu obituário publicado pela Stanford University.

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