Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Georges Bernanos

Fundações Apocalípticas: Facundo, de Domingo Sarmiento, e O Guarani, de José de Alencar

Esta será uma apresentação geral da minha própria pesquisa de doutorado (feita ontem no Seminário da Pós-Graduação em Letras da UERJ), que parte de algumas perguntas suscitadas pela literatura de fundação brasileira e argentina. As obras que investigo são, respectivamente, Facundo, ou Civilização e Barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento, e O Guarani, de José de Alencar. Meu questionamento diz respeito à maneira como essas obras ao mesmo tempo escondem e revelam as origens, os mecanismos e os efeitos da violência, e como a violência se relaciona com a possibilidade de fundar uma cultura.

Violência e fundação

A relação entre violência e fundação é um dos dois grandes pontos de discussão da obra do crítico e antropólogo francês René Girard, que também poderia ser chamado de filósofo do desejo e da violência. Ao investigar a fundação das culturas arcaicas, Girard propõe a hipótese do mecanismo do bode expiatório.

Resumindo muitíssimo, o bode expiatório seria uma vítima inocente que, num grupo de hominídeos pré-históricos assolado por rivalidades e por disputas, consegue unir o grupo, que a mata num linchamento. Esse grupo, após descontar sua violência sobre a vítima, sente-se apaziguado, e assim passa a enxergar nela alguém capaz de desestabilizá-lo e de restabilizá-lo. Seria esse o motivo de a vítima ser divinizada. Girard ainda observa em Evolução e Conversão, livro escrito com os professores João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello, que sua hipótese considera que o mecanismo do bode expiatório teria valor evolutivo: somente os grupos de hominídeos que o teriam encontrado teriam sido capazes de sobreviver à sua violência interna.

Para Girard, os ritos são a tentativa de reencenar esse linchamento original, e os mitos são narrativas feitas desde o ponto de vista dos linchadores, que pretendem justificar a violência contra aquela vítima. É fundamental para o funcionamento do mecanismo que se creia que o bode expiatório é culpado, isto é, que ele não é apenas um bode expiatório.

O apocalipse, palavra que significa “revelação”, e que talvez possamos girardianamente identificar com a ideia de modernidade, vem das escrituras judaico-cristãs, particularmente dos quatro Evangelhos. A revelação seria justamente a revelação desse mecanismo ocultado pelos mitos, operada pela mudança de ponto de vista: em vez de narrar a história do ponto de vista dos perseguidores, ela é narrada do ponto de vista da vítima. Qual a história da Paixão de Cristo? É a história de um homem condenado injustamente para aplacar uma multidão.

Em sua obra, Girard ressalta que as escrituras judaico-cristãs levaram a um longo processo de mudança cognitiva, no qual violências e textos persecutórios foram sendo desmistificados. Para nós, hoje, o termo bode expiatório não designa, como no livro do Levítico, um bode capaz de levar para o deserto os pecados de nossa comunidade, mas alguém como Cristo, “pego para Cristo”, isto é, alguém que sofreu uma violência injusta.

Arrisco até dizer que um dos traços definidores da modernidade é esse ímpeto de desmistificação da violência, a tentativa de refinar ao máximo as motivações legítimas para se cometer atos violentos. Dizemos que algo é “bárbaro” quando vemos a violência aplicada segundo critérios que nos parecem injustificados.

No entanto, se o mecanismo fundador das culturas arcaicas hoje nos parece bárbaro, como fundar uma cultura moderna?

Facundo, ou Civilização e Barbárie, de Domingo Faustino Sarmiento

Um dos pontos a investigar mais profundamente é a maneira como essa adoção do ponto de vista das vítimas foi se arraigando. Certo é que, no tempo do Iluminismo — destacando-se o escocês, com Adam Smith, e o francês, com Rousseau — suas raízes já estavam firmemente deitadas. O romance dito sentimental, por basear-se justamente no cultivo de sentimentos refinados, possui uma certa predileção pelas vítimas injustamente perseguidas. Além disso, o próprio romance, enquanto gênero literário, possui um caráter de investigação social que tende a descortinar os mecanismos da violência.

Publicado me livro em 1847, Facundo não é um romance ficcional, mas uma biografia romanceada, publicada em folhetim, do caudilho argentino Facundo Quiroga. Borges e Ricardo Piglia, por exemplo, veem no Facundo o texto fundador da literatura argentina.

No entanto, desde as primeiras páginas do livro nos deparamos com o curto-circuito causado pela revelação e pelo ocultamento simultâneos da violência. Sarmiento principia contando ao leitor que apanhou de soldados e que precisou refugiar-se no Chile. Ou seja: ele clama para si a credibilidade da vítima inocente. Em seguida, explica-nos como a capital, Buenos Aires, maltrata as províncias, negando-lhe os benefícios da civilização, e estas, por sua vez, respondem com mais violência, enviando-lhe um ditador como o general Rosas. Sarmiento, assim, dá mostras de entender o caráter retributivo da violência não-ritualizada, apontando para uma intuição do próprio René Girard em sua obra Rematar Clausewitz, na qual observa que não existe a agressão pura; toda agressão busca justificar-se como resposta a uma agressão anterior.

Nada disso impede Sarmiento de, em primeiro lugar, ter assumido o papel de vítima inocente; segundo, de descrever o caudilho Facundo como alguém excepcional, representante da barbárie, da violência gratuita; e, terceiro, de usar o ataque à sua memória como ataque indireto a Rosas, então presidente argentino.

Em suma, o conhecimento dos mecanismos de violência não impede Sarmiento de estar enredado nesses mesmos mecanismos. Surrado pelos soldados, não é contra eles que ele se volta, mas contra a barbárie como um todo, concentrando-se em Rosas; e, para falar de Rosas, fala de um caudilho morto.

O Guarani, de José de Alencar

O Guarani (já discutido no blog), publicado por José de Alencar como folhetim entre janeiro e maio de 1857, utiliza estratégias diferentes no trato com a violência.

Assim como em Facundo, o personagem central é o alvo — mais buscado do que atingido — de violência coletiva. O índio Peri, herói do romance, é vítima dos “prejuízos” de Dona Lauriana, esposa de Dom Antônio de Mariz e portanto senhora do solar em que sua família habita, e no qual o índio é um agregado. Mesmo tendo Peri salvado Ceci, sua filha, Dona Lauriana rejeita-o simplesmente por ele ser índio, “um selvagem”, e tenta, por meio de subterfúgios, forjar na casa uma unanimidade contra o índio, a fim de expulsá-lo. É só depois que Peri salva pela segunda vez a vida de Ceci que Dona Lauriana se reconcilia com a ideia de que ele pode ficar por perto.

No entanto, Peri é um bode expiatório também sob outros aspectos, mais próximos da cultura arcaica. Se considerarmos que, nos primórdios da literatura brasileira, ou talvez ainda da literatura portuguesa produzida no Brasil, o índio era objeto do escárnio de um Gregório de Matos, no romantismo o projeto consciente de fundação nacional valoriza-o como elemento autóctone. O índio, portanto, passa de força desestabilizadora a força estabilizadora; é aquele que perturba Dona Lauriana e, na opinião dela, a ordem da casa, mas é também aquele que dá uma contribuição fundamental para proteger a família do ataque dos Aimorés, na parte final do romance.

Seria possível dizer ainda muito mais sobre as intuições antropológicas de Alencar e sobre como o estratagema de Peri para vencer os Aimorés — permitir que estes canibalizassem seu corpo envenenado — levaria a um apocalipse no sentido moderníssimo de destruição quase total, sendo Peri uma pequena bomba de Hiroshima; e ainda, sobre como o estratagema último do próprio Dom Antônio de Mariz, que é destruir a casa inteira, nos remete ao projeto de mutually assured destruction da guerra atômica.

Essa visão claríssima da violência não impede Alencar de colocar no romance um bode expiatório para o qual devemos dirigir nosso desejo de violência: os índios Aimorés. Mesmo que estes, que foram agredidos em primeiro lugar pelo filho de Dom Antônio de Mariz, busquem uma vingança que nos pareceria apenas retributiva e proporcional, eles são retratados como monstros horrendos que arrastam os braços pelo chão, dotados de desejos sanguinários, procurando destruir os brancos e os demais índios quase que por vocação, como se fossem Facundos, forças cegas da barbárie a serem contidas a qualquer custo.

Conclusão

As questões sugeridas acima parecem ser específicas da América Latina, ou mesmo de contextos ditos “periféricos”, mas na verdade aplicam-se mesmo a contextos ditos “hegemônicos” em que há revisionismo das origens. Dou como exemplo a revisão proposta por Georges Bernanos em seu livreto Joana, Relapsa e Santa, em que discute a história de Joana d’Arc.

Por muito tempo os franceses atribuíam o sacrifício de sua fundadora, queimada como herege e depois canonizada como santa, à influência dos invasores ingleses. O bode expiatório, então, ficava transferido para o perseguidor que vinha de fora da comunidade. Bernanos observa, porém, que todo o establishment francês esteve por trás da condenação de Joana d’Arc, então um ato absolutamente legítimo. Ao apontar esses dados, Bernanos solapa a confiança na fundação pura, porque obriga o leitor francês a considerar o lado persecutório de sua própria cultura. Assim, talvez dando um passo além de Sarmiento e de Alencar, ele nos mostra que o conhecimento dos mecanismos da violência pode perfeitamente ser usado de maneira seletiva, antes obedecendo as conveniências de um projeto do que buscando a fidelidade aos acontecimentos.

Trecho de Diário de um Pároco de Aldeia

Diário de um Pároco de Aldeia

Diário de um Pároco de Aldeia

Na sua palestra de apresentação do romance Diário de um pároco de aldeia, feita há alguns anos na É Realizações, o professor João Cezar de Castro Rocha mencionou que um trecho do livro servia como resumo de Rematar Clausewitz, de René Girard.

Trata-se do trecho abaixo. (Como não disponho do exemplar da É, fiz uma tradução do trecho especialmente para o blog.) Quem tiver um conhecimento mesmo superficial da visão girardiana do bode expiatório e do apocalipse, noções que ainda aprofundaremos aqui em posts próprios, dificilmente não vai ficar maravilhado. A “instituição” de que Bernanos fala é nada menos do que o mecanismo sacrificial; o que o cristianismo fez foi explicitá-lo para o mundo.

Com vocês, Georges Bernanos:

Conservamos, que seja. Mas é para salvar que conservamos, é isso que o mundo não quer entender, porque ele só pede uma coisa: durar. Ora, ele não pode mais contentar-se em durar.

O Mundo Antigo, por sua vez, talvez pudesse ter durado. Durado muito tempo. Ele era feito para isso. Ele era terrivelmente pesado, estava firmado à terra por um peso enorme. Tinha resignado-se com a injustiça. Em vez de ludibriá-la, ele a tinha aceitado em bloco, inteira, tinha feito dela uma elemento igual a outros, tinha instituído a escravidão. Ah! Sem dúvida, qualquer que fosse o grau de perfeição que ele jamais pudesse atingir, mesmo assim teria permanecido sob a maldição lançada contra Adão. Isso o diabo não ignorava, e aliás sabia melhor do que qualquer pessoa. Mas de todo jeito era uma empreitada difícil jogá-la quase inteira sobre os ombros de um gado humano, o peso do fardo talvez se reduzisse na mesma medida. A maior soma possível de ignorância, de revolta, de desespero, reservados a um tipo de povo sacrificial, um povo sem nome, sem história, sem bens, sem aliados — ao menos confessáveis — sem família — ao menos legal, sem nome e sem deuses. Que simplificação do problema social, dos métodos de governo!

Mas essa instituição que parecia inquebrável era na verdade a mais frágil. Para destruí-la para sempre, bastava aboli-la por um século. Talvez um só dia tivesse bastado. Uma vez que as castas outra vez se confundissem, uma vez que o povo expiatório se dispersasse, que força teria sido capaz de fazer-lhe retomar o jugo?

A instituição morreu, e o Mundo Antigo desabou junto com ela. Acreditava-se, fingia-se acreditar em sua necessidade, que era aceita como um fato. Ela não será restabelecida. A humanidade não ousará mais correr esse risco temerário, seria grande demais. A lei pode tolerar a injustiça ou até favorecê-la sorrateiramente, mas não vai mais sancioná-la. A injustiça não terá nunca mais um estatuto jurídico, isso acabou. Mas no entanto ela permanece espalhada pelo mundo. A sociedade, que não ousaria mais utilizá-la para o bem de um pequeno número, condenou-se assim a buscar a destruição de um mal que traz em sim, mal que, afastado das leis, reaparece quase imediatamente nos costumes para começar, às avessas, incansavelmente, o mesmo circuito infernal. Querendo ou não, ela agora deve partilhar da condição do homem, participar da mesma aventura sobrenatural. Outrora indiferente ao bem ou ao mal, conhecendo como única lei sua própria força, o cristianismo deu-lhe uma alma, uma alma a ser perdida ou salva.

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