Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: religião

Um cavalo de Troia nas ciências humanas?

por Maurício G. Righi

Nos departamentos acadêmicos de nossos tempos, em que se estudam sistematicamente as estruturas e manifestações religiosas, existe uma antiga divisão estanque entre tendências fenomenológicas e funcionalistas. A secessão entre os dois campos, o fenomenológico e o funcionalista, está de tal forma enraizada no ambiente universitário, formatada em distintos núcleos da esfera docente e discente, nos quais ocorrem continuadas demonstrações de suposta superioridade epistemológica, que restou um exíguo espaço para possíveis e bem-vindas aproximações entre os dois campos.

Nesse quadro desolador para o conhecimento científico, que vive do confronto e da adequação entre ideias e pressupostos conflitantes, um lado diz que o termo “sagrado” não tem mais lugar no repertório semântico das ciências que estudam a religião, ao passo que o outro lado se fecha na posição contrária: as ferramentas teóricas da sociologia seriam inadequadas para uma devida apreensão do fenômeno religioso, ou seja, as abordagens sociológicas teriam sequestrado inadvertidamente os estudos em religião. A bem da verdade, os dois lados têm grandes extensões de telhado de vidro, que serão facilmente quebradas por adversários suficientemente astutos.

Ao se aproximar da religio de forma sui generis, o pensamento girardiano supera a necessidade de uma abstração puramente sociológica ou fenomênica do fato religioso, uma vez que ele é capaz de incluir as duas aproximações em seu modelo gerativo, e o faz de forma bastante elementar.

A intuição girardiana tem o desejo como categoria fundante, cuja gestação no psiquismo produz cultura humana. Trata-se de uma apreensão que concebe a inclinação metafísica do desejo mimético, este compreendido como fonte gerativa das estruturas que formam tanto a sociedade quanto o self. Nessa perspectiva, o fenômeno religioso se torna ao mesmo tempo forma e substância, e a religio passa a apontar tanto para a sociedade, as forças coletivas que a organizam, quanto para a radical alteridade das chamadas categorias sagradas, o único centro de significados que designa a si mesmo. Portanto, Girard nos mostra como a religião de fato reproduz a voz impessoal e oculta de um grupo ou de uma coletividade qualquer, dentro de uma perspectiva notadamente durkheimiana, ao mesmo tempo que também evidencia a natureza singular e irredutível do campo sagrado, a partir de uma perspectiva que seria caracteristicamente eliadiana.

No entanto, em vez de aliviar o fardo entre as duas partes litigantes, ao oferecer uma visão que as integra de forma surpreendentemente harmoniosa, o pensamento girardiano recebe a feroz indisposição de ambos os lados, sendo tratado, pela tradição da fenomenologia, como uma abordagem excessivamente funcionalista e sociológica do fenômenos religioso, e, do lado do funcionalismo, como uma abordagem exageradamente teológica em suas implicações. É como se os dois campos vissem o pensamento girardiano como um ardiloso agente infiltrado ou, ainda pior, como um autêntico cavalo de Troia.

Para os tradicionais inimigos da fenomenologia, a teoria mimética nada mais é que um sofisticado exercício em criptoteologia, sob o disfarce de uma antropologia gerativa, ao passo que para os inimigos do funcionalismo, a teoria mimética é vista como mera releitura, embora mais elaborada, do pensamento freudiano. Alguém poderia dizer que a possibilidade da reconciliação foi revelada, mas que os acadêmicos a rejeitaram, escandalizados pela desavergonhada manifestação de uma posição intelectual que não privilegia nem a sociedade e tampouco a divindade, mas sim o humano.

Em seu livro Ritual: Perspectives and Dimensions, que versa sobre as grandes escolas de pensamento nos estudos em religião e formação da cultura, a acadêmica norte-americana Catherine Bell exprimiu o que penso ser uma grande verdade sobre o pensamento girardiano, ao dizer que “René Girard é um tremendo rebelde”, ainda que o tenha dito de forma bastante informal — e até mesmo divertida. De fato, o pensamento de Girard parece fugir aos enquadramentos tradicionais das chamadas ciências sociais. Isso é logo percebido pelos que se debruçam com atenção sobre a sua obra, na qual se manifesta uma sabedoria que não se deixa levar pelo discurso cientificista da modernidade.

As vantagens epistemológicas da teoria mimética são inequívocas, pois ela ultrapassa, com inigualável elegância e abrangência, o confinamento dos modelos sistêmicos tão em voga na modernidade. Nesse ponto, é interessante observar como os críticos de Girard sempre procuram fechar as principais elaborações do pensador francês em sistemas vedados, procurando justamente sistematizar o seu pensamento. Ao criar o espantalho de um “sistema girardiano”, com base no qual decorrerão críticas supostamente devastadoras à teoria, comentadores desatentos deixam de perceber que a teoria mimética é muito mais um insight à espera de teorias. Por exemplo, quando os antropólogos e historiadores da cultura criticam a teoria do bode-expiatório de Girard, dizendo que ela é excessivamente unilateral, eles o fazem vedando a teoria, isto é, ao não levarem em consideração a natureza mimética do desejo, que sustenta e antecede a proposição do mecanismo vitimário. Assim, perdem a oportunidade de pensar suas próprias disciplinas à luz de um insight que poderia iluminar novos caminhos e ótimas teorias.

Não obstante, são muitos os que percebem a vocação genética e anti-sistêmica do pensamento de Girard, mas, ainda assim, ele continuará a ser fatiado (e não poucas vezes) em procedimentos inúteis e questionamentos ociosos. Embora Girard tenha vencido inúmeras vezes os seus críticos — e algumas vitórias foram de fato acachapantes — percebo que ainda existe uma resistência continuada ao seu pensamento, visto sobretudo como uma excentricidade meramente engenhosa. Portanto, cabem aos girardianos insistir na absoluta pertinência de um pensamento que reconstitui (e de forma impressionante) partes supostamente desconexas. Fenomenologia e funcionalismo são duas faces da mesma moeda. Quem tem olhos para ver, que veja.

Referências

Bell, Catherine. Ritual: Perspectives and Dimensions. Nova York: Oxford University Press, 1997.

Durkheim, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa: O Sistema Totêmico na Austrália. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Eliade, Mircea. O Sagrado e o Profano: A Essência das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

Eliade, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.

Girard, René. O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.

Girard, René. Quando Começarem a Acontecer essas Coisas: Diálogos com Michel Treguer. São Paulo: É Realizações, 2011.

Girard, René. Um Longo Argumento do Princípio ao Fim: Diálogos com João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.

Girard, René. Mentira Romântica e Verdade Romanesca. São Paulo: É Realizações, 2009.

Hamerton-Kelly, Robert (ed.) Violent Origins: Ritual Killing and Cultural Formation. Stanford, CA: Stanford University Press, 1987.

Terrin, Aldo Natale. O Rito: Antropologia e Fenomenologia da Ritualidade. São Paulo: Paulus, 2004.

A mediação externa

Mentira Romântica e Verdade Romanesca

Mentira Romântica e Verdade Romanesca

Continuando a série sobre as noções mais básicas da teoria mimética, é hora de falarmos dos dois tipos de mediação, a externa e a interna, começando pela primeira.

Por que “mediação”?

No post anterior da série, tentei mostrar em que consiste a natureza mimética do desejo, e também como detectá-la. Se aceitamos que o desejo é mimético, então há alguém a ser mimetizado. Esse alguém foi chamado por René Girard de “modelo” ou “mediador”. Na teoria, os dois termos são intercambiáveis, embora, é claro, como não existem sinônimos perfeitos, a escolha de um deles vai chamar mais atenção para algum aspecto particular. Se digo que alguém é meu “modelo”, ressalto a relação que existe entre mim, sujeito, e esse alguém. Se digo que esse alguém é meu “mediador”, como todo mediador media uma relação, também evoco o objeto dessa relação.

Teórico demais? Mas é simples.

No texto anterior, mencionei o fato de que José de Alencar disse ter desejado tornar-se escritor para obter a mesma glória de Joaquim Manuel de Macedo. Ou seja: o objeto é a glória, Joaquim Manuel de Macedo é o mediador. Se lermos os textos de Alencar e de Macedo, veremos que Alencar não tentou copiar o estilo do escritor mais antigo; o que ele queria era a fama. Macedo foi o mediador do objeto fama para Alencar. Mas também foi o modelo, alguém a ser imitado no quesito fama literária. Não houve disputa, e Alencar não teve a menor vergonha de declarar sua imitação. A glória literária é um objeto intangível, que pode ser partilhado por muitos escritores. Podemos admirar Homero e Shakespeare, Balzac e Flaubert, Macedo e Alencar.

Agora, Alencar conheceu a glória literária jovem, com 27 anos, quando publicou O Guarani, em 1857. O romance que deu fama a Macedo, A Moreninha, era de 1844. Havia portanto uma distância “espiritual” entre os dois escritores. Uma diferença de idade. Para Alencar, a carreira literária seria a realização de um sonho adolescente. Ele não pensou em destruir Macedo, não pensou em rivalizar com Macedo.

É por isso que essa forma de mediação é chamada de “externa”: porque o mediador está em outra esfera, “espiritualmente” distante. Não era possível que Alencar quisesse roubar o sucesso de A Moreninha: o livro já estava publicado, a repercussão já tinha acontecido. Mas Alencar podia desejar obter uma repercussão semelhante, em sua época.

René Girard principia Mentira Romântica e Verdade Romanesca com um trecho de Dom Quixote em que o próprio Quixote fala de sua imitação de Amadis de Gaula, o cavaleiro fictício cujas aventuras fizeram tanto sucesso na península ibérica. Hoje em dia as pessoas podem vestir-se como cavaleiros jedis, ou como personagens de Harry Potter: o que Dom Quixote faz é levar sua relação com o personagem Amadis de Gaula um tanto além do que costumam levar os fãs e leitores contemporâneos… Sim, leitor, pode usar a ideia de cosplay para começar a entender o fenômeno.

Ainda em Mentira Romântica e Verdade Romanesca, Girard fala de como em O Vermelho e o Negro, de Stendhal, Julien Sorel, seminarista e filho de serralheiro numa cidade do interior, sonha em imitar Napoleão, guardando um retrato do general e também seu livro de memórias. Outro caso discutido por Girard é o de Emma Bovary, a famosa madame Bovary, que, na adolescência, lia romances e sonhava com suas heroínas — exatamente como hoje se pode ler uma revista de celebridades para sonhar com a vida dos ricos e famosos. Assim, Julien Sorel encara todas as situações como batalhas a vencer, e Emma Bovary espera que a vida lhe proporcione a intensidade dos romances. (Aliás, aquilo que se costuma chamar de “bovarismo” é uma modalidade específica de mediação externa.) Nos dois casos, os modelos ou mediadores estão distantes: Napoleão está morto, os personagens da ficção estão na ficção.

Aqui já precisamos abrir um parêntese. É verdade que uma das características da mediação externa é o sujeito não ter pudor em declarar seu desejo de imitar um modelo, mas em O Vermelho e o Negro e em Madame Bovary tanto Julien Sorel quanto Emma Bovary ocultam sua imitação. Mas isso porque, no caso de Julien, o ambiente político era desfavorável, e, no caso de Emma, a imitação a levaria ao adultério, e não só.

O tipo mais comum de mediação externa em que realmente não existe qualquer pudor em declarar em alto e bom som a imitação de um modelo é a prática religiosa. Ser cristão é imitar Cristo, e um dos livros mais difundidos do cristianismo é justamente o manual intitulado Imitação de Cristo. O budista pretende imitar Buda, e obter a iluminação. Para um religioso, a conduta do modelo é o critério para dirimir dúvidas.

A prática religiosa consiste em tentar fazer com que um modelo suplante os outros modelos que possuímos. Mas isso também vale para o exemplo dado no primeiro texto: vou me divertir com meus amigos ou fico em casa estudando? Quem é meu modelo, os amigos, próximos, que possuem a diversão, ou o ideal distante, que possui o objeto que desejo (que pode ser a sabedoria, uma habilidade, a admissão a um programa acadêmico, um emprego público)?

Se pensamos nesse exemplo, verificamos como a palavra “desejo” coloca em jogo diversas faculdades da alma, e como elas variam segundo a situação. Poderíamos dizer que Dom Quixote, louco que seja, tem um ideal ligado à sua vontade, e pretende subordinar suas concupiscências à sua vontade a fim de realizar seu desejo, que é imitar Amadis de Gaula. Já Emma Bovary tem um ideal ligado à concupiscência, e sua vontade é fraca. Tanto que, no momento em que ela enfrenta sua primeira decepção séria, ao ser abandonada pelo amante, cai num estado que se assemelha ao que hoje chamamos de depressão: não come, não sai da cama, mal fala etc.

Na prática religiosa cristã fala-se na “noite escura da alma”. A “noite escura” pode ser entendida da seguinte maneira: após uma experiência mística de contato com o modelo, isso é, de realização do desejo que mobilizava a vontade, o modelo parece retirar-se. O risco é o de uma depressão, como no caso de Emma Bovary. Ainda que esses fenômenos tenham o conteúdo muito distinto, são estruturalmente semelhantes. É importante mencioná-los agora para podermos falar de outras noções no futuro.

Assim, resumindo: mediação externa é aquela relação em que se deseja mimetizar um mediador espiritualmente distante. Falamos “espiritualmente” distante porque o modelo pode, por exemplo, ser um professor com quem se tem contato diário; por mais que haja proximidade física, o sujeito (aluno) e o modelo (professor) estão em esferas muito distintas.

É, claro, ainda, que essa relação não é estática. O aluno pode julgar um dia que teve sucesso na imitação do professor, isso é, que sabe o que ele sabe. Pode-se até mesmo dizer que um dos objetivos do ensino é fazer a passagem entre essas esferas e avaliar essa passagem segundo algum critério observável, como um exame. Em Os Quatro Amores, C.S. Lewis fala de como o professor deve estar preparado para que um dia alguns de seus alunos tornem-se seus rivais, isso é, para que a relação entre eles deixe de ser de mediação externa e passe a ser de mediação interna.

Mas isso já seria adiantar o próximo capítulo. Fica então o gancho.

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