Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: João Cezar de Castro Rocha

Anorexia e Desejo Mimético

Anorexia e Desejo Mimético

Um livro pequenino que serve como ótima introdução ao pensamento mimético, ao estilo da análise mimética, é Anorexia e Desejo Mimético. René Girard, Mark Anspach (cujos artigos já foram publicados neste blog, e cuja introdução ao volume Oedipus Unbound é primorosa), e Jean-Michel Oughourlian dão voltas em torno do tema da anorexia. Digo “dão voltas” porque o tema é analisado em si, mas também serve como eixo para analogias.

No prefácio, Oughourlian discute especificamente a anorexia do ponto de vista psicológico, enfatizando o que há nela de rivalidade:

Rivalidade com quem ou com quê? Antes de tudo, consigo mesma, com seu corpo, com suas necessidades, num esforço de dominação e de controle de si que seria, ao mesmo tempo, um desafio e uma forma de ascese. Mas também rivalidade com os outros, luta pelo poder: a anoréxica torna-se muito rapidamente o centro da atenção familiar, e seu prato torna-se uma espécie de circo romano onde se enfrentam os desejos rivais dos que a rodeiam – e que querem que ela coma – e seu próprio desejo, sua recusa, que deixa sem respirar toda a família envolvida nesse combate cotidiano que termina com o recurso ao “poder médico”, que manifestará a derrota e a renúncia de seus pais e o aparecimento de um adversário enfim à sua altura.

Em outra parte do livro, Girard mostra como a bulimia nervosa pode ser uma chave para interpretar a cultura contemporânea:

Certamente, tudo parece ultrapassado na medida em que nossa cultura pós-moderna renuncia ao princípio da novidade a qualquer preço, substituindo o fetichismo da inovação por um ecletismo caótico. Mas, longe de reabilitar a piedosa e paciente imitação dos clássicos, o pós-modernismo se assenhoreia insolente e indolentemente de tudo o que encontra no passado, sem seguir nenhum critério discernível e sem nos fornecer esses víveres nutritivos que nos faltam cruelmente. A nova escola nega implicitamente qualquer valor permanente ao passado de que extrai tudo. Ela regurgita rapidamente tudo o que ingurgita tão indiferentemente. Sou muito tentado a reduzir tudo isso ao equivalente estético não da anorexia desta vez, mas dessa síndrome da última moda, a bulimia nervosa. Tal como nossas princesas, nossos intelectuais e artistas estão alcançando o estágio bulímico da modernidade. (p. 71)

Imperdível também é o prefácio de João Cezar de Castro Rocha, organizador da coleção, que faz um paralelo com a noção de anorexia discutida no livro e… o famoso conto “O Cobrador”, de Rubem Fonseca!

Rematar Clausewitz: Book Trailer

Está excelente o book trailer de Rematar Clausewitz, livro fundamental para compreender a ligação entre o colapso da guerra como instituição e a ascensão do terrorismo.

O livro pode ser comprado aqui.

Iniciando a leitura de René Girard

Frequentemente chegam ao blog perguntas sobre a melhor maneira de iniciar-se na obra de René Girard. Seria muito difícil dar uma resposta definitiva, mas é possível fazer um esforço para dar alguns esclarecimentos.

Antes de tudo, parece-me que a melhor maneira de abordar um pensamento é pelo lado dele que naturalmente se impõe ao sujeito que pergunta. René Girard abordou diversas questões, tratou de diversos autores; talvez a melhor maneira de abordá-lo seja por um interesse comum. No Brasil, Luiz Costa Lima costuma mencionar Girard como um dos teóricos da mímesis, pois é o tema que lhe interessa; um teólogo pode ter interesse no papel do sacrifício. Talvez o leitor tenha interesse por Dostoiévski ou por Camus, e assim pode procurar os textos girardianos a esse respeito. O conhecimento depende desse aspecto propriamente erótico: o querer conhecer.

Todavia, sem o leitor realmente estiver em busca de uma introdução bibliográfica sem uma pergunta anterior mais precisa, pode-se propor duas portas de entrada para a obra de René Girard:

  1. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. É o primeiro livro de Girard, no qual o desejo mimético ainda é chamado de “desejo triangular” — esse, aliás, é o título do primeiro capítulo. Girard discute Cervantes, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski e Proust, mas a discussão vai além de literatura e desejo. Os capítulos sobre Stendhal, por exemplo, discutem bastante a interação entre a aristocracia e a burguesia na França oitocentista, mostrando como aquela passou a imitar os valores desta.
  2. Shakespeare: Teatro da Inveja. O livro funciona em parte como um grande “resumão” das ideias girardianas. Seguindo o teatro de Shakespeare, Girard vai aprofundando suas ideias sobre o desejo mimético, a mediação, e chega a discutir o bode expiatório e o apocalipse. Vale a pena só fazer a ressalva de que Girard veio a alterar fundamentalmente sua posição em relação ao sacrifício e ao cristianismo, como destacamos em dois posts deste blog: Ainda a inexistência do “pensamento não-sacrificial” e O julgamento de Salomão: uma importante virada epistemológica.

Uma das grandes vantagens de ler estes livros nas edições da É Realizações é poder contar com as introduções de João Cezar de Castro Rocha. Além de esclarecer o lugar das ideias de Girard dentro do pensamento contemporâneo, as introduções sempre acrescentam algo específico ao contexto latino-americano. Em nenhum outro país do mundo os livros de Girard são editados com introduções tão proveitosas.

Temos aqui no blog também uma série de noções básicas, que conta com os seguintes posts:

  1. O desejo mimético
  2. A mediação externa
  3. A mediação interna
  4. Modelo-obstáculo e double bind
  5. O desejo “metafísico”
  6. Interdividualidade (Um conceito elaborado pelo próprio Girard, que se distingue da ideia de “intersubjetividade”.)
  7. Pseudonarcisismo (Uma versão mais radical do “narcisismo” de Freud.)
  8. A conversão (e algo do duplo angélico) (A conversão, mas não necessariamente religiosa.)
  9. O bode expiatório
  10. Apocalipse
  11. Ainda o bode expiatório

Filósofo francês René Girard foi um conservador revolucionário

por João Cezar de Castro Rocha*

René Girard nasceu em 1923, na França, e morreu na quarta-feira (4 de novembro de 2015), nos Estados Unidos. Lida pelo avesso, essa frase, mera transmissão de dados biográficos, revela um traço inquietante.

Seguindo os passos paternos formou-se paleógrafo e arquivista – e, como o pai, deveria assumir o cargo de curador da Biblioteca e do Museu de Avignon.

Num gesto de distanciamento, definidor de sua personalidade, Girard reinventou-se, deixando a França em 1947 para iniciar um doutorado em história nos EUA. Depois da tese "American Opinion on France, 1940-1943", seguiu carreira no país que adotara.

Novo desvio: professor de literatura comparada, ele publicou seu primeiro livro, Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961). Nesse brilhante exercício crítico, intuiu a categoria que marcou sua obra: o desejo mimético, isto é, a centralidade do outro na determinação do eu.

Girard radiografou as metamorfoses do desejo mimético na obra de Cervantes, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski e Proust. Em lugar da diferença absoluta, a repetição relativa. Porém, na teoria girardiana, a mimese é matriz de rivalidade e conflito.

Noção aprofundada em seu segundo livro-chave, A Violência e o Sagrado (1972). Formado durante a Guerra Fria, o francês voltou a remar contra a corrente. Muitos pensadores defendiam formas não violentas de organização política. Ao contrário, Girard afirmou a onipresença da violência nos primórdios da cultura; daí a conjunção aditiva: violência e sagrado.

Mais: Girard ampliou radicalmente seu horizonte disciplinar, apropriando-se da antropologia. Contudo, valorizou a associação, à época desacreditada, entre emergência da cultura e manifestação do fenômeno religioso.

Em seu terceiro livro fundamental, Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo (1978), a rebeldia manteve-se viva. O autor afirmou a singularidade ética e epistemológica do cristianismo, em sua defesa da vítima, do menos favorecido.

Cristão praticante (mas que acolheu a mim, um estudante brasileiro ateu, sem reservas), ele poderia ter dito: “Só me interessa o que não é meu”. Afinal, propôs: “Devemos concordar com os que dizem ser a Eucaristia oriunda do canibalismo arcaico”.

Crítico literário, Girard apostou na repetição e não na diferença; antropólogo, buscou o mecanismo matriz da cultura e não a irredutível particularidade das culturas; filósofo cristão, privilegiou a especificidade antropológica e não teológica das Escrituras. Pensador inclassificável, adversário de binarismos, ele foi um conservador revolucionário, um rebelde sereno. Em suas palavras: “Posso ser definido como uma espécie de outsider”.

No Brasil de hoje, cindido por uma intolerância sempre mais míope porque a cada dia mais dicotômica, a leitura da obra girardiana reveste-se de inesperada urgência. Atenção: uma urgência sem pressa –como os tantos paradoxos da vida e da obra de René Girard.

João Cezar de Castro Rocha é professor de literatura comparada da UERJ. Este artigo foi originalmente publicado na Folha de São Paulo em 6 de novembro de 2015.

Diálogos entre a teoria mimética de René Girard e The Heart is a Lonely Hunter (1940), de Carson McCullers

por Júlia Reyes (UERJ)

(Apresentação feita na Escola de Inverno René Girard em 2015.

É uma honra ter a oportunidade de apresentar meu projeto de doutorado em Literatura Comparada pela UERJ aos alunos, alunas, e aos três professores da Escola de Inverno 2015, tendo em vista os diálogos que cada um dos teóricos convidados pode oferecer para o desenvolvimento da presente pesquisa.

Esta apresentação me oferece a escuta atenta de professores que dialogaram com a teoria mimética em diversas áreas de conhecimento e a profícua troca de ideias com interlocutores que podem auxiliar meu trabalho. Por isso, expresso minha alegria e gratidão por esta oportunidade.

A Escola de Inverno nos auxilia na compreensão da teoria girardiana, de suas dinâmicas e de seus componentes. Podemos dialogar sobre a teoria mimética em nível interdividual e pensar nas relações pessoais e também em sua relação com a geopolítica, com a economia, com as relações de poder, com a justiça e com os modos de organização e de gestão de atividades e de empreendimentos sociais que afetam indivíduos e comunidades e que também possuem um caráter mimético. Essas questões perpassam as produções de Carson McCullers (1917–1967), que escreveu e viveu na metade do século XX nos Estados Unidos, um país assolado pelos linchamentos e discursos racistas e heteronormativos.

Temos ainda a oportunidade de dialogar dentro do campo dos estudos bíblicos e das questões sobre violência inderdividual, sobre vingança, sobre ressentimento, sobre arrependimento, sobre perdão e sobre compaixão, as quais a obra de Girard discute ao ressaltar o desejo mimético e sua zona sombria e as possibilidades de superação da rivalidade e da violência através de uma conversão ética que propõe uma convivência que não seja atravessada por um mimetismo violento. Portanto, é com muita gratidão que aceito o convite para expor meu trabalho em sua fase inicial.

Meu projeto de pesquisa foi intitulado “Diálogos entre a teoria mimética de René Girard e The Heart is a Lonely Hunter (1940) de Carson McCullers”. Nessa pesquisa, o objetivo geral é fazer uma análise do primeiro romance da escritora estadunidense Carson McCullers (1917–1967) e de alguns de seus contos buscando uma interface com as proposições de Girard e da teoria mimética, definida pelo autor da seguinte maneira: “A Teoria Mimética ou Imitativa é uma explicação do comportamento humano e da cultura humana”.1

A ideia de relacionar a teoria mimética com as produções de McCullers surgiu da observação de que a autora, em muitas de suas obras, apresenta enredos com personagens que podem ser considerados outsiders, outcasts, marginais, freaks, forasteiros, ou seja, pessoas que estão fora de concepções normativas pré-estabelecidas culturalmente.

René Girard realça um mecanismo de resolução do conflito generalizado denominado “bode expiatório”, identificado na vítima sacrificial das sociedades arcaicas. Nele, uma vítima extingue, com seu sacrifício, a escalada das violências sociais endógenas de uma dada comunidade, promovendo o retorno da ordem social ameaçada pelas rivalidades entre os integrantes de seu grupo. Carson McCullers, por sua vez, dá destaque a personagens que não se enquadram em padrões normativos2, como anões, surdos-mudos, alcoólatras, adolescentes deslocadas, mulheres, negros, crianças e homossexuais.

Escolhendo personagens outsiders, McCullers trabalha contextos de inclusão e exclusão, de violência e de relações humanas que dialogam com as reflexões girardianas, pois os personagens considerados “diferentes” são bodes expiatórios potenciais da comunidade a que pertencem ou na qual se inseriram. O fato de McCullers ter escolhido personagens que se destacam do grupo social por serem desviantes da norma faz com que a autora precise retratar as relações sociais de forma a apresentar e resolver os conflitos inerentes à presença de tais personagens no espaço social. Paralelamente, Girard investigou esse tipo de dinâmica de conflitos humanos ao longo de sua trajetória teórica.

A partir da coincidência entre os dois autores que trabalham com excluídos e incluídos (os bodes expiatórios no caso de Girard, e os outcasts no caso de McCullers), uma hipótese de trabalho foi delineada, buscando-se as confluências entre os dois autores. O destaque concedido por McCullers a personagens fora de padrões normativos torna, na minha hipótese, essas personagens bodes expiatórios em potencial e faz com que a autora precise resolver essa tensão entre personagens desviantes e não-desviantes retratando dinâmicas sociais de exclusão ou também de aceitação dos indivíduos vistos como “diferentes” em seus livros.

Portanto, existia uma possibilidade de que, mesmo sem conhecer a teoria de Girard, McCullers tenha intuído e trabalhado sobre a rivalidade mimética e o mecanismo do bode expiatório enquanto escrevia. Essa hipótese é baseada também nas reflexões de Girard em Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), em que o autor apresenta intuições teóricas a partir da leitura de romancistas modernos. Assim, outra hipótese a ser respondida é se Carson McCullers é uma escritora “romanesca”.

A primeira intuição de Girard versa sobre o caráter fundamentalmente mimético do desejo humano, que ilumina as rivalidades interdividuais. A segunda intuição girardiana destaca a solução encontrada para apaziguar e diluir as tensões sociais advindas de tais rivalidades, o mecanismo do bode expiatório. A análise literária dos contos e do romance de McCullers vai dialogar com essas intuições.

No primeiro romance de Carson McCullers, The Heart is a Lonely Hunter (1940) temos a apresentação de duas personagens principais que são surdos-mudos: Spiros Antonapoulus e John Singer. Os dois moravam juntos há dez anos e eram os únicos surdos-mudos de uma pequena cidade estadunidense. Quando Spiros Antonapoulus, depois de aprontar diversos atos escandalosos e obscenos em público, é enviado para um hospício, John Singer fica sozinho e isolado, pois mesmo sabendo ler lábios, ele perde seu melhor amigo e interlocutor. Essa condição faz com que o vínculo social de John Singer torne-se muito fraco, transformando-o assim em um bode expiatório em potencial.

Há também as outras personagens do romance, Dr. Copeland, um doutor negro que cuida exclusivamente de pacientes negros e está em conflito com a família; Biff Brannon, o dono do New York Café, onde os personagens se encontram, Mick Kelly, uma adolescente apaixonada por música e piano, e Jake Blount, um viajante socialista que prega sobre suas crenças, bebe muito e tem um comportamento volátil. Todas as personagens interagem com John Singer, projetando nele qualidades que admiram. Esse fato reforça ainda mais a possibilidade de John Singer ser visto como um bode expiatório simbólico da trama.

René Girard observa, em seu segundo livro, A Violência e o Sagrado (1972) que os indivíduos potencialmente escolhidos como bodes expiatórios são em geral aqueles que possuem um elo frágil com a sociedade, pois ninguém poderá, depois de sua imolação, reclamar sua morte e empreender um plano ou ação de vingança. Girard assinala a respeito da escolha de vítimas sacrificiais:

Encontramos em primeiro lugar os indivíduos que apresentam um vínculo muito frágil ou nulo com a sociedade: os prisioneiros de guerra, os escravos, o pharmakós. Na maioria das sociedades primitivas, as crianças e os adolescentes ainda não iniciados também não pertencem à comunidade: seus direitos e deveres são praticamente inexistentes (Girard 2008, p. 24).

Assim, um disparador da possível relação entre os dois autores tornou-se possível, mas não se restringe à presença de bodes expiatórios.

Compaixão x reciprocidade violenta

Na terceira intuição de René Girard, referente ao livro Coisas Ocultas Desde a Fundação do Mundo (1978), a religião é o processo de institucionalização do mecanismo do bode expiatório. A emergência da cultura e o surgimento do fenômeno religioso são, em Girard, como assinala João Cezar de Castro Rocha3, dois momentos de um mesmo processo (Rocha 2014, p. 64).

Diante da interface entre a teoria mimética e os estudos bíblicos, tenho a intenção de trabalhar o romance e os contos de McCullers do livro The Ballad of the Sad Café (1951) sob a perspectiva da dissolução da vingança e do tema do amor, da compaixão e do perdão, sentimentos contrários à rivalidade mimética. Buscarei averiguar o conceito de “inteligência da vítima” em oposição à reciprocidade violenta e ao mecanismo do bode expiatório; se a inteligência da vítima está presente nos contos de McCullers e de que forma é trabalhada em cada um deles.

René Girard considera Jesus como a vítima inocente por excelência, aquela que é capaz revelar que o mimetismo, quando transformado em rivalidade mimética, revela nossa tendência de atuarmos como perseguidores de inocentes e como acusadores. Essa seria a postura satânica, oposta ao amor gratuito de Jesus e de Deus Pai.

James Alison retoma essa reflexão de Girard, estabelecida marcadamente em Coisas ocultas desde a fundação do mundo (1978) e em Eu via Satanás cair como um relâmpago (2012). Em O Pecado Original à Luz da Ressurreição: A Alegria de Descobri-se Equivocado (2011), James Alison propõe o conceito de “inteligência da vítima”, continuando as reflexões de Girard, que tinha definido Satanás como o mau mimetismo.4

A vítima ou bode expiatório pode ser um membro social escolhido de forma estratégica por se desviar da normalidade, seja por possuir características positivas ou negativas em relação aos outros integrantes do grupo. Podemos discutir a vítima que será sacrificada nas sociedades de hominídeos, e podemos discutir a vítima como um membro socialmente hostilizado e excluído. René Girard, em Eu via Satanás cair como um relâmpago (1999) diz o seguinte sobre a definição de bode expiatório:

Portanto, a expressão bode expiatório designa: 1) a vítima do rito descrito no Levítico 2) todas as vítimas de ritos análogos que existem nas sociedades arcaicas e que são também chamados de ritos de expulsão; e finalmente 3) todos os fenômenos de transferências coletivas não ritualizadas que observamos ou pensamos observar ao nosso redor. (GIRARD, 1999, p.227).

James Alison, em O Pecado Original à Luz da Ressurreição: A Alegria de Descobrir-se Equivocado (1998) reforça que o envolvimento dos seres humanos com a morte se caracteriza de uma forma específica, na qual a constituição do desejo humano é “forjada no modo de skandala, por meio do qual recebemos a morte, uns dos outros, e causamos morte uns nos outros em nossos mútuos envolvimentos vitimários” (p.237). Por outro lado, Alison explica que mesmo os seres humanos aprisionados em uma reciprocidade violenta, chamada por Girard de “psicologia interdividual”, onde reside um desejo que nos conduz à morte, nossa ou dos outros, há outra possibilidade de comportamento que não leva à morte. Jesus e os Evangelhos pregam outra orientação a que é possível ascender.

A “inteligência da vítima”, conceito de James Alison, refere-se à inteligência de um ser humano que recusa a vingança e o ressentimento, instituições típicas da rivalidade mimética, alguém que não condena o algoz e segue o ensinamento de Jesus. Jesus não ensina o desejo relacionado à morte, mas um ensinamento ético que “busca nos libertar ao nos ensinar uma nova forma, mas não menos recíproca de desejo, a qual nos permitirá cumprir a lei e os profetas a partir do coração” (Alison 1998, p. 236).

James Alison ressalta que a intuição psicológica interdividual de Jesus é encontrada nos Evangelhos de Mateus e de Marcos: “O antídoto ao desejo tomado de rivalidade, presente entre os discípulos em sua busca por grandeza, pode ser sorvido no aprendizado de remodelar o desejo em função de buscar e receber o não importante, como as crianças fazem (9, 36–37). São os sem importância que não ficarão escandalizados (9, 42), pois são eles, marginais e periféricos diante do mundo complexo dos desejos adultos, que são realmente capazes de receber a gratuidade de Deus (10, 14–15) (ALISON, 2011, p.236).

Assim, os aspectos fabulares, infantis, cômicos e góticos dos personagens de Carson McCullers podem ainda ser investigados em seu aspecto infantil e dramático particular, como a pré-adolescente Mick Kelly; seu irmão, o garoto Bubber/George; ou os amigos surdos-mudos John Singer e Spiros Antonapoulus, pois a atmosfera influenciada pelo realismo russo da autora é marcada por personagens e tramas com tons realistas e lúdicos, de aspectos trágicos e cômicos, de forma que a inocência de alguns personagens outsiders seja demarcada e espalhe-se como um tom, uma atmosfera própria que contamina e acompanha a leitura e que no plano do conteúdo por acompanhar o contexto da “inteligência da vítima”.

Assim, a leitura do romance de Carson McCullers será feita na tentativa de relacionar seu romance com a teoria mimética e com a inteligência da vítima, bem como a análise de seus contos, que também será realizada sob a perspectiva da inteligência da vítima, da compaixão, do amor e do arrependimento por oposição à rivalidade mimética, ao mecanismo do bode expiatório e à reciprocidade violenta.

A presente pesquisa ainda está em uma fase inicial, e a preocupação central é a compreensão da teoria mimética e a revisão bibliográfica das obras de René Girard. Apresentei aqui alguns caminhos de análises possíveis e espero que as perspectivas que insinuei estejam de acordo com o pensamento girardiano e tornem-se posteriormente reflexões literárias mais claras e consolidadas, que indiquem que a literatura pode ser trabalhada através da interface com a teoria mimética, considerando que enfrentamos os problemas de rivalidade e violência desde as sociedades arcaicas, e que muitos escritores podem articular essas questões em suas produções.

A literatura e a análise literária, nesse prisma da relação com a teoria mimética, não estaria circunscrita exclusivamente ao campo da estética, da análise literária tradicional ou da descrição formal, mas estaria também ligada ao domínio da filosofia, da antropologia e dos estudos bíblicos, ressoando a amplitude da teoria girardiana.

Finalizo por aqui, e agradeço a atenção de todos e todas e a disposição em dialogar.

Referências bibliográficas

ALISON, James. O pecado original à luz da ressurreição: a alegria de descobrir-se equivocado. Trad. Mauricio G. Righi. – São Paulo: É realizações, 2011.

Girard, René. A violência e o sagrado. Tradução: Martha Conceição Gambini. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1990.

_____. Coisas ocultas desde a fundação do mundo. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

_____. Mentira romântica e verdade romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações Editora, 2009.

_____. Eu via Satanás cair como um relâmpago. Trad. Martha Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

ROCHA, João Cezar de Castro. Culturas shakespearianas?: Teoria mimética y América Latina. México: Sistema Universitario Jesuita: Fideicomiso Fernando Bustos Barrena, 2014.

Júlia Reyes, colaboradora regular do blog Miméticos, é doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), onde desenvolve pesquisas na área de Letras com ênfase em literatura estadunidense e sua interface com a teoria mimética proposta pelo filósofo francês René Girard (1923-).


  1. “Mimetic or imitative theory is an explanation of human behavior and human culture”. Girard, René. “Account of mimetic theory”, março de 2009. (Consulta em 14 de setembro de 2011.)

  2. René Girard, em Eu via Satanás Cair como um Relâmpago (1999) afirma sobre as vítimas: “As vítimas podem ser aleijados, enfermos, miseráveis, desfavorecidos, indivíduos mentalmente retardados, mas também grandes inspiradores religiosos, como Jesus ou os profetas judeus, ou ainda, atualmente, grandes artistas ou pensadores. Todos os povos têm tendência a rejeitar, sob um pretexto ou outro, os indivíduos que escapam de sua concepção do normal e do aceitável” (GIRARD 1999, p.51).

  3. ROCHA, João Cezar de Castro. Culturas Shakesperianas?: Teoria Mimética y América Latina. México: Sistema Universitario Jesuita: Fideicomiso Fernando Bustos Barrena, 2014.

  4. Girard, em Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago (2012), esclarece: “Como é o mestre do mecanismo vitimário, Satanás é também o mestre da cultura humana que não tem outra origem além do assassinato. Em última análise, é o diabo, ou, em outras palavras, o mau mimetismo, que se encontra na origem não somente da cultura cainita, mas de todas as culturas humanas” (p. 134).

Trecho de Diário de um Pároco de Aldeia

Diário de um Pároco de Aldeia

Diário de um Pároco de Aldeia

Na sua palestra de apresentação do romance Diário de um pároco de aldeia, feita há alguns anos na É Realizações, o professor João Cezar de Castro Rocha mencionou que um trecho do livro servia como resumo de Rematar Clausewitz, de René Girard.

Trata-se do trecho abaixo. (Como não disponho do exemplar da É, fiz uma tradução do trecho especialmente para o blog.) Quem tiver um conhecimento mesmo superficial da visão girardiana do bode expiatório e do apocalipse, noções que ainda aprofundaremos aqui em posts próprios, dificilmente não vai ficar maravilhado. A “instituição” de que Bernanos fala é nada menos do que o mecanismo sacrificial; o que o cristianismo fez foi explicitá-lo para o mundo.

Com vocês, Georges Bernanos:

Conservamos, que seja. Mas é para salvar que conservamos, é isso que o mundo não quer entender, porque ele só pede uma coisa: durar. Ora, ele não pode mais contentar-se em durar.

O Mundo Antigo, por sua vez, talvez pudesse ter durado. Durado muito tempo. Ele era feito para isso. Ele era terrivelmente pesado, estava firmado à terra por um peso enorme. Tinha resignado-se com a injustiça. Em vez de ludibriá-la, ele a tinha aceitado em bloco, inteira, tinha feito dela uma elemento igual a outros, tinha instituído a escravidão. Ah! Sem dúvida, qualquer que fosse o grau de perfeição que ele jamais pudesse atingir, mesmo assim teria permanecido sob a maldição lançada contra Adão. Isso o diabo não ignorava, e aliás sabia melhor do que qualquer pessoa. Mas de todo jeito era uma empreitada difícil jogá-la quase inteira sobre os ombros de um gado humano, o peso do fardo talvez se reduzisse na mesma medida. A maior soma possível de ignorância, de revolta, de desespero, reservados a um tipo de povo sacrificial, um povo sem nome, sem história, sem bens, sem aliados — ao menos confessáveis — sem família — ao menos legal, sem nome e sem deuses. Que simplificação do problema social, dos métodos de governo!

Mas essa instituição que parecia inquebrável era na verdade a mais frágil. Para destruí-la para sempre, bastava aboli-la por um século. Talvez um só dia tivesse bastado. Uma vez que as castas outra vez se confundissem, uma vez que o povo expiatório se dispersasse, que força teria sido capaz de fazer-lhe retomar o jugo?

A instituição morreu, e o Mundo Antigo desabou junto com ela. Acreditava-se, fingia-se acreditar em sua necessidade, que era aceita como um fato. Ela não será restabelecida. A humanidade não ousará mais correr esse risco temerário, seria grande demais. A lei pode tolerar a injustiça ou até favorecê-la sorrateiramente, mas não vai mais sancioná-la. A injustiça não terá nunca mais um estatuto jurídico, isso acabou. Mas no entanto ela permanece espalhada pelo mundo. A sociedade, que não ousaria mais utilizá-la para o bem de um pequeno número, condenou-se assim a buscar a destruição de um mal que traz em sim, mal que, afastado das leis, reaparece quase imediatamente nos costumes para começar, às avessas, incansavelmente, o mesmo circuito infernal. Querendo ou não, ela agora deve partilhar da condição do homem, participar da mesma aventura sobrenatural. Outrora indiferente ao bem ou ao mal, conhecendo como única lei sua própria força, o cristianismo deu-lhe uma alma, uma alma a ser perdida ou salva.

Uma resenha de Mentira Romântica e Verdade Romanesca

Senhoras e senhores, é com alegria que apresento a primeira resenha escrita especialmente para o blog!

O desejo mimético redescoberto

por Júlia Reyes (Doutoranda em Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

Uma obra: livros-chave

As principais intuições do teórico francês René Girard (1923) estão contidas em seus três primeiros livros. Esse método de enfocar a obra girardiana foi criado por Michael Kirwan em Discovering Girard (2004) e retomado por João Cezar de Castro Rocha em Culturas Shakesperianas? Teoria mimética y América Latina (2014). Os três primeiros livros de Girard, que contêm suas intuições principais são: Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), A Violência e o Sagrado (1972) e <Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978).1

Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961), o primeiro livro de Girard, dialoga com o filósofo alemão Friedrich Hegel (1770–1831), particularmente com a obra Fenomenologia do espírito (1807) e com os estudos literários. Girard fez uma leitura inovadora de romances modernos que apresentam reflexões sobre a dinâmica interdividual do desejo mimético. No segundo livro, A Violência e o Sagrado (1972), Girard dialoga com Sigmund Freud (1856–1939), com teóricos estruturalistas e com a antropologia cultural. Em seu terceiro livro, Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978), o autor traça paralelos com Friedrich Nietzsche (1844–1900), com a etologia, a etnologia, a teologia e os estudos bíblicos. Por fim, em Rematar Clausewitz (2007) Girard trabalha suas reflexões a partir da obra do general Clausewitz e seu célebre tratado Da Guerra (Rocha, op.cit.).

Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961) inaugura a discussão sobre a teoria mimética e seus desdobramentos. O livro inicia uma extensa reflexão sobre a condição humana, na qual o desejo possui um papel central. Essa reflexão percorre toda a obra de Girard e apresenta intuições condensadas em suas obras posteriores, A Violência e o Sagrado (1972) e Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo (1978).

A primeira intuição de René Girard está contida no título de Mentira Romântica e Verdade Romanesca e é esclarecida quando Girard diferencia escritores românticos e escritores romanescos e suas diferentes visões sobre o desejo humano. Partindo da leitura de obras de romancistas ocidentais como Cervantes, Dostoiévski, Flaubert, Stendhal e Proust, o estudioso francês encontrou uma semelhança na abordagem do desejo humano entre os referidos autores, os quais denominou romanescos para diferenciá-los dos autores românticos, e a partir dessa distinção, estabeleceu uma teoria sobre o desejo humano.2

Por um lado, os escritores românticos criam personagens que desejam um objeto, que pode ser uma pessoa, como se possuíssem um desejo individual e autônomo, isto é, apaixonam-se por alguém, mas seu desejo não tem relação com qualquer influência externa. Já os escritores romanescos estruturam as relações de desejo de suas personagens incluindo a influência de terceiros; por exemplo, conhecidos, parentes ou amigos próximos, que são seus mediadores ou modelos. Em suma, os escritores românticos apresentam o desejo como uma ligação entre dois sujeitos. Nessa concepção de amor à primeira vista, por exemplo, uma personagem se apaixona por outra simplesmente ao vê-la. O Outro, nessa concepção, é aquele que impede os apaixonados de consumarem seu amor, por exemplo, familiares que são contra a união do casal. O herói romântico é concebido como portador de um desejo autônomo, que pertence apenas a ele, e que ele dirige a alguém de forma direta.3

Nas histórias de escritores romanescos — segundo Girard, os grandes autores —, dois sujeitos começam a desejar-se através da mediação de um terceiro. Nessa dinâmica, toda relação amorosa é triangular, pois existe o Outro, o mediador que estimula o desejo de um dos apaixonados. Nas tramas de escritores romanescos e na concepção do próprio Girard, o desejo, sempre mediado e supondo uma relação triangular, não é fruto de uma subjetividade autocentrada e autossuficiente, independente de fatores externos ao sujeito, como na concepção de escritores românticos. O desejo humano, na concepção de escritores romanescos, pode começar, aumentar ou diminuir de intensidade e mesmo extinguir-se dependendo da relação que o apaixonado estabelece com seu modelo, alguém que lhe é próximo, um amigo ou professor, em quem esse sujeito se espelha, mantendo uma relação de admiração que afeta seu desejo. Em síntese, como esclarece João Cezar de Castro Rocha na introdução da edição brasileira de Mentira Romântica e Verdade Romanesca: “o desejo humano é fruto da presença de um mediador, vale dizer, o desejo é sempre mimético.” (Girard, 2009, p.17, grifos do autor)

Essa distinção entre escritores românticos e romanescos inicia uma reflexão sobre dois sujeitos desejarem não diretamente, como no caso das histórias de escritores românticos, mas indiretamente, pois a pessoa para quem dirigimos nosso desejo é determinada pelas redes criadas pelas mediações nas quais estamos envolvidos. João Cezar de Castro Rocha pontua: “como aprendo a comportar-me a partir da reprodução de comportamentos já existentes, sou levado, consciente ou inconscientemente, a adotar modelos e a segui-los como se fossem expressões do meu desejo autônomo.” (Girard, 2009, p.18, grifos do autor) Conhecendo o caráter mimético do desejo, adquirimos uma consciência sobre a dependência que o desejo possui de um mediador, ou seja, de um Outro, um modelo que deseja um objeto então imitado pelo sujeito. Nosso desejo parece autônomo, mas se espelha no desejo de nosso mediador. Ao invés de confiar na originalidade de nossos desejos, descobrimos, na perspectiva da teoria mimética, que eles estão relacionados ao desejo de um Outro, e a partir desse conhecimento, podemos buscar evitar certo nível de rivalidade. Nosso desejo por alguém pode ser alterado por influência de nossos familiares, que aprovam ou não a união com nosso par, por nossos amigos ou quaisquer mediadores que possuímos, aumentando ou diminuindo, flutuando dependendo da opinião de pessoas que escolhemos como modelos e do que elas pensam e sentem sobre nossos entes amados.

A concepção do desejo humano como fundamentalmente mimético não deixa de surpreender, sobretudo se levarmos em conta uma ilusão prévia sobre a autonomia do desejo, retratado muitas vezes como algo que pertence apenas a nós mesmos. Descobrir que pessoas que admiramos podem alterar significativamente nosso desejo por outras ou por qualquer outro objeto parece nos tirar o chão. Considerar que somos levados a gostar ou a desgostar de alguém por influência de outra pessoa pode ser assustador. Porém, se lembrarmos que nossos amigos nos pedem a opinião sobre aqueles de quem dizem gostar, e que nós mesmos escutamos atentamente a opinião dos amigos sobre aqueles de quem gostamos, a hipótese começa a se desenhar mais nitidamente.

Em resumo, para Girard, os romancistas que de forma consciente ou inconsciente ocultam a presença do mediador contribuem para a mentira romântica, que concebe a relação entre o sujeito que deseja e aquele que é desejado como espontânea e direta. Em contraposição, os escritores que abordam a necessária presença do mediador permitem que enxerguemos a verdade romanesca, segundo a qual os sujeitos desejam porque imitam seus modelos, embora muitas vezes sem conhecer o mecanismo em que estão envolvidos. Assim, Mentira Romântica e Verdade Romanesca são formas opostas de conceber e elaborar a natureza mimética do desejo. Enquanto os escritores românticos ocultam o mimetismo suprimindo o mediador, os escritores romanescos refletem sobre o desejo mimético e destacam o protagonismo do mediador ou as consequências da mediação.

Além de ressaltar o aspecto fundamentalmente mimético do desejo humano, Girard refletiu sobre as consequências positivas e negativas da mediação, do caráter mimético do desejo. Adotar um modelo e imitá-lo, no caso de um estudante que lê as referências citadas em aula por seu professor cria um efeito geral positivo de ampliação do repertório do aluno. Porém, a partir da leitura de alguns romances modernos, Girard destaca uma zona sombria no processo mimético. Ao adotar um modelo, passaremos a desejar os objetos (ou pessoas, ou ideais) que o nosso modelo deseja, o que pode gerar competições e conflitos. Os escritores analisados por Girard trabalham a mediação especialmente no contexto das relações amorosas, o triângulo mimético formado por um sujeito, seu modelo e um objeto. Quando escolho um amigo como modelo, seguirei o que ele deseja e poderei apaixonar-me por quem ele se apaixonar e disputar o afeto dessa pessoa com ele. Aprofundando-se no desejo e em seu caráter mimético, Girard distingue dois tipos de mediação, a mediação interna e a mediação externa, que se diferenciam através da distância ou proximidade — espiritual, e não geográfica — do sujeito com seu modelo.

Na mediação externa, o modelo está espiritualmente distante do sujeito mimético. Quando imitamos o estilo de cantar de um cantor favorito, não competimos com ele, pois nosso modelo não tem contato conosco. Girard pontua que quanto mais externa for a mediação, mais o resultado da imitação será pacífico.

Na mediação interna, ao contrário, o modelo está próximo do sujeito mimético, pode ser um professor, um amigo, um vizinho. Entre modelos e sujeitos miméticos próximos, o desejo mimético se converte em rivalidade, pois dois amigos podem desejar a mesma mulher, o mesmo emprego ou a mesma bolsa de estudos. Assim, quanto mais interna for a mediação, mais violento será o resultado da imitação. Para Girard, o romance moderno distingue-se por analisar com minúcia a mediação interna e suas consequências.

René Girard encontrou a presença do mediador nos romances de Proust, Cervantes, Stendhal, Flaubert e Dostoiévski. Girard percebeu que alguns autores modernos tinham consciência de que o desejo das personagens se espelhava em um mediador e que esse desejo podia oscilar de acordo com os desejos que esse mediador possuísse. Em seguida, Girard percebeu as consequências de relações entre sujeitos que se elegem como modelos, se espelham um no outro e podem acabar entrando em profundas rivalidades por desejarem o mesmo objeto. Essas rivalidades foram repensadas por Girard no contexto dos conflitos de hominídeos em uma época em que esses grupos viviam sem instituições formalizadas. Girard vai destacar a vingança e o ressentimento como as primeiras formas de instituição humanas não formalizadas, dentro da dinâmica entre sujeito, mediador e objeto na qual o sujeito e o mediador podem chegar a um nível tão acirrado de conflito que podem esquecer-se do objeto e passam a agredir-se fisicamente. A violência humana foi relacionada a essa tensão social entre muitos sujeitos e mediadores e será discutida ao longo da obra girardiana.

Conversão: entendendo o conceito

Outro ponto a ser esclarecido na obra de Girard é o conceito de conversão. João Cezar de Castro Rocha, ao referir-se ao conceito de conversão no âmbito do livro de Girard, explica que esse conceito possui um sentido particular. Dentro do contexto da mediação, ao percebermos a natureza mimética de nosso desejo, reconhecemos que devemos substituir a mentira romântica pela verdade romanesca, ou seja, reconhecer que nosso desejo não é autônomo, e sim dependente da rede de mediações com nossos modelos. Ao efetuar esse reconhecimento epistemológico sobre a natureza de nosso desejo e sua dinâmica, podemos adotar uma atitude ética, buscando evitar as rivalidades que decorrem do desejo. Essa atitude ética implica evitar as consequências mais graves do desejo mimético, o aumento de tensões e competições e o confronto direto com nosso modelo.

A primeira intuição girardiana refere-se, portanto ao fato de o desejo humano ser fundamentalmente mimético. Sobre os desdobramentos do mimetismo, o autor desenvolve a ideia de agravamento dos conflitos entre sujeito e modelo. Em decorrência do desejo mimético, da presença de mediadores que nos influenciam, acabamos desejando os objetos que eles desejam, e tentamos nos apropriar deles. Assim, o desejo mimético é contagioso e pode agravar-se. Como sujeitos, somos eleitos modelos por outras pessoas e simultaneamente elegemos vários modelos. Nessa rede de mediações, cada um desejando o objeto de seu modelo e sendo modelo para outros, é inevitável que nossos conflitos se multipliquem e que as rivalidades eclodam em nível social, criando conflitos generalizados. Nesse momento da reflexão, Girard percebe que uma forma de controle da violência faz-se necessária.

Ao refletir sobre esse tipo de conflito em escala social, Girard, em A Violência e o Sagrado (1972), seu segundo livro, desenvolve os mecanismos subjacentes ao processo civilizatório. Quando a violência derivada das rivalidades miméticas atinge o seu auge, o autor destaca a ocorrência de um fenômeno particular que, por seu êxito permite controlar os efeitos desagregadores da mímesis. No referido mecanismo de controle da violência, Girard mostra que a violência de todos contra todos, advinda das tensões da mediação, torna-se uma violência dirigida contra um único membro do grupo. Todos os membros de um grupo social que estava em ebulição devido à profusão de rivalidades miméticas canalizam a violência contra um membro do grupo. A partir do conceito de méconnaissance, adaptado por Girard, aprendemos que a multidão acreditava piamente na culpa da vítima durante o processo de condená-la. A vítima, também chamada de bode expiatório, é sacrificada e a ordem volta a estar presente. O bode expiatório, com o retorno da ordem social, passa a ser visto como divino, pois a violência anterior, depois do sacrifício, foi dissipada.

Apesar de Girard trabalhar com períodos históricos distintos, que vão desde os primeiros grupos de hominídeos até as guerras do século vinte, o autor não concebe a história, segundo João Cezar de Castro Rocha, “como um processo linear e teológico, mas como uma espiral, dominada por elementos comuns, cujos desdobramentos não podem ser determinados a priori.” (2009, p. 22). Mesmo depois de ter identificado a existência do mecanismo do bode expiatório, Girard não afirma que esse mecanismo sempre se manifestará na resolução dos conflitos miméticos ou que a resolução vai assumir sempre as mesmas formas. Podemos pensar em grupos sociais que sofreram uma desintegração por não terem desenvolvido um mecanismo de controle da violência advinda do desejo mimético, mas não criar uma regra universal sobre o mecanismo do bode expiatório. Segundo Girard, grupos sociais desenvolveram o mecanismo do bode expiatório cada um ao seu modo. Mais tarde, o mecanismo do bode expiatório foi aperfeiçoado com a criação de ritos e instituições.

As leituras literárias de Girard consideram as relações entre dois ou mais sujeitos e seus objetos de desejo e conflitos subsequentes. Na leitura do romance Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, René Girard destaca as relações entre sujeitos, mediadores e objetos. Dom Quixote tem como modelo Amadis de Gaula, seguindo os modelos de cavalaria que Amadis lhe indica. Amadis, modelo é um mediador de desejos. Mesmo que os objetos mudem durante cada aventura, permanece o triângulo (que implica um sujeito, um mediador e um objeto). Sancho Pança tem como modelo Dom Quixote, e depois que o conhece, passa a sonhar com uma “ilha” que irá governar, e a desejar um título de duquesa para sua filha. Portanto Dom Quixote é o mediador de Sancho Pança. A presença do inventor de Amadis, o autor dos romances de cavalaria, situa-se na origem dos desejos de Dom Quixote segundo Girard. Na paixão cavalheiresca, vemos estimulado um desejo segundo o Outro que se contrapõe a um desejo segundo Si próprio (Girard, 2009). Girard ressalta a respeito do tema de Dom Quixote: “A obra de Cervantes é uma longa meditação acerca da influência nefasta que podem exercer, uns sobre os outros, os espíritos mais sãos” (Girard, 2009, p.27).

Sintetizando o caminho girardiano percorrido até aqui, sabemos que Girard observou as relações triangulares desenvolvidas em diversos romances ocidentais que enfocavam relações humanas e desejos, especificamente os romances de escritores que denominou romanescos. Girard percebeu em tais romances os conflitos da presença de um sujeito, um mediador e um objeto. Após constatar o caráter mimético do desejo nas relações entre sujeitos e mediadores, o autor francês observou a ocorrência de conflitos advindos das disputas que o sujeito poderia travar com o mediador por desejar objetos que o mediador também deseja. A leitura de Girard do romance Dom Quixote identifica essas relações entre sujeito e mediador. Como Dom Quixote é um modelo para Sancho Pança e seus desejos, e Amadis é um modelo para Dom Quixote e seus desejos — aqui a redundância se impõe —os riscos da influência ficam destacados como tema de Cervantes. Girard traça inúmeras reflexões antropológicas e filosóficas sobre conflitos e condutas humanas frente às rivalidades oriundas das interações entre indivíduos imersos no contexto de rivalidade violenta que vivenciam contra aqueles que elegeram como modelos.

No romance Madame Bovary, de Flaubert, Emma Bovary se espelha em heroínas românticas que povoam sua imaginação e essa leitura que ela fez de obras medíocres comprometeu sua espontaneidade. O tema do desejo segundo o Outro e da função “seminal” da literatura, segundo Girard, estão presentes nos romances de Flaubert. O terceiro romancista destacado por Girard é Stendhal, autor de O Vermelho e o Negro, romance em que a personagem Mathilde de la Mole escolhe seus modelos na história de sua família e a personagem Julien Sorel imita Napoleão.

Em sua leitura de O Vermelho e o Negro, Girard destaca a presença do triângulo mimético e o tema da vaidade entre os personagens de Stendhal. O sr. de Rênal é o homem mais rico da cidade de Verrières, seguido de Valenod. O sr. de Rênal está sempre pensando nesse adversário. Durante uma negociação, o velho Sorel sugere ter recebido melhor proposta para contratar Julien Sorel como preceptor. Ao inventar a proposta, supostamente mais bem paga, o velho Sorel aproveita-se da fixação e da rivalidade que o Sr. de Rênal nutre por Valenod. Por imaginar que o rival deseja contratar Julien Sorel como preceptor, o Sr. de Rênal paga um preço ainda mais caro para contratá-lo, evidenciando a dinâmica mimética do desejo, em que o sujeito cobiça os objetos desejados por seu mediador.

Um desdobramento importante da teoria de Girard, já citado neste texto, é que o mediador, ao desempenhar esse papel, suscitando o desejo do sujeito que se espelha nele, torna-se assim também um obstáculo. Segundo Girard, “Em Cervantes, o mediador reina num céu inacessível e transmite ao fiel um pouco de sua serenidade. Em Stendhal, esse mesmo mediador baixou à terra.” (Girard, 2009, p.31)

Em O Vermelho e o Negro Girard ressalta também a estratégia de Julien Sorel, que procurando reconquistar Mathilde de la Mole, a conselho do dandy Korasov, usa a mesma astúcia de seu pai. Julien corteja não a mulher que realmente deseja, a Mathilde de la Mole, e sim a marechala de Fervacques, assim Mathilde, seguindo o desejo de sua rival, acabaria apaixonando-se por Julien. Em outras palavras, ou traduzindo mimeticamente o jogo de sedução: Julien desperta o interesse amoroso da rival de Mathilde, a marechala de Fervacques, e desta forma sugere a Mathilde que imite o desejo de sua rival, a marechala de Fervacques, e o deseje.

Para Girard, o triângulo entre sujeito, mediador e objeto reaparece quando Stendhal fala de vaidade. Para um vaidoso desejar um objeto, é suficiente convencê-lo de que esse objeto já é desejado por um terceiro, que o vaidoso considere, e a quem o vaidoso agregue prestígio. Neste caso, o mediador é um rival suscitado pela vaidade. Na maioria dos desejos stendhalianos, Girard percebe que o próprio mediador deseja o objeto, ou poderia desejá-lo, e o desejo do mediador, real ou presumível, se torna um objeto desejável para o sujeito. Nas palavras de Girard, “A mediação gerou um segundo desejo inteiramente idêntico ao do mediador” (Girard, 2009, pág. 31).

Até aqui mencionamos duas intuições importantes de Girard: 1) O desejo humano tem um caráter fundamentalmente mimético; e 2) O mecanismo do bode expiatório é uma solução encontrada para promover o retorno da ordem social em vias de desagregar-se devido aos efeitos das rivalidades entre sujeitos e seus modelos em que todos canalizam a violência para um mesmo membro do grupo que é inocente do que está sendo acusado.

Das mediações e suas distâncias

A distância que separa o mediador do sujeito desejante foi investigada por Girard a partir das distinções entre mediação interna e externa. No romance de Cervantes, Dom Quixote e Amadis de Gaula não podem manter contato, por serem de épocas diferentes. Em Madame Bovary, de Flaubert, Emma Bovary recebe através de livros e da imprensa as últimas modas lançadas em Paris, que chegam até Yonville. Mas, mesmo participando do baile na casa dos Vaubyessard, conhecendo o ambiente de seus modelos, Emma não vai conseguir desejar o que eles desejam, competir com eles ou conhecer Paris.

Julien Sorel, personagem de O Vermelho e o Negro, de Stendhal, segundo Girard, começa a história distante de seu mediador. No entanto, Julien supera essa distância, abandona sua província, torna-se amante de Mathilde e sobe de posição. Girard observa que entre as personagens de Stendhal, a proximidade do mediador é significativa e se repete com vários heróis. O universo de Stendhal, segundo Girard, se diferencia pela proximidade entre sujeitos e mediadores, uma proximidade que pode acarretar mais conflitos. Nos romances de Cervantes e de Flaubert, o mediador ficava fora do universo do herói, e nos romances stendhalianos, o mediador situa-se no interior desse universo.

Girard retoma a distinção entre mediação interna e mediação externa e define como mediação externa os casos em que a distância é suficiente para que mediador e sujeito não estejam em contato. Na mediação interna, a distância está reduzida e mediador e sujeito afetam um ao outro. Girard esclarece ainda que “a distância entre o mediador e o sujeito é primeiramente espiritual.” (Girard, 2009, p. 33) e não é o espaço físico que mede a distância entre o sujeito desejante e o mediador.

O herói da mediação externa revela oralmente a verdadeira natureza de seu desejo, venera seu modelo abertamente e declara-se discípulo dele. Dom Quixote explica para Sancho o papel importante que Amadis possui em sua vida. Emma Bovary confessa a verdade de seus desejos em confidências. Já nos romances de Stendhal, o herói da mediação interna não se vangloria de seu projeto de imitação, mas, pelo contrário, dissimula esse projeto. Primeiro, o discípulo fica fascinado por seu modelo, e vê no obstáculo imposto pelo modelo uma prova de uma vontade perversa direcionada a ele. Ao invés de declarar-se um vassalo fiel, o discípulo pensa em repudiar os laços da mediação. Mas os laços que o discípulo quer repudiar estão bastante firmes, pois a hostilidade aparente do mediador aumenta ainda mais seu prestígio. O sujeito reage pensando que seu modelo se julga superior a ele para aceitá-lo como discípulo e perde-se em um sentimento dilacerante que mistura veneração submissa ao mestre com um secreto rancor.

Girard reflete sobre o ódio de forma esclarecedora. Aquele que impede a satisfação de um desejo que ele próprio despertou torna-se objeto de ódio. Quem odeia, segundo Girard, “odeia primeiramente a si mesmo em razão da admiração secreta que seu ódio encobre” (Girard, 2009, p. 34). Para tentar esconder dos outros e de si mesmo a profunda admiração que o sujeito nutre por seu mediador, o sujeito enxerga em seu mediador um obstáculo. Durante a disputa com seu mediador e rival, o sujeito

inverte a ordem lógica e cronológica dos desejos com o fim de dissimular sua imitação. Ele afirma que seu próprio desejo é anterior ao de seu rival; logo, se lhe dermos ouvidos, ele nunca é o responsável pela rivalidade: é o mediador (…) O mediador é agora um inimigo sutil e diabólico, procura despojar o sujeito de suas mais caras posses, contrapõe-se obstinadamente a suas mais legítimas ambições. (Girard, 2009, pág. 35)

Para Girard, o ressentimento nos impede de perceber o papel desempenhado pela imitação na gênese do desejo. Assumir a filiação de nosso desejo com os desejos de um Outro, nosso mediador, que escolhemos como modelo e de quem imitamos os desejos fere nosso orgulho e a antiga crença de possuirmos um desejo original e independente de fatores externos ou de outras pessoas. O ciúme, a inveja, o ódio, são, para Girard, nomes tradicionais dados à mediação interna que por vezes escondem o caráter mimético do desejo e as rivalidades inerentes à sua dinâmica triangular. Girard observa que o ciúme possui um elemento de fascínio para com um rival insolente. A personalidade do ciumento sugere uma propensão irresistível em desejar o que os Outros desejam, em imitar seus desejos.

A inveja é investigada por Girard a partir do objeto da rivalidade, e o mediador, o rival passa a ser o ponto de chegada e de partida da análise. Ao mesmo tempo em que o sujeito gostaria de acreditar ser vítima de uma injustiça, ele se pergunta se a condenação que pesa sobre ele não é justificada. A rivalidade exaspera a mediação; aumenta o prestígio do mediador e reforça o vínculo que une o objeto a esse mediador, forçando-o a afirmar seu direito ou desejo de posse. O sujeito torna-se menos capaz de se desviar do objeto inacessível, pois o mediador transfere prestígio a esse objeto, possuindo-o ou desejando possuí-lo (Girard, op.cit.).

René Girard dá destaque aos romancistas ocidentais em seu primeiro livro. Ao encontrar semelhanças entre vários autores ocidentais que abordavam a mediação e que ele chamou de romanescos, o autor concluiu que o desejo humano era fundamentalmente imitativo. Girard afirma: “Só os romancistas devolvem ao mediador o lugar usurpado pelo objeto; só os romancistas invertem a hierarquia do desejo habitualmente aceita” (Girard, 2009, p. 38). Ainda sobre os romancistas, escreve Girard: “Somente os romancistas revelam a natureza imitativa do desejo” (Girard, 2009, p.38).

Para a mentalidade romântica de um sujeito vaidoso, não interessa ser discípulo de ninguém, e sim ser original e espontâneo. O vaidoso de Stendhal quer disfarçar o papel desempenhado pelo Outro em seus desejos e recorre aos estereótipos da ideologia prevalecente. A devoção, o altruísmo meloso, o engajamento hipócrita das damas de 1830 de Stendhal revelam a ausência de um espírito doador e generoso, disponível, e revelam assim um recurso ligado à vaidade. Girard descortina um dos procedimentos da ironia stendhaliana: além de deixar falar as personagens, o autor revela o mediador. A verdadeira hierarquia do desejo é estabelecida ao mesmo tempo que o romancista simula dar crédito às possíveis razões que sua personagem apresenta parar conferir credibilidade à hierarquia contrária. O vaidoso romântico quer acreditar que seu desejo está inscrito na ordem natural das coisas, ou que ele é a emanação de uma subjetividade serena. Mas o desejo não é visto como espontâneo por Girard, o homem moderno estaria apegado a uma ilusão de autonomia a respeito de seu próprio desejo, uma versão que exclui a existência do mediador, diferente dos romances de escritores romanescos.

Girard esclarece que devemos reservar o termo romântico para as obras que apenas refletem a presença do mediador sem revelá-la e o termo romanesco para as obras que revelam e problematizam a presença do mediador. Mentira Romântica e Verdade Romanesca, nas palavras de Girard, dedica-se à presença da verdade romanesca.

Literatura e conhecimento

Há dois pontos significativos suscitados com a leitura de Mentira Romântica e Verdade Romanesca que merecem comentário. Primeiro, o tema da literatura como campo de conhecimento das dinâmicas sociais humanas; o diálogo girardiano com a teoria literária buscando investigar a mediação e a violência nas narrativas modernas. Em segundo lugar, o tema da conversão, da consciência e da atitude ética sobre o próprio desejo a partir da leitura de Girard.

O fato de Girard ter partido da leitura dos romances de escritores variados para chegar a uma conclusão sobre o desejo humano estar circunscrito a uma dimensão que implica no mínimo duas pessoas (sujeito e mediador/objeto) é bastante pertinente por seus desdobramentos sobre a violência humana. Girard descortinou, do esforço que os escritores empregaram para descrever os conflitos humanos em suas histórias, uma teoria de grande amplitude. A teoria mimética sobre o desejo abarca desde os comportamentos das sociedades de hominídeos (articulados em A Violência e o Sagrado) e até comportamentos políticos de governantes nas guerras modernas (discutidos em Rematar Clausewitz). Partindo do campo da literatura, da leitura de romances modernos, em Mentira Romântica e Verdade Romanesca, Girard aprimorou uma intuição sobre o comportamento humano que articulou com os domínios da literatura, da antropologia e da historia (em A Violência e o Sagrado), com os domínios da história e da geopolítica (em Rematar Clausewitz) e da religião (em Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo e em Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago). Essa forma de desenvolver sua teoria é interdisciplinar e abriu uma nova perspectiva para os estudos literários. Foi na literatura que os escritores chamados por Girard de romanescos, um pouco como cientistas sociais, perceberam e esmiuçaram os processos entre sujeitos e mediadores e objetos, que na visão girardiana estão ligados às bases dos conflitos humanos. Sob esse prisma, novos estudos literários ligados à mediação podem ser realizados, seguindo o olhar de Girard para as relações humanas e sua ligação com a violência.

Em Mentira Romântica e Verdade Romanesca, as leituras girardianas de romances modernos enfocam a mediação, as relações triangulares entre sujeito, mediador e objeto. A existência da mediação interna ou externa é observada, bem como a dinâmica entre os personagens e as influências que sofrem e infligem uns nos outros. Girard afirma sobre a mediação:

A ideia da mediação instiga às aproximações num nível que não é mais o da crítica “de gênero”. Ela elucida as obras umas pelas outras, elas as compreende sem destruí-las, ela as une sem desconsiderar sua irredutível singularidade. (Girard, 2009, p.46)

A leitura que René Girard faz dos romances ocidentais está intrinsecamente relacionada às questões referentes à mediação, à existência de um triângulo mimético e às dinâmicas derivadas dessa relação triangular. O enfoque literário de Girard une a literatura com o problema do desejo mimético e com o problema da violência, suscitando diversos desdobramentos. A literatura, ao ser lida com “os óculos da mediação” pode tornar-se um terreno fértil para discussões sobre relações interpessoais e relações políticas articuladas com a violência e formas de controle da violência. A percepção do alcance da literatura como ciência humana é provocada com as descobertas girardianas, que reforçam o poder da literatura de investigar a realidade social no campo literário, com ferramentas (históricas, antropológicas, filosóficas e) literárias. O percurso da análise literária feito por Girard aborda as questões da mediação, observando a eclosão de conflitos entre sujeitos e modelos e as formas de controle da violência articuladas pelos seres humanos nas primeiras formas de organização social e pelos escritores em seus romances.

A partir de Girard e da corrente de reflexão sobre o desejo mimético, desenvolvida desde os gregos, descobrimos que nosso desejo não é original e autossufuciente e sim imitativo. Investigar as consequências do desejo mimético leva à consciência sobre o caráter imitativo de nosso próprio desejo e as nossas ações. A partir dessa consciência podemos tentar evitar conflitos diretos com nossos modelos e evitar uma postura reativa, pois desconfiaremos da pureza e originalidade do que desejamos e perceberemos cada vez mais a influência dos outros nesse processo. Esta seria a conversão produzida pelo conhecimento da teoria girardiana.

Ainda no primeiro capítulo, Girard intensifica sua discussão sobre as relações humanas, ao abordar a distância entre mediador e sujeito desejante afirmando: “Quanto mais o mediador se aproximar do sujeito desejante, mais as possibilidades dos dois rivais tendem a se confundir e mais o obstáculo que eles opõem um ao outro se torna intransponível.” (Girard, 2009, p.49)

Assim, a obra romanesca é vista por Girard como um espaço onde a superação do ideal romântico se cumpre. Superar o ideal romântico significaria superar a visão de mundo que acredita que possuímos desejos puros e originais sem relação nenhuma com os desejos das pessoas que nos rodeiam, nossos mediadores. Superar o romântico significa reconhecer que possuímos um desejo imitativo, e que estamos sujeitos a cair nas redes dos conflitos mais violentos por desejar o que nossos mediadores desejam e disputar com eles, por vezes a ponto de esquecermos a existência próprio objeto. Podemos, por nossa própria conta, tornarmo-nos violentos a ponto de condenar inocentes, eleger bodes expiatórios e culpar outros pelos desejos que criamos a partir dos desejos desses mesmos outros, iludidos quanto à suposta originalidade do que desejamos.

Para Girard, o gênero romanesco atinge seu apogeu com Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, escritor que defende que sua obra era uma revolução espiritual e moral antes de ser uma revolução estética. A literatura que enfoca a mediação problematiza as relações humanas a partir das relações triangulares entre sujeitos, mediadores e objetos. Essa literatura romanesca situa-se em uma posição que permite uma visão nova. A consciência dos escritores romanescos está sensibilizada para reconhecer os desejos de seus personagens. Os desejos dos personagens romanescos podem criar competições por terem sido imitações de desejos de seus mediadores. Enquanto o escritor romântico culpa a família pelas dificuldades amorosas que seu herói enfrenta com sua parceira, o escritor romanesco sabe que no mundo interior de seu herói flutuam desejos, orbitando em uma cadeia perigosa de espelhamentos e sentimentos muito altos como a admiração e muito baixos com a inveja e o ciúme.

Em Mentira Romântica e Verdade Romanesca, Girard relaciona a ação de “redescobrir o tempo”, mote do romance de Proust com o ato de acolher uma verdade evitada por muitos homens ao longo da vida. Redescobrir o tempo, em Girard, significa reconhecer que sempre copiamos os Outros, buscando parecer originais para eles e para nós mesmos. Girard conclui essa passagem dizendo “Redescobrir o tempo é abolir um pouco de seu orgulho.” (Girard, 2009, p.61)

Na sequência, em Mentira Romântica e Verdade Romanesca, Girard traz o escritor Dostoiévski à cena, afirmando que o autor russo alcançará o estágio supremo da mediação interna, pois, em sua obra, nem o amor existe sem ciúme, nem a amizade existe sem inveja. Em Dostoievski, o ódio é intenso e acaba “explodindo” e revelando o duplo papel que o mediador desempenha de modelo e obstáculo na relação com o sujeito desejante. Os heróis de Dostoiévski vivenciam sentimentos “contraditórios” violentos que escapam de seu controle. Stendhal, segundo Girard, enfoca a vida pública e política minada pelo desejo de empréstimo. Em Proust, a vida privada é atingida por esse mal, com exceção, geralmente, do círculo familiar. Em Dostoiévski, esse círculo familiar está contaminado.

No segundo capítulo de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, denominado “Os homens serão deuses uns para os outros”, René Girard afirma “O objeto constitui-se apenas num meio de alcançar o mediador. É o ser desse mediador que o desejo almeja.” (Girard, 2009, p. 77). Girard afirma que os heróis de Dostoiévski e os heróis de Proust “sonham em absorver, em assimilar o ser do mediador” (Girard, 2009, p.79). Seguindo o raciocínio sobre o sujeito desejar o ser do mediador, Girard chega a conclusão de que esse sujeito não está satisfeito consigo mesmo, e abdica de seu poder de ser ele mesmo para ser um Outro:

Todos os heróis abdicam de sua prerrogativa individual mais fundamental, a de desejar segundo a sua própria escolha; não podemos atribuir esse abandono unânime às qualidades desses heróis, pois são sempre diferentes. Temos que procurar uma causa universal. Todos os heróis de romance se detestam a si mesmos em um nível mais essencial do que o das “qualidades.” (Girard, 2009, p.79)

Em seguida, Girard começa a discutir o sentimento negativo que o herói do romance possui contra si mesmo. O herói se volta para um Outro, que diferentemente do herói, parece usufruir da herança divina. E, nesse momento, Girard menciona o cristianismo:

(…) o cristianismo orienta a existência em direção a um ponto de fuga, seja rumo a Deus, seja rumo ao Outro. Escolher nunca passará de escolher um modelo para si e a liberdade verdadeira está localizada na alternativa fundamental entre modelo humano e modelo divino. (Girard, 2009, p.83)

Os preceitos cristãos sobre amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo parecem caminhar na direção oposta da rivalidade mimética, pois contrapõem-se ao espelhamento problemático no mediador quando entra em rivalidade com seu modelo. Não é preciso converter-se ao cristianismo para refletir sobre os estragos e desastres da mediação interna em nossas vidas particulares, ou em nossos bairros, cidades, países e até em escala mundial e procurar evitar conflitos diretos com nossos mediadores e refletir sobre os movimentos de nossos próprios desejos.

Destacando o campo da literatura como um espaço para reflexões sobre a condição humana e enfocando desejos miméticos como a base de nosso comportamento violento e também do controle desse comportamento, Girard inicia um extenso debate com Mentira Romântica e Verdade Romanesca, convocando seus leitores e leitoras a percorrer um longo caminho que suscita reflexões acerca de nossas ações individuais recentes e nossos conflitos mundiais, despertando assim nossa consciência para as tramas da mediação.

Referências bibliográficas

GIRARD, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações Editora, 2009.

ROCHA, João Cezar de Castro. Culturas shakespearianas?: Teoria mimética y América Latina. México: Sistema Universitario Jesuita: Fideicomiso Fernando Bustos Barrena, 2014.

NOTAS


  1. No decorrer de sua vida, Girard testemunhou a possibilidade de extinção da raça humana, ameaçada de destruição pela Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, pela Guerra do Vietnã, e deparou-se também com a ameaça dos armamentos nucleares que espelham a rivalidade mimética em nível global. Rematar Clausewitz (2007) analisa a violência humana em escala mundial e, no contexto da produção girardiana, funciona como um ponto de remate de suas ideias.
  2. Segundo João Cezar de Castro Rocha, “A intuição fundadora do pensamento girardiano é o desejo mimético ou, como Girard posteriormente diria, a rivalidade mimética.” (ROCHA, op. cit., p.47) Em síntese, nós desejamos de modo dependente de nosso grupo social, e não de forma independente, ou a partir de uma subjetividade autossuficiente. Pautamos nossos desejos no que desejam pessoas que admiramos, eleitas como nossos modelos, e nos envolvemos em disputas e rivalidades com essas pessoas, por imitarmos seus desejos e competirmos pelos mesmos objetos.
  3. Em oposição, o herói romanesco é tomado por sentimentos tanto nobres quanto baixos, advindos de suas relações com seus mediadores e com os objetos de desejo que os mediadores possuem, como será explicado em seguida.

O desafio da mímesis

Para a estreia deste blog, o professor João Cezar de Castro Rocha cedeu o prefácio de seu mais novo livro, que será publicado na França em fins de março. Honrados e agradecidos pela possibilidade de começar tão bem, e seguindo o modelo de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, abdicamos de grandes preâmbulos e deixamos as explicações para o próximo post.

O desafio da mímesis: culturas shakespearianas, poética da emulação e teoria mimética

por João Cezar de Castro Rocha
(Tradução de Pedro Sette-Câmara)

Por um olhar cubista: cruzamentos de teorias

João Cezar de Castro Rocha

João Cezar de Castro Rocha

A maneira mais eficaz de apresentar o projeto que estrutura este livro é estabelecer laços entre diversas exposições de arte, todas observáveis sob o prisma da teoria mimética desenvolvida por René Girard1, que me parece estar no cruzamento do conceito de culturas shakespearianas e do quadro teórico da poética da emulação, que submeterei à sua consideração — caro leitor, cara leitora.

Em 2002, aconteceu a exposição Matisse Picasso2. As complexas relações entre os dois artistas parecem ter sido feitas sob medida para deixar transparecer as afinidades eletivas entre a teoria mimética e um conjunto de procedimentos estéticos e intelectuais que proponho denominar poética da emulação, e que caracteriza a força das culturas shakespearianas: em outras palavras, culturas que só podem definir-se pelo olhar do outro.3

Nas palavras de John Golding: “Esta exposição nos conta uma das histórias mais fascinantes e interessantes de toda a história da arte.”4

O que é bem verdade.

Verdade na medida em que o episódio evidencia o circuito que, seja abertamente ou de maneira mais subterrânea, orientou a concepção de arte na cultura ocidental. Desejo aqui falar do par formado pelas técnicas da imitatio e da aemulatio, particularmente importante na época do período latino, diante do desafio que representava a assimilação das obras da cultura grega e da herança helenística. De fato, a cultura latina, a fim de melhor assegurar seu domínio político, mas também cultural e linguístico, não teve outra escolha senão inventar maneiras criativas de assimilar a força das artes e do pensamento gregos. Eis como emergem afinidades profundas, e eis um princípio de base que define as estratégias das culturas latino-americanas, pois todas se desenvolveram inventando maneiras de apropriar-se do Outro, o qual, ao menos num primeiro momento, impôs-se a elas violentamente. Nem que seja pela língua de expressão!

Nesse registro estético e intelectual, o que está em prmeiro plano é a triangularidade do desejo mimético, da maneira como foi proposta por René Girard em Mentira romântica e verdade romanesca (1961), e pela qual ele observou como se acentua o potencial de violência contido no impulso mimético. O desafio da mímesis define o núcleo que constitui as culturas latino-americanas ou, de modo mais geral, as culturas shakespearianas.5

Recordo, muito sucintamente, a dinâmica do desejo mimético, ponto de partida da teorização do pensador francês. O desejo humano, enuncia Girard, é o fruto da presença de um mediador. Não desejamos de maneira direta, mas indireta, e o alvo fixado por nosso desejo é menos determinado por nós mesmos do que pelas redes que se tramam através das mediações que nos afetam. O desejo implica mediações entre o sujeito, o objeto e sobretudo o mediador, que não é outro senão o modelo adotado para a definição do desejo, o qual depende sempre de uma relação de triangularidade. Como Girard especificou: “A metáfora espacial que expressa essa tripla relação é obviamente o triângulo.”6

Nesse ponto, o estudo das mediações é decisivo, porque o sujeito tenderá a disputar com seu modelo a posse do objeto que suscitou-lhe o desejo — daí a dimensão conflituosa que deriva do circuito mimético.

É exatamente isso, você percebeu muito bem aonde pretendo chegar: as nações latino-americanas, os países não-hegemônicos, também foram moldados, em toda a complexidade de seu afastamento identitário, por relações triangulares complexas, e suas culturas sempre dependeram fortissimamente de modelos para sua autodeterminação. Ao mesmo tempo, a questão é refletir sobre os efeitos de retorno que caracterizam essa situação. De fato, é sempre importante traçar um caminho de duplo sentido, observando como sujeito e modelo são ambos transformados por suas inter-relações. Frank Lestringant construiu um paradigma que constitui uma contribuição preciosa dentro do quadro de nossa argumentação: “Com ‘Os canibais’, Montaigne inventa aquilo que Michel de Certeau denominou “heterologia”, isso é, um discurso do outro, que é ao mesmo tempo discurso sobre o outro e discurso onde o outro fala.” 7 É preciso insistir neste ponto: um discurso onde o outro fala. Melhor ainda: um lugar de enunciação onde o outro, longe de falar no vazio, é ouvido como se deve. A escuta: o inverso do exotismo. Seguramente, eis um caso teórico de grande interesse. Inclusive para todos aqueles que pouco se interessam pela América Latina — eu quase diria: principalmente para essas pessoas!

Consideremos portanto com mais atenção os pressupostos girardianos. O autor de Teatro da Inveja ressaltou duas formas de mediação:

Falaremos de mediação externa quando a distância é suficiente para que as duas esferas de possíveis, cujo centro está ocupado cada qual pelo mediador e pelo sujeito, não estejam em contato. Falaremos de me- diação interna quando essa mesma distância está suficientemente reduzida para que as duas esferas penetrem com maior ou menor profundidade uma na outra.8

A mediação interna é o lugar dos conflitos potenciais, em razão da proximidade entre sujeito e modelo. Isso também é verdade no plano estético. O esquema pode ser descrito da seguinte maneira: um novo artista (sujeito), a fim de produzir sua obra (objeto), tem necessidade de aguçar sua compreensão, seja da tradição como um todo, seja de um artista determinado, em geral um contemporâneo já consagrado; numa palavra, um modelo. E, assim como o desejo mimético engendra rivalidades, e até mesmo uma escalada da violência física9, a rivalidade artística e intelectual igualmente alimenta uma forte violência — simbólica, é claro; e todos aqueles que conhecem um pouco o circuito das artes ou o mundo acadêmico têm consciência disso.

Não surpreende então descobrir, no que diz respeito a Picasso e a Matisse, que “os dois homens tinham virado, um para o outro, os mais importantes pontos fixos em suas respectivas vidas artísticas.10 Em março de 1906, os dois pintores se encontraram pela primeira vez. Com 37 anos, Matisse já era um ”chefe de escola“. Picasso, doze anos mais novo, ainda não era visto como um mestre. Naturalmente, em seu primeiro cara a cara, o espanhol ouviu avidamente as lições do francês. Mas, muito rapidamente, no próprio ano seguinte, Picasso iria reinventar sua arte, produzindo “Les demoiselles d’Avignon” — e, ao fazer isso, iria reinventar a ideia mesma de pintura. O impacto dessa tela é bastante conhecido. Mas convém ressaltar que, a partir deste momento, Matisse começou a observar o trabalho de seu colega com atenção redobrada. Instaurou-se uma tensão produtiva, como Picasso mais tarde recordou: ”É preciso imaginar lado a lado tudo aquilo que Matisse e eu estávamos fazendo naquela época. Ninguém jamais observou as pinturas de Matisse com o mesmo cuidado que eu; e ninguém observou os meus com maior cuidado do que ele” (p. 13).

Não seria portanto excessivo supor que um dos capítulos decisivos da história da arte moderna foi escrito em pinceladas miméticas.

Uma segunda exposição esclareceu essa noção, abrangendo a obra inteira do pintor espanhol. Refiro-me a Picasso e os mestres, organizada em 200811. Outra vez, o pintor tinha plena consciência do processo de criação: “Somos nós, pintores, os verdadeiros herdeiros, aqueles que continuam a pintar. Somos os herdeiros de Rembrandt, de Velázquez, de Cézanne, de Matisse. Todo pintor sempre tem pai e mãe, ele não sai do nada…” 12

No fundo, não é por acaso que abordamos essa questão considerando a pintura. No coração do século XIX, mesmo após a eclosão do romantismo — movimento que afastou-se dos modelos retóricos e também da centralidade da imitatio e da aemulatio na prática artística —, a técnica que consistia em copiar as obras-primas da tradição continuou sendo utilizada nas escolas de pintura, a fim de permitir a apropriação dos modelos, etapa indispensável a toda invenção. Trata-se ademais de um tipo de aprendizado formal que Picasso conheceu muito bem em sua cidade natal de Málaga, e este ponto é decisivo: Málaga, uma cidade periférica por excelência.

Marie-Laure Bernadac resumiu bem as práticas do pintor:

Sua relação com os pintores do passado tem mais a ver com o canibalismo, com a iconofagia, do que com o pastiche e a paráfrase. Não se trata unicamente de uma relação entre um quadro e outro, mas de um diálogo de pintor para pintor, de uma verdadeira identificação, quase afetiva, com os artistas que ele admira e que formam seu panteão artístico.13

No quadro dessa exposição, um ângulo temático foi dedicado à obsessão de Picasso por “Le Déjeuner sur l’herbe”, a famosa tela de Manet 14 apresentada em 1863 no Salon dos Recusados, e cujo sucesso, com odores de escândalo, logo propagou-se.

Em 1932, por ocasião de uma retrospectiva da obra de Manet, Picasso tinha observado “Le Déjeuner sur l’herbe” como um desafio. Pouco mais de duas décadas depois, em 1954, ele tentou pela primeira vez apropriar-se dessa tela, por meio de rascunhos e de desenhs que dialogam antes de tudo com a distribuição de volumes na composição de Manet. Os trabalhos de Picasso levaram a uma concentração notável de efeitos: “Picasso domina a obra de Manet: a composição, os atores, sua relação, que ele já fez evoluir Ele copia e interpreta ao mesmo tempo.15

(Mestre consumado, Picasso inventou uma forma de concentração que reuniu, num único traço, os atos de imitatio e de aemulatio!)

Após calejar-se com desenhos e rascunhos, o pintor espanhol finalmente recriou a tela de Manet em uma de suas próprias pinturas, datada de 1960 — e essa foi apenas a primeira, porque ele repetiria o gesto diversas vezes. Enfim, em 1962, Picasso produziu maquetes a partir dos personagens do quadro de Manet, apropriando-se dos volumes na tela para fazer deles projeções ideais no espaço. Em seguida, partindo desse trabalho, Carl Nesjar iria criar esculturas que hoje estão expostas, lado a lado, no Moderna Museet, em Estocolmo. Do quadro de Manet à obsessão de Picasso, a materialidade das grandes esculturas de concreto vem fechar o círculo.

Tudo isso sem nem sequer mencionar o fato de que Manet, por sua vez, tinha concebido seu quadro-manifesto revisitando a obra de Ticiano e a gravura de Marcantonio Raimondi. E, como se isso não bastasse, Raimondi tinha-se inspirado num quadro de Raphaëll… Decididamente, o circuito mimético tem muitas reviravoltas, “no exercício do copiador copiado”.16

Evidentemente, estamos muito longe da ideia de um “fardo do passado” de W. Jackson Bate17, ou da noção de “angústia da influência”, de Harold Bloom18. Pelo contrário, num diálogo com os pressupostos da teoria mimética, a poética da emulação permite conceber uma “produtividade da influência”; nesse sentido, a tradição, mais do que um peso, aparece como um ponto de partida inevitável.

Como no universo da ars combinatoria: a existência de regras é a condição da liberdade.

Como no jazz: a improvisação passa por uma disciplina rigorosa.

Ou muito simplesmente: como para a técnica da imitatio, que sem parar chama o gesto posterior da aemulatio.19

Turner, Picasso: um lugar particular de enunciação

Outra exposição ajuda a aprofundar ainda mais minha perspectiva, no quadro de uma reflexão estética que vou relacionar muito particularmente às circunstâncias latino-americanas.

Penso aqui na exposição Turner and the Masters20, organizada em 2009, e cujo título, por si só, coloca em evidência o recurso a procedimentos miméticos — no século XIX inglês, assim como no século XX parisiense.

Exatamente como no caso de Picasso, a carreira de Turner consistiu numa série de apropriações de grandes obras, incentivadas por uma rivalidade constante com seus contemporâneos: a técnica da imitatio e da aemulatio serviu-lhe de regra e compasso para construir sua obra.

David Solkin, aliás, fez essa perspicaz observação, que revela todo o ethos do pintor: “Ao fim da década de 1790, sua reputação de prodígio da aquarela estava começando a ser eclipsada pela estrela nascente de seu bom amigo Thomas Girtin… Infelizmente, a morte prematura do rival em 1802 pôs um fim a essa produtiva competição antes que ela tivesse realmente começado.” 21

Mesmo assim, esse grave contratempo não foi suficiente para atenuar a centralidade da emulação na prática artística de Turner. Pelo contrário: a emulação guiou sua compreensão do sistema das artes, e sobretudo sua visão da obra de Claude Gellée, conhecido como o Loreno, pintor francês do século XVII.

Trata-se de um tema delicado… De fato, para o grande público, a grande marca do estilo de Turner é a intensidade da luz, que parece irradiar da tela para o espectador; contudo, a principal contribuição do Loreno à história da arte foi precisamente o desenvolvimento de uma técnica capaz de “criar uma imagética integrada, que se dirige ao mesmo tempo ao olho e à mente”22.

A atitude de Turner de fato consistiu em “compreender os procedimentos mentais e artísticos de Claude, a fim de não simplesmente duplicá-los no plano formal, mas também de assimilar e de modernizar os ideais clássicos”23. Eis um aspecto fundamental que esclarece como a rivalidade mimética pode levar a uma grande fecundidade artística. Igualmente, a adoção de modelos, longe de condenar o escritor a um papel de imitador estéril, aciona toda a força da emulação.

(Será necessário recordar o laço estrutural entre o quadro teórico e as circunstâncias propriamente latino-americanas? Situar-se no cruzamento dessa zona geográfica e desse quadro histórico: eis a aposta e o grande eixo deste livro.)

Obcecado por esse paralelo com o pintor francês, Turner deixou ao governo britânico uma herança peculiar: duas telas do Loreno, e duas telas próprias, para que fossem expostas na National Gallery. A única condição imposta por Turner foi que as obras de Claude, “Paisagem com o casamento de Isaac e Rebeca” (1648) e “Porto com o embarque da rainha de Sabá” (1648), fossem expostas lado a lado a seus quadros “Nascer do Sol através da névoa” (1807) e “Dido construindo Cartago” (1815).

Turner desejava colocar em evidência seu diálogo com o Loreno, e ao mesmo tempo mostrar como ele soube tirar partido dessa emulação. Notemos que a complexidade dessa relação artística deu lugar, em 2012, a uma nova exposição: Turner Inspired: In the Light of Claude [Turner inspirado: À luz de Claude] 24. E ressaltemos toda a sutileza do título, que brinca maravilhosamente com a dinâmica entre imitatio e aemulatio. A primeira parte do título, Turner Inspired, poderia remeter a um ingênuo ressurgimento da figura do criador-demiurgo, caro aos românticos, e deixaria pensar que a força das pinturas viria única e exclusivamente dos talento natural de Turner. Mas a segunda parte — In the Light of Claude — esclarece o papel decisivo da poética da emulação na obra de Turner. É aqui que se abre um novo horizonte, para o qual convergem, num luminoso ponto de fuga, as culturas fundadas pelas circunstâncias não-hegemônicas.

Essa intuição merece ser aprofundada.

E, imediatamente, duas observações impõem-se.

Picasso et les maîtres.

Ou: Turner and the Masters.

As duas exposições possuem exatamente o mesmo título e uma orientação semelhantes, sugerindo uma afinidade estrutural que permite estabelecer laços entre o pensamento girardiano e a reflexão estética.

Deve-se ainda sublinhar um aspecto decisivo: numa certa medida, se Turner concedeu uma importância tão central à emulação, talvez tenha sido porque, no sistema europeu das artes, a pintura britânica jamais tenha ocupado uma posição canônica; o que equivale a dizer que Turner, nesse contexto, era um pintor não-hegemônico! Daí talvez a necessidade urgente de confrontar-se com os modelos centrais de sua época: as tradições pictóricas italiana, holandesa e francesa.

Não teve Picasso uma trajetória similar? Originário de Malaga, no coração da periferia, ele inicialmente instalou-se em Madrid, periferia na Europa mas centro da Espanha, antes de fixar-se em Paris, centro por antonomásia. Eis aí um movimento entre dois extremos, entre a alteridade e a identidade, que define as culturas shakespearianas.

Mas isso não é tudo: outra exposição, realizada em 2009, aprofundou essa perspectiva. Penso em *Tiziano, Tintoretto, Veronese: rivalidades na Veneza renascentista”25. Eis as reveladoras palavras do curador da exposição:

O Cinquecento, ou século XVI, foi uma época de rivalidade artística em Veneza. Os melhores pintores prosperavam nesse contexto de ambição, de pressão e de inveja. A história da época está repleta de anedotas e de gracejos que deixam claro que os pintores, seus patronos e suas plateias entendiam todos que a competição, e uma florescente demanda por quadros, com frequência trazia à tona o melhor nos artistas, fazendo de Veneza um centro não apenas de comércio, mas também de pintura.[^Frederick Illchman. “Venetian Painting in the Age of Rivals”. Frederick Ilchman. Titian, Tintoretto, Veronese: Rivals in Renaissance Venice. Boston: Museum of Fine Arts, 2009, 21.

Essa passagem ilustra o aspecto potencialmente positivo do desafio mimético: Veneza tornou-se o teatro de um sólido sistema interno de emulação, muitos séculos antes do duelo Matisse Picasso.

Mas isso não é tudo…

O século XVI italiano colocou em cena uma polêmica entre as escolas romana e veneziana, mais precisamente entre a preferência por um desenho meticuloso e uma relativa autonomia da cor na composição: numa palavra, a disputa que tinha contraposto Rafael e Tiziano. Uma emulação de ponta-cabeça, sem dúvida, porque as direções tomadas pelos artistas eram opostas, mas que mesmo assim suscitaram uma feroz competição.

A referência à rivalidade entre escolas italianas permite introduzir agora um nome-chave para o aprofundamento do quadro teórico da poética da emulação: El Greco. Aliás, o nome dado ao cretense Domenikos Theotokopoulos constitui, involuntariamente, uma metonímia de sua trajetória.

À época, Creta era uma colônia de Veneza. Muito naturalmente, El Greco foi então para a metrópole para ampliar o horizonte de sua arte. Verdadeiro “wheeling stranger of here and everywhere”, “um estrangeiro andejo e desgarrado / daqui e de toda parte”26, ele só ficou nessa cidade o tempo necessário para dominar o novo estilo veneziano. Roma foi em seguida, durante quase cinco anos, o novo pouso do cretense. Outra vez, ele se enriqueceu das técnicas da escola de Rafael, ao mesmo tempo em que permanecia apegado a elementos da tradução bizantina, e também à pintura veneziana.

Fiel à sua vocação de viajante, que lhe permitiu desenvolver uma capacidade onívora de assimilar diferentes práticas artísticas e estéticas, El Greco também passou algum tempo em Madrid, antes de finalmente fixar-se em Toledo.

Toledo, lugar simbólico, teatro da primeira verdadeira experiência multicultural da civilização europeia, cujo emblema continua a ser “a escola dos tradutores de Toledo”. Nos séculos XX e XIII, sábios árabes, judeus e cristãos realizaram juntos trabalhos exemplares de tradução e de retradução trilíngue. Assim, o legado da cultura grega clássica pôde ser preservado, oferecendo um terreno favorável aos desenvolvimentos do repertório humanista europeu. Toledo assim assumiu então a dimensão de cidade-ponte entre as tradições culturais do Oriente e do Ocidente.

El Greco portanto não teria podido imaginar um lugar mais apropriado para terminar sua vida e criar alguns de seus quadros mais celebrados: a cidade de Toleto e ele próprio, rico de todas as influências que havia recebido desde o início de sua carreira, não eram enfim mais do que os dois lados da mesma moeda.

Eis o que diz a respeito John H. Elliot:

O mundo mediterrâneo do século XVI — o mundo de El Greco — era um mundo em que três civilizações coexistiam, interagiam e se enfrentavam: o Ocidente latino, o Oriente grego ortodoxo, e a civilização islâmica. Como cretense, e portanto súdito da República de Veneza, Domenikos Theotokopoulos, conhecido como El Greco (1541–1614), pertencia tanto ao Oriente grego quanto à cristandade latina. Ele e sua geração viveram boa parte de suas vidas à sombra do confronto entre a cristandade e o islam.27

A poética da emulação procura oferecer um arcabouço teórico capaz de esclarecer as circunstâncias desse cruzamento de culturas, de tradições e de opções estéticas.

(No mundo de hoje, parece cada dia mais necessário que uma poética assim possa transformar-se numa verdadeira política cultural…)

Este livro (que você têm nas mãos)

Duas ou três palavras sobre esta coletânea de ensaios.

Primeiro, mais do que uma mera tradução de ensaios já publicados em outras circunstâncias, trata-se de um novo livro.

De fato, os capítulos 1, 5, 7 e 14 foram especialmente escritos para a ocasião; os capítulos 2, 3 e 12 foram consideravelmente ampliados, chegando até a dobrar de tamanho; o capítulo 6 é inédito. No mais, reescrevi todos os textos, procurando evitar as repetições e ressaltando os laços entre os capítulos, e também entre as três grandes partes.

A primeira parte é dedicada a questões teóricas e evidencia os pontos de interseção entre a teoria mimética, o conceito de culturas shakespearianas e a poética da emulação. Exploraremos esse autêntico desafio da mímesis por um estudo de caso: a centralidade do exílio no imaginário brasileiro. Enfim, a terceira parte será centrada em aspectos pregnantes da literatura brasileira contemporânea.

Eis portanto o que tenho a oferecer a você. E agora aguardo suas reações — como sempre.


  1. Estudei com René Girard na Universidade de Stanford, e foi graças às férteis intuições de sua teoria que pude desenvolver boa parte das reflexões expostas na primeira parte deste livro. Com Pierpaolo Antonello, publicamos um livro de entrevistas com o pensador francês: Evolução e conversão; a edição francesa do livro, Les origines de la culture (Desclée de Brouwer, 2004) ganhou o “Prix d’Aujourd’hui”.

  2. Ver o catálogo: Matisse e Picasso: Londres, Tate Publishing, 2012.

  3. No que diz respeito à cultura brasileira, Jean-Pierre Dupuy foi o primeiro a assinalar as convergências possíveis entre a teoria mimética e o desafio da mímesis nas condições históricas dos tristes trópicos. Fui aluno de Jean-Pierre Dupuy na Universidade de Stanford, e a perspectiva que desenvolvo aqui é tributária de seu fecundo ensinamento.

  4. John Golding, “Introduction”, Matisse Picasso: Londres: Tate Publishing, 2002, p. 13.

  5. Claro — mas é mesmo necessário lembrar? — não sou o primeiro a fazer essa observação! Bem ao contrário, desde as primeiras décadas do século XIX, isso é, desde os movimentos de independência, os mais importantes intelectuais e artistas latino-americanos sondaram e revolveram a questão da mímesis, sempre projetada para o plano de um dilema coletivo e não apenas individual. Aí está, sem dúvida, a marca mais forte do pensamento e da arte latino-americanas. Acrescentemos que, se eu exibisse pretensões de originalidade ao propor uma reflexão sobre o desafio da mímesis dentro do contexto das culturas shakespearianas, eu cometeria a mais bela e ingênua das incoerências!

  6. Mentira romântica e verdade romanesca (1961). Trad. Lilia Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2012, p. 26.

  7. Frank Lestringant, Le Brésil de Montaigne. Le Nouveau monde des ‘Essais’ (1580–1592). Paris: Editions Chandeigne — Librairie Portugaise, 2005, p. 31.

  8. Idem, p. 33.

  9. Tema tratado em profundidade no terceiro livro de René Girard, A Violência e o Sagrado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

  10. John Golding, “Introduction”, p. 24. Nas próximas citações deste livro, darei apenas o número de página.

  11. Ver o catálogo Picasso et les maîtres. Pars: Editions de la Réunion des musées nationaux, 2008.

  12. Apud Anne Baldassari, “La Peinture de la peinture”. In: Anne Baldassari & Marie-Laure Bernadac, Picasso et les maîtres. Paris: Edtions de la Réunion des musées nationaux, 2008, p. 37.

  13. Marie-Laure Bernadac, “Picasso canibale. Deconstruction-Reconstruction des Maîtres”. In: Anne Baldassari & Marie-Laure Bernadac, Picasso et les maîtres. Paris: Editions de la Réunion des musées nationaux, 2008, p.. 37.

  14. Ver o catálogo Picasso/Manet: Le Déjeuner sur l’herbe. Paris: Musée d’Orsay, 2008.

  15. Laurence Madeline, “Picasso/Manet. La partie carrée”. In: Laurence Madeline, Picasso/Manet. Le Déjeuner sur l’herbe. Paris: Musée d’Orsay, 2008, p. 20. Grifos meus.

  16. Ibidem.

  17. Segundo Bate, não existe melhor maneira de compreender “toda a poesia inglea dos três últimos séculos — ou, se quisermos, a história moderna das artes em geral — do que explorando os efeitos dessa ansiedade crescente, e a urgente questão que ela implica para o poeta ou artista: o que ainda se pode fazer?”. W. Jackson Bate, The Burden of the Past and the English Poet. Nova York: The Norton Library, p. 3.

  18. Nas eloquentes palavras do crítico: “É a esses poetas que se limita meu objeto, aquelas figuras maiores que se empenham na luta contra seus ilustres precursores, mesmo até a morte.” Harold Bloom, L’Angoisse de l’influence. Tradução do inglês para o francês por Maxime Shelledy e Souad Degachi. Paris: Aux forges de Vulcain, 1997, p. 55.

  19. Nesse contexto, devo ressaltar o trabalho notável do crítico literário Luiz Costa Lima. Nas últimas décadas, Lima desenvolveu um trabalho constante de reavaliação da mímesis na tradição ocidental. Todavia, possuo mais afinidades intelectuais com a perspectiva de René Girard, e além disso pretendo chamar a atenção para a força da aemulatio, e não centrar-me no falso problema da redução da mímesis à imitatio, tema privilegiado por Lima. Um falso problema porque, na retórica clássica, a imitatio nunca teve valor autônomo, e consistia antes de tudo numa técnica, dinâmica, necessariamente associada à aemulatio. A obra consequente de Lima está de certo modo sintetizada em seu livro Mímesis: desafio ao pensamento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

  20. Ver o catálogo Turner and the Masters. Londres: Tate Publishing, 2009.

  21. David Solkin. “Education and Emulation”. In: David Solkin, Turner and the Masters. Londres: Tate Publishing, 2009, p. 101.

  22. Kathleen Nicholson: “Turner, Claude and the Essence of Landscape”. In: David Solkin, Turner and the Masters. Londres: Tate Publishing, 2009, p. 58. Grifos meus.

  23. Idem, p. 59.

  24. Ver o catálogo Turner Inspired: In the Light of Claude. Londres: National Gallery, 2012.

  25. Ver o catálogo *Titian, Tintoretto, Veronese: Rivals in Renaissance Venice. Boston: Museum of Fine Arts, 2009.

  26. A expressão é de Shakespeare, e eis as referências da tradução brasileira: Otelo. Trad. Carlos Alberto Nunes. In: Tragédias. Rio de Janeiro: Agir, 2008.

  27. John H. Elliott, “El Greco’s Mediterranean: The Encounter of Civilizations”. Londres: National Gallery, 2003, p. 19.

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