Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Maurício G. Righi

A ABRALIC, com René Girard

Na segunda-feira, 7 de agosto, começa o congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) na UERJ, mais uma vez com presença forte da teoria mimética e da É Realizações.

Porém, antes de tudo, preciso chamar a atenção para o notável trabalho dos organizadores em 2016 e em 2017.

Eu, Pedro Sette-Câmara, editor do blog Miméticos, me tornei aluno de mestrado na UERJ em 2014, e em 2015 iniciei o doutorado.

A UERJ é uma universidade pública, cujo responsável é o estado do Rio de Janeiro. Nos dois últimos anos, começamos a testemunhar — perdoem a palavra batida — o puro descaso das autoridades, com o não-pagamento dos terceirizados. Lembro de uma senhora, ascensorista, que ia trabalhar mesmo sem receber.

Como a segurança diminuiu muito, alguns professores, como um dos que eu tive, passaram a hesitar em terminar as aulas após as 17h.

Porém, O descaso do governo do Estado foi respondido não com mais descaso. A ABRALIC faz caso da UERJ. O que testemunhei foi uma bela expressão de espírito público, ou então, se preferirmos, do puro e simples espírito de doação.

João Cezar de Castro Rocha, presidente da ABRALIC, autor do primeiro texto deste blog, junto com Marcus Vinícius Nogueira Soares, autor da É Realizações, talvez o maior especialista em José de Alencar do Brasil, passaram o período das Olimpíadas verificando obras nos andares da UERJ que receberiam os convidados da ABRALIC — demonstrando estar muito longe de qualquer estereótipo de intelectual encastelado.

Programação de 2017

No ano passado, além de um simpósio inteiro dedicado à teoria mimética, tivemos uma mesa com William Johnsen e Trevor Merrill, e este ano teremos a presença internacional de Pierpaolo Antonello, co-autor de Evolução e Conversão com René Girard e João Cezar de Castro Rocha, dividindo a mesa com Maurício Righi, e com Júlia Reyes, colaboradora do blog e minha colega na UERJ. A mesa acontecerá às 11h de sexta-feira, 11 de agosto, no auditório RAV 112 (basta chegar ao 11o andar da UERJ, e virar a esquerda no longo corredor). A entrada é franca; qualquer um pode assistir.

Um cavalo de Troia nas ciências humanas?

por Maurício G. Righi

Nos departamentos acadêmicos de nossos tempos, em que se estudam sistematicamente as estruturas e manifestações religiosas, existe uma antiga divisão estanque entre tendências fenomenológicas e funcionalistas. A secessão entre os dois campos, o fenomenológico e o funcionalista, está de tal forma enraizada no ambiente universitário, formatada em distintos núcleos da esfera docente e discente, nos quais ocorrem continuadas demonstrações de suposta superioridade epistemológica, que restou um exíguo espaço para possíveis e bem-vindas aproximações entre os dois campos.

Nesse quadro desolador para o conhecimento científico, que vive do confronto e da adequação entre ideias e pressupostos conflitantes, um lado diz que o termo “sagrado” não tem mais lugar no repertório semântico das ciências que estudam a religião, ao passo que o outro lado se fecha na posição contrária: as ferramentas teóricas da sociologia seriam inadequadas para uma devida apreensão do fenômeno religioso, ou seja, as abordagens sociológicas teriam sequestrado inadvertidamente os estudos em religião. A bem da verdade, os dois lados têm grandes extensões de telhado de vidro, que serão facilmente quebradas por adversários suficientemente astutos.

Ao se aproximar da religio de forma sui generis, o pensamento girardiano supera a necessidade de uma abstração puramente sociológica ou fenomênica do fato religioso, uma vez que ele é capaz de incluir as duas aproximações em seu modelo gerativo, e o faz de forma bastante elementar.

A intuição girardiana tem o desejo como categoria fundante, cuja gestação no psiquismo produz cultura humana. Trata-se de uma apreensão que concebe a inclinação metafísica do desejo mimético, este compreendido como fonte gerativa das estruturas que formam tanto a sociedade quanto o self. Nessa perspectiva, o fenômeno religioso se torna ao mesmo tempo forma e substância, e a religio passa a apontar tanto para a sociedade, as forças coletivas que a organizam, quanto para a radical alteridade das chamadas categorias sagradas, o único centro de significados que designa a si mesmo. Portanto, Girard nos mostra como a religião de fato reproduz a voz impessoal e oculta de um grupo ou de uma coletividade qualquer, dentro de uma perspectiva notadamente durkheimiana, ao mesmo tempo que também evidencia a natureza singular e irredutível do campo sagrado, a partir de uma perspectiva que seria caracteristicamente eliadiana.

No entanto, em vez de aliviar o fardo entre as duas partes litigantes, ao oferecer uma visão que as integra de forma surpreendentemente harmoniosa, o pensamento girardiano recebe a feroz indisposição de ambos os lados, sendo tratado, pela tradição da fenomenologia, como uma abordagem excessivamente funcionalista e sociológica do fenômenos religioso, e, do lado do funcionalismo, como uma abordagem exageradamente teológica em suas implicações. É como se os dois campos vissem o pensamento girardiano como um ardiloso agente infiltrado ou, ainda pior, como um autêntico cavalo de Troia.

Para os tradicionais inimigos da fenomenologia, a teoria mimética nada mais é que um sofisticado exercício em criptoteologia, sob o disfarce de uma antropologia gerativa, ao passo que para os inimigos do funcionalismo, a teoria mimética é vista como mera releitura, embora mais elaborada, do pensamento freudiano. Alguém poderia dizer que a possibilidade da reconciliação foi revelada, mas que os acadêmicos a rejeitaram, escandalizados pela desavergonhada manifestação de uma posição intelectual que não privilegia nem a sociedade e tampouco a divindade, mas sim o humano.

Em seu livro Ritual: Perspectives and Dimensions, que versa sobre as grandes escolas de pensamento nos estudos em religião e formação da cultura, a acadêmica norte-americana Catherine Bell exprimiu o que penso ser uma grande verdade sobre o pensamento girardiano, ao dizer que “René Girard é um tremendo rebelde”, ainda que o tenha dito de forma bastante informal — e até mesmo divertida. De fato, o pensamento de Girard parece fugir aos enquadramentos tradicionais das chamadas ciências sociais. Isso é logo percebido pelos que se debruçam com atenção sobre a sua obra, na qual se manifesta uma sabedoria que não se deixa levar pelo discurso cientificista da modernidade.

As vantagens epistemológicas da teoria mimética são inequívocas, pois ela ultrapassa, com inigualável elegância e abrangência, o confinamento dos modelos sistêmicos tão em voga na modernidade. Nesse ponto, é interessante observar como os críticos de Girard sempre procuram fechar as principais elaborações do pensador francês em sistemas vedados, procurando justamente sistematizar o seu pensamento. Ao criar o espantalho de um “sistema girardiano”, com base no qual decorrerão críticas supostamente devastadoras à teoria, comentadores desatentos deixam de perceber que a teoria mimética é muito mais um insight à espera de teorias. Por exemplo, quando os antropólogos e historiadores da cultura criticam a teoria do bode-expiatório de Girard, dizendo que ela é excessivamente unilateral, eles o fazem vedando a teoria, isto é, ao não levarem em consideração a natureza mimética do desejo, que sustenta e antecede a proposição do mecanismo vitimário. Assim, perdem a oportunidade de pensar suas próprias disciplinas à luz de um insight que poderia iluminar novos caminhos e ótimas teorias.

Não obstante, são muitos os que percebem a vocação genética e anti-sistêmica do pensamento de Girard, mas, ainda assim, ele continuará a ser fatiado (e não poucas vezes) em procedimentos inúteis e questionamentos ociosos. Embora Girard tenha vencido inúmeras vezes os seus críticos — e algumas vitórias foram de fato acachapantes — percebo que ainda existe uma resistência continuada ao seu pensamento, visto sobretudo como uma excentricidade meramente engenhosa. Portanto, cabem aos girardianos insistir na absoluta pertinência de um pensamento que reconstitui (e de forma impressionante) partes supostamente desconexas. Fenomenologia e funcionalismo são duas faces da mesma moeda. Quem tem olhos para ver, que veja.

Referências

Bell, Catherine. Ritual: Perspectives and Dimensions. Nova York: Oxford University Press, 1997.

Durkheim, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa: O Sistema Totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Eliade, Mircea. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Eliade, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.

Girard, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.

Girard, René. Quando Começarem a Acontecer essas Coisas: Diálogos com Michel Treguer. São Paulo: É Realizações, 2011.

Girard, René. Um Longo Argumento do Princípio ao Fim: Diálogos com João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.

Girard, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. São Paulo: É Realizações, 2009.

Hamerton-Kelly, Robert (ed.) Violent Origins: Ritual Killing and Cultural Formation. Stanford, CA: Stanford University Press, 1987.

Terrin, Aldo Natale. O Rito: Antropologia e Fenomenologia da Ritualidade. São Paulo: Paulus, 2004.

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