Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Michel Houellebecq

Entre a mentira romântica e a verdade romanesca

Uma das importantes observações feitas por João Cezar de Castro Rocha em suas introduções à coleção René Girard da É Realizações é a seguinte: mesmo em seus escritos sobre literatura, Girard não está interessado na literatura em si, na literatura como entendida pelas faculdades de Letras, na “literariedade”, mas na capacidade que a literatura tem de investigar o desejo mimético, o contágio da violência etc. Não por acaso, a obra de Girard logo passa da literatura à antropologia, e depois se dirige para os estudos bíblicos. Em alguma entrevista (o leitor fica convidado a enviar o link), alguém dizia que, antes de escrever Rematar Clausewitz, Girard estaria na dúvida entre trabalhar com Virginia Woolf (especialmente o romance The Waves) ou com Carl von Clausewitz; sabemos qual foi sua decisão.

Na leitura mais superficial de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, logo ficamos sabendo que existiriam dois tipos de obras. A “mentira romântica” englobaria as obras nas quais existe uma relação direta de desejo entre o sujeito e o objeto. A “verdade romanesca” dos cinco autores discutidos no livro — Cervantes, Stendhal, Flaubert, Dostoiévski e Proust — consistiria em trazer a natureza mimética ou triangular do desejo para o primeiro plano. Alonso Quijano torna-se Dom Quixote para imitar os livros que lê; Emma Bovary tem amantes para ter uma vida cheia de emoções, como as das heroínas dos romances que lê. Julien Sorel quer ser como Napoleão. Nas obras de Dostoiévski e de Flaubert, encontramos a predominância da “mediação interna”: os personagens imitam mais a si mesmos do que figuras distantes de seus mundos “espirituais”, caracterizando a “mediação externa”.

Contudo, o próprio Girard comenta que a percepção do mimetismo nos autores estudados pode ser escalonada em graus. Nenhum destes chega a um esboço de sistematização (exceto Shakespeare, que viria a ser discutido em Teatro da Inveja), trabalho que fica com a teoria. Porém, como o próprio Girard fala, no prefácio a To Double Business Bound, do “potencial quase-teórico da literatura”, não apenas a continuidade entre literatura e crítica fica estabelecida, como abre-se a porta para uma resposta satisfatória à questão de muitos leitores, sem a menor pretensão de tornar-se críticos literários, lerem literatura para entender melhor as próprias vidas.

Do lado crítico, uma das primeiras observações a fazer é que muitas vezes a mentira romântica e a verdade romanesca aparecem juntas na mesma obra. Por exemplo, o breve primeiro romance de Michel Houellebecq, Extension du Domaine de la Lutte [Extensão do Domínio da Luta], que reúne praticamente todos os temas que virão a ser tratados em seus romances posteriores, mistura a consciência aguda da competição violenta pelos mesmos objetos com uma crença determinista de que o desejo por esses objetos é totalmente ordenado por uma lei natural e impessoal — não por um terceiro, próximo ou distante. Todavia, como no caso do tarantismo, é a crença nessa lei impessoal, “natural”, que permite a Houellebecq abordar a onipresença da violência.

Assim como no caso de um continuum entre o conhecimento e a méconnaissance, mesmo que tenhamos a verdade romanesca e a mentira romântica como pólos ideais, existe um enorme terreno pelo qual forçosamente nos movimentamos, sem no entanto perder de vista a dimensão ética, orientada pelo reconhecimento da centralidade de um outro na estruturação do eu.

Os riscos de uma formulação simples

René Girard é autor de basicamente duas teorias: a do desejo mimético e a do bode expiatório. Ambas permitem formulações simples. Para a primeira, podemos dizer que desejamos segundo o desejo de um outro que vemos como modelo. Para a segunda, podemos dizer que a cultura e a religião baseiam-se no linchamento unânime de uma vítima inocente (ao menos do crime que lhe é atribuída).

A simplicidade de formulação dessas teorias traz consigo uma tentação e uma maldição. Neste post, por economia, vou me ater à primeira tese.

Tentação

Para a teoria do desejo mimético, a primeira tentação é tomá-la como uma panaceia para a explicação fácil de qualquer situação. Podemos deduzir daquela formulação proposta no primeiro parágrafo a estrutura triangular do desejo, com sujeito, modelo e objeto. Segundo Girard, a exposição dessa estrutura no primeiro plano de uma obra literária é que constituiria a “verdade romanesca”. Já a ocultação do modelo é que seria a “mentira romântica”, que mostraria apenas a relação entre sujeito e objeto. Para Girard, a obra de Shakespeare teria sido construída segundo a tensão entre esconder a verdade impalatável, quiçá escandalosa, sobre a natureza dos desejos, e revelá-la a um público disposto a percebê-la. Há, portanto, graus de mentira romântica e de verdade romanesca a ser absorvidos segundo as preferências do espectador.

Mas essa pequena explicação já aponta para o risco de querer fazer da teoria o emplasto Brás Cubas: parece que o mundo está errado em adotar uma visão “romântica” e bastaria expor a verdade “romanesca” para chegar ao âmago de qualquer situação. A exposição dessa verdade se basearia na procura do modelo do desejo, e pronto, voilá, temos uma visão girardiana de um problema.

Não é tão simples. A teoria do desejo mimético apresenta uma estrutura formal, e portanto essa análise se limitaria a um aspecto formal de uma situação real ou fictícia. Uma ação é resultado de diversas tensões distintas. Quando o mimetismo fica absolutamente explícito, podemos até ter a impressão de que o autor leu René Girard. Para retornarmos ao filme O cavaleiro das trevas, temos a cena em que o Coringa queima uma pilha de dinheiro e justifica-se dizendo que o importante é “transmitir uma mensagem” (“send a message”). Aí já vemos que o Coringa admite ser pura rivalidade, e que o objeto realmente já desapareceu. Mas na maioria dos casos o objeto não desaparece. Se disputo uma mulher com outro homem, não prefiro que ela morra a ser possuída por ele. Tenho outros modelos, que delineiam as condutas que escolho.

Assim, não basta procurar o modelo oculto. Neste momento, debruço-me sobre O Guarani, que José de Alencar publicou em 1857. Está claro que Alencar tem pelo menos três modelos na composição da obra, todos aliás declarados. Primeiro, ele estabelece uma rivalidade com Gonçalves de Magalhães, que no anterior pretendeu (explicitamente, reconhecidamente) fundar a literatura de sentimento nacional com seu poema épico A Confederação dos Tamoios. Alencar, achando que o poema não estava à altura do propósito, redigiu uma série de cartas para o jornal que dirigia, reunidas depois como as Cartas sobre A Confederação dos Tamoios. Nas cartas, Alencar anuncia pelo menos dois modelos positivos, dignos de ser seguidos: Alphonse de Lamartine e René de Chateaubriand, dois franceses que viajaram para a América do Norte, escreveram sobre os índios de lá, e jamais tiveram a vaga pretensão de fundar uma literatura nacional.

Fica evidente que não é o caso de simplesmente aplicar a teoria em um único nivel. Existe no mínimo dos mínimos uma tensão entre superar Magalhães, possuindo o objeto que ele julgaria possuir, o sentimento nacional, e a vontade de estar à altura dos modelos declarados. Ezra Pound pode ter dito em um de seus ensaios que o mau artista deveria ir para a cadeia; Alencar quis apenas escrever melhor do que aquele que julgava mau artista. Mas de que modo? A própria pergunta já é longa e a resposta, mais longa ainda.

A metáfora do desejo triangular pode, então, com muita facilidade nos levar à tentação de criar um “girardianismo” de geômetras das relações humanas, que passam a ser vistas num único plano. Mas não se trata sequer de aumentar o número de planos para enxergar melhor a complexidade de cada situação, porque nelas estão presentes inúmeras pressões, em diferentes graus de intensidade. Talvez se possa dizer que a teoria do desejo triangular é um instrumento com o qual construir um mapa (até multidimensional) de uma situação — a qual, como tudo que é concreto, jamais poderá ser reduzida a seu mapa.

Maldição

Mencionemos agora a “maldição”.

Uma hipótese de formulação tão simples quanto “desejamos segundo o desejo de um outro” pode facilmente prestar-se a uma interpretação superficial e a uma contestação igualmente superficial, mesmo no caso de mentes de primeira grandeza. Penso especificamente no escritor francês Michel Houellebecq. Qualquer pesquisa na internet que associe Houellebecq e Girard mostrará que muitos leitores acreditam enxergar temas girardianos em suas obras. Thierry Klein, por exemplo, considera seu romance A possibilidade de uma ilha uma “mise en abyme girardiana”. No livro que Houellebecq escreveu com Bernard Henri-Levy, Ennemis publics [Inimigos públicos], publicado em 2008 (Paris: Flammarion e Grasset), Levy menciona especificamente a obra de René Girard. Isso não impediu Houellebecq de, em 2010, dar uma entrevista fazendo um julgamento sumário da obra de seu conterrâneo1:

Conheço René Girard sobretudo por uma tese, que considero falsa, assim enunciada: desejamos aquilo que o outro deseja. Para mim, as coisas são mais simples: desejamos o que é desejável. O corpo de uma moça é desejável em si. Observo aliás uma certa invariabilidade do corpo desejável, apesar daquilo que se costuma dizer sobre esse assunto. O 90–60–90 permanece o motor universal do desejo masculino.

O maior iniciante na obra de René Girard, aquele que se prestou a escutar o que diz o autor de Mentira romântica e verdade romanesca, seria capaz de tornar o que diz Houellebecq muito mais complexo. Mesmo que se admita (embora eu mesmo não admita) a universalização dessa preferência, ela ainda é genérica demais para explicar o desejo por uma mulher individual. Havendo muitas mulheres com características genéricas semelhantes, por que se deseja especificamente uma ou outra? Se pensarmos numa base biológica do desejo, é muito fácil encontrar o mimetismo. Todo ser humano, por exemplo, sente fome. Decerto poderíamos viver apenas de nutrientes. Mas seguimos dietas para imitar um modelo. Preparamos uma comida da maneira como vimos na TV. Sonhamos com uma experiência gastronômica que seja inesquecível. Não é preciso explicar de quantas maneiras a cultura transforma a mera necessidade de alimentar-se. A objeção de Houellebecq é semelhante ao argumento de que uma comida é desejável em si: é verdade, ela é desejável, ela tem a potência de ser desejada, mas de que maneira essa potência vai atualizar-se? Eis a questão.

Curioso é que Houellebecq provavelmente não negaria uma afirmação ao estilo “o escritor imita seus mestres”, sendo ele próprio autor de um excelente estudo sobre H.P. Lovecraft2 — estudo esse que ajuda a entender diversas escolhas estilísticas de seu romance Partículas elementares 3, por exemplo.

A formulação simples, ou aparentemente simples, prestou-se a uma interpretação simplista. É um risco inerente à simplicidade, talvez. Mas também é um convite a que se reflita mais antes de emitir um julgamento.

NOTAS


  1. A entrevista, originalmente publicada no site Sur le Ring, encontra-se momentaneamente fora do ar. Uma cópia dela se encontra no fórum LibertyVox.

  2. H. P. Lovecraft: Contre le monde, contre la vie. Monaco: Editions du Rocher, 1991.

  3. Les Particules élémentaires: Paris: Flammarion, 1998

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