Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Jane Austen

Todos contra a multidão

Foi o filósofo Jean-Pierre Dupuy quem primeiro estabeleceu uma relação entre o terrorista e Cristo: se este, na cruz, pede ao Pai que perdoe a multidão anônima que pediu sua crucifixão, pois esta "não sabia o que fazia", o terrorista decide executar uma violência contra uma multidão anônima. Violência essa que, claro, é uma vingança contra algo que nem sequer foi feito diretamente a ele.

Hoje em dia também falamos muito em violência simbólica, noção que qualquer pessoa considera frescura até ver suas preferências tripudiadas por aí. Pois consideremos a seguinte hipótese: se nem eu nem o leitor pretendemos jogar aviões contra prédios, dirigir caminhões contra multidões, nem por isso deixamos de olhar a multidão anônima como uma força cega e temível, incapaz de diálogo, fazendo dela um verdadeiro objeto de nossas ações.

Provavelmente o leitor não pensa assim diretamente, formulando o argumento de si para si. Afinal, pergunto socraticamente: o leitor não crê na democracia? Pois crer na democracia significa crer em debate público, em persuadir e em ser persuadido, em presumir que os concidadãos são todos seres racionais.

E no entanto…

No entanto uma grande parte dos filmes e das séries mais populares trata a multidão anônima como uma força cega e irracional, que na mais generosa das hipóteses precisa ser salva de si mesma.

Pode ser preciso dar um passo para trás para apresentar o raciocínio.

Identificação

Toda obra dramática ou ficcional depende de uma certa identificação por parte do destinatário. Até este artigo depende de alguma simpatia para ser lido até o fim (concordar com ele é outra história). Normalmente, a identificação acontece entre o destinatário — o leitor ou espectador — e algum personagem. O destinatário da obra pura e simplesmente torce por um bom desfecho para seu personagem favorito, ou aprecia sua atitude moral enquanto comove com as agruras sem fim que ele pode sofrer. O destinatário também pode se identificar com o narrador, e apreciar o mundo que ele cria. Como quer que seja, se você não está lendo o livro ou vendo o filme para a escola, continua a ver por causa dessa identificação.

O outro não vai entender

Agora vejamos as premissas dramáticas de filmes e séries populares. Os X-Men são mutantes… incompreendidos pela multidão. Batman é o herói… que sabe que é preciso enfrentar a multidão para o próprio bem dela. Todo filme ou romance de espionagem se baseia na premissa de que uma informação não deve estar ao alcance de todos — ou então que é obrigatório que esteja ao alcance de todos.

Isso para nem falar em tantos filmes, perfeitamente adultos, que parecem ignorar que seus próprios personagens são capazes de ter uma conversa e se resolver, porque se o filme reconhecesse explicitamente essa possibilidade que ele mesma deixa implícita, então não haveria filme. Nesse caso, existe a expectativa da incompreensão individual, não coletiva; mesmo assim, a premissa dramática é que não se pode confiar no juízo alheio.

A grande ironia disso tudo é que temos produtos culturais feitos para as massas que estão denunciando as massas para elas próprias. Se você morasse em Nova York e visse um filme do Batman ou dos X-Men, poderia perfeitamente se perguntar: mas eu estou sendo chamado a partilhar de um segredo e compreender as dores do protagonista perseguido pelas massas ignaras, ou eu mesmo faço parte dessas massas ignaras? Se Hollywood gasta milhões e milhões de dólares para denunciar essas massas ignaras… quem será a verdadeira vítima dessa história? Será que ninguém está presumindo que eu seria incapaz de entender algo mais nuançado?

Jane Austen e a vítima injustiçada

Um recuo responde essas perguntas.

Jane Austen teve sucesso como escritora ainda em vida, atraindo os comentários de sua família. Auden dizia achar fantástico que pessoas que não sabiam o que queriam fazer da vida dissessem que seriam escritores, e não dentistas ou advogados. Nunca vi um leigo em advocacia ou em odontologia querer ensinar o ofício a esse profissional, mas a arte de contar histórias parece, no senso comum, depender apenas da vaga vontade de contá-las.

Após muitos encontros familiares, Jane Austen resolveu produzir um "projeto de romance com base nas sugestões de amigos e parentes" que é o equivalente ficcional do famoso carro desenhado por Homer Simpson.

Para meu argumento aqui, o ponto mais chamativo desse projeto de romance é que sua protagonista é uma moça indefesa perseguida incansavelmente, gratuitamente, por um vilão malvado. Isso bate perfeitamente com o que Adam Smith diz, na Teoria dos Sentimentos Morais, sobre a história da vítima injustiçada ser aquela que evoca o máximo de simpatia.

Quer dizer, a história da vítima injustiçada como aquilo que o público pede já é algo arquiconhecido há pelo menos quase um quarto de milênio… Ou mais, como veremos.

Porém, antes de verificarmos isso, uma observação: Austen jogava com a identificação com a protagonista. As massas que veem o Batman devem identificar-se com o Batman — não com a massa que fica no plano de fundo, vociferando, segundo a narração.

Um dia litúrgico contra Hollywood?

Se voltarmos ao começo do argumento, temos a diferença entre o Cristo e o terrorista. Pois pensemos na nossa visão atual dos Evangelhos. Sabemos que o Cristo é inocente. Esperamos que o Pai atenda seu pedido de perdoar as massas. E por que duvidaríamos de que elas "não sabem o que fazem", se é o próprio Cristo quem diz? (Para usar o linguajar moderno, quem duvidasse disso já se tornaria suspeito de "culpar a vítima"…)

Assim como os parentes de Jane Austen, assim como os espectadores do Batman, nós nos identificamos com Cristo. O próprio misticismo cristão sugere que perseveremos em sua imitação, aceitando perseguições injustas. No filme de Rossellini sobre São Francisco, um discípulo pergunta ao santo de Assis: "O que é a perfeita alegria?" Após Francisco e discípulo serem escurraçados de uma casa e jogados na lama por um homem que não queria louvar Cristo, Francisco diz: "Esta é a perfeita alegria."

E no entanto…

No entanto, na liturgia da Sexta-Feira Santa, a congregação que assiste ao rito é convidada a fazer o papel de massa anônima e violenta. Sacerdote e leitores dividem a narração e os personagens da Paixão de Cristo: a congregação só se pronuncia na hora de dizer: "Crucifica-o, crucifica-o!".

O que, num paralelo, seria mostrar que nós somos também o vilão que persegue a mocinha de Jane Austen, nós preferiríamos matar o Batman.

A multidão violenta, afinal, só é uma boa premissa dramática quando é feita dos outros. Descobrir-se parte dela é o contrário da maior diversão. E talvez até nisso haja ao menos um certa novidade.

Heróis Perseguidos, 2: Uma Caricatura Feita por Jane Austen

Na coletânea The Wicked Wit of Jane Austen1 (O humor sagaz de Jane Austen), o organizador Dominique Enright conta (pp. 53–54) que James Stanier Clarke — conhecido nos círculos austenianos apenas como Mr. Clarke —, bibliotecário de Carlton House, então a residência londrina do príncipe regente do Reino Unido, escreveu a Jane Austen em nome do príncipe para felicitá-la por seus romances. O príncipe os adorava. Mr. Clarke, “como tantos que trabalham com livros, não conseguiu resistir a tentar participar”, e começou a enviar a Jane Austen sugestões para seus próximos romances. Mas não era só nesse front que Jane Austen estava sendo acossada: “Ao mesmo tempo, os parentes enviavam-lhe seus manuscritos para que ela os comentasse.” Diante de tanto assédio, a autora de Orgulho e Preconceito decidiu aproveitar o material que recebia:

Assim, tendo em mente os excessos dos romances sentimentais e de terror que faziam o gosto do público, e inspirando-se nas ideias deveras impraticáveis de Mr. Clarke, Jane Austen produziu a sátira “Plano de romance”, combinando aspectos da literatura popular com aquele tipo de sugestão que os autores recebem de amigos e parentes…

O texto produzido por Austen, “Plano de romance segundo sugestões de diversas pessoas”, tem para nós duas virtudes. A primeira é aquela que há em toda caricatura: o de exagerar um aspecto da realidade para torná-lo mais patente. Assim, é possível estabelecer uma verdade por meio da generalização; é claro que nem todos os romances populares são assim, mas também é claro que é possível discernir certos traços comuns a eles. A segunda, é claro, é documental. Gostar de comer não significa ser capaz de cozinhar, e analogamente gostar de ler não significa ser capaz de escrever. O que não impede, é claro, que o leitor forme ideias daquilo que mais gostaria de ler a partir de sua experiência de leitor, que pode até ser considerável. Porém, se essa experiência de leitor nunca passou a uma experiência de escritor, é de se esperar que a primeira sugestão desse leitor inexperiente como escritor revele os preconceitos mais irrefletidos. Seria fácil descartá-los como ninharias de amadores; no entanto, como os leitores que nunca tentaram escrever a sério formam a maior parte do público, é razoável pensar que seus preconceitos devem ser levados em conta por autores de ficção que pretendam ser lidos por eles. Retomando a metáfora gastronômica, uma pessoa pode dizer que gosta de muito chocolate, e colocar chocolate demais no seu primeiro bolo; o cozinheiro, por sua experiência, é quem sabe quanto chocolate é uma dose aceitável até para quem diz gostar de muito chocolate. O que muda não são os ingredientes: é a dose.

Com isso em mente, leiamos alguns trechos do breve “Plano”2 :

Cenário rural, Heroína filha de clérigo, alguém que após viver muito tempo no mundo retirou-se dele para um vicariato, com uma pequena fortuna. — Ele, o melhor homem que se pode imaginar, perfeito de caráter, temperamento e maneiras — sem a mais mínima mácula ou peculiaridade a impedir que ele seja a companhia mais agradável possível a sua filha o ano inteiro. — Heroína também personagem sem mácula, — perfeitamente boa, com muita ternura e sentimento, e, claro, muito espirituosa — prendadíssima, compreende as línguas modernas e (de modo geral) tudo que as moças mais prendadas aprendem, mas com um dote especial para a Música — seu passatempo favorito — e toca igualmente bem o piano e a harpa — e canta maravilhosamente. Sua aparência é muito bonita — olhos escuros e rosto rechonchudo [essa era a descrição da própria Jane Austen]. — O livro deve começar descrevendo pai e filha — que, ao conversar, terão falas longas e linguajar elegante — num tom de emoção séria e sublime.

Como vimos, porém, não é a enumeração de qualidades que gera simpatia, mas a narrativa de acontecimentos.

Agora é hora de trazer para a argumentação um autor bem mais distante no tempo: Aristóteles. Sua Poética é um livro de valor extremo, e um dia talvez venham a dizer que é moderna por combinar elementos de análise puramente estrutural com psicologia cognitiva. Ou, em bom português, por tentar explicar porque certas obras suscitam certas reações na plateia. Como sabemos, um dos principais temas de Aristóteles na Poética é a geração de “terror e piedade” na plateia. A “piedade” é o sentimento que aqui nos interessa, por estar diretamente ligado ao bode expiatório (mais em sentido moderno e corrente do que no sentido de “vítima sacrificial de uma sociedade arcaica”). E, antes de prosseguirmos, talvez valha a pena observar que não haverá piedade sem simpatia.

Como, segundo Aristóteles, é gerada a piedade? Quando vemos alguém passar por sofrimentos imerecidos. É exatamente o que está dito no início do trecho 1453a, em que Aristóteles explica que sentiremos “piedade por alguém [que sofreu algo] imerecido” (ἔλεος μὲν περὶ τὸν ἀνάξιον); ou, na tradução de Eudoro de Souza, “a piedade tem lugar a respeito do que é infeliz sem o merecer”3.

Dentro do contexto sentimentalista, a piedade pelo herói perseguido é um componente fundamental.

É daí que Jane Austen tira o segundo ingrediente de seu plano:

Desse começo procederá a história, que conterá uma impressionante variedade de aventuras. A Heroína e seu pai nunca passam mais de quinze dias no mesmo lugar, porque ele é expulso de seu vicariato pelas vis artes de um rapaz sem princípios nem coração, desesperadamente apaixonado pela Heroína, que a persegue com paixão incansável.

É claro que, numa caricatura, o contraste entre os bons e os maus deve ser sempre inequívoco:

— Mal assentam-se num país da Europa e precisam deixá-lo e ir a outro — sempre travando novas amizades, sempre obrigados a deixá-las. — Isso, é claro, exibirá uma grande variedade de personagens — mas não haverá mistura; a cena sempre mudará de um grupo de pessoas para outro — mas tudo que é bom será imaculado sob todos os aspectos — e não haverá qualquer fraqueza ou defeito, exceto nos maus, que serão completamente depravados e infames, sem que reste neles praticamente nenhum indício de humanidade.

Em suma, para citar o título de um bestseller contemporâneo, o que temos são praticamente anjos e demônios.

É claro ainda que a heroína deve, além de possuir uma alma nobre, ser uma mulher irresistível, limitada apenas pelo pudor e pela honra:

— No início da trama, durante seus primeiros deslocamentos, a Heroína tem de conhecer o Herói — alguém obviamente perfeito —, que só será impedido de dirigir-se a ela por algum excesso de polidez. — Onde quer que ela vá, alguém se apaixona por ela, e ela recebe repetidas propostas de casamento — as quais repassa integralmente ao pai, muitíssimo zangado por não ter sido consultado primeiro.

Jane Austen insiste: além de assediada como objeto de desejo, a heroína também precisa ser incessantemente perseguida:

— Muitas vezes raptada pelo Anti-Herói, mas resgatada por seu pai ou pelo Herói — muitas vezes obrigada a sustentar a si e ao pai com seus talentos, e a trabalhar pelo pão; continuamente enganada e ludibriada em seu trabalho, reduzida a pele e ossos, e volta e meia à inanição.

Não é preciso explicar porque é razoável associar ser “continuamente enganada e ludibriada” a uma forma de perseguição, ou ao menos à sensação subjetiva de estar sendo perseguido, como se houvesse uma intenção comum apenas manifestada nas ações de várias pessoas.

Quanto à ideia de que ter de trabalhar é uma espécie de perseguição, antes de descartá-la como preconceito aristocrático, lembremos que ela evoca um anseio mais antigo, talvez mais ancestral, porque, enfim, é no momento da expulsão de Adão e Eva do Paraíso que surge o trabalho, quando Deus diz a Adão: “Comerás o teu pão com o suor do teu rosto” (Gênesis, 3, 19).

O resto do texto, apesar de delicioso, já é redundante para nossos propósitos. O pai morre (sua morte demora cinco horas; são cinco horas de nobres exortações à filha) e, na hora em que seria definitivamente raptada pelo malvado anti-herói, o herói salva a heroína.

Nos próximos posts, traremos para o Brasil a investigação da simpatia pela vítima da perseguição injusta.


  1. Londres: Michael O’Mara Books Limited, 2007

  2. “Plan of a Novel according to Hints from Various Quarters”. AUSTEN 2007, p. 54–56

  3. ARISTÓTELES. Poética. Trad. Eudoro de Souza. São Paulo: Ars Poetica, 1993, p. 67

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