Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

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O diabo e Carl Jung

por Mark Anspach*

Será que uma mulher se colocou entre Freud e Jung? Foi dessa ideia que se desenvolveu o campanha promocional do filme Um Método Perigoso. Se o filme em si era muito mais nuançado, nele o romance de Carl Jung com uma paciente ocupava mesmo assim o centro das atenções. Contudo, não foi ela o motivo do distanciamento dos dois homens.

Então, o que realmente causou a rixa entre Sigmund Freud e seu mais famoso discípulo? Antes de Jung virar jungiano, ele só ficava atrás de Freud em sua defesa do freudismo. Mas ficar em segundo não era um papel que agradava a Jung.

No fim das contas, o que separou os dois foi a emulação adorante do mestre por Jung, que escondia sua fatídica urgência de tomar o lugar do outro. É essa a conclusão que surge de uma leitura atenta de A Most Dangerous Method [Um Método Perigosíssimo], o livro de John Kerr que serviu de base para o filme de David Cronenberg.

Um dos primeiros episódios registrados por Kerr já antecipa a maneira como o relacionamento terminaria. Antes de conhecer Freud, Jung realizava testes de associação de palavras que produziam evidências experimentais importantíssimas da existência de complexos sexuais reprimidos.

Os testes eram administrados com o cronômetro na mão. Um complexo se trairia pela reação retardada a uma palavra-estímulo, como se o sujeito hesitassem em pisar em terreno perigoso. A associação não poderia ser acidental. A mesma palavra provocava a mesma reação quando o teste era repetido.

Contudo, se pedissem ao cobaia que repassasse a lista e recordasse as respostas dadas anteriormente, ele não conseguia tinha um branco ao chegar na palavra relacionada ao complexo, confirmando portanto a existência da repressão. Na maioria dos casos, o complexo reprimido tinha a ver com a sexualidade.

Os resultados dos testes só faziam pensar no nome de Freud. Mas, quando foram publicados em sucessivas edições de uma prestigiosa revista de psicologia, o nome de Freud praticamente nem aparecia. Muitos anos depois, Jung culpava o diabo por sua relutância em dar o devido crédito a Freud:

Certa vez, enquanto eu estava em meu laboratório, refletindo outra vez sobre essas questões, o diabo me sussurrou que eu poderia publicar os resultados dos meus experimentos e de minhas conclusões sem mencionar Freud. Afinal, eu tinha criado meus experimentos muito antes de compreender seu trabalho.

Apesar de repetir a palavra “meu” como um mantra — meus experimentos, minhas conclusões — Jung não afirma ter chegado a suas conclusões de maneira independente. Ele apenas diz que não compreendia a obra de Freud na época em que criou seus experimentos, quando a questão essencial é que ele usou-a para interpretar os resultados.

Segundo o relato de Jung, seu anjinho bom convenceu-o a ignorar as lisonjas do diabo:

”Se você fizer isso, como se desconhecesse Freud absolutamente, seria um embuste. Você não pode construir sua vida sobre uma mentira.” Assim, a questão foi resolvida. A partir daquele momento tornei-me um claro partidário de Freud e lutei por ele.

Jung marchou sob o estandarte de Freud, mas só depois da publicação dos experimentos de associação de palavras de 1904. O texto “se estendeu por quase duzentas páginas e quatro partes até que prioridade de Freud na ideia de repressão fosse tardiamente reconhecida numa nota de rodapé”, observa Kerr. “O diabo estava fazendo mais do que sussurrar no ouvido de Jung; estava guiando sua caneta.”

Quem é esse diabo que, enfeitiçando Jung, fê-lo tomar as ideias de Freud como suas? O crítico francês René Girard pode ajudar-nos a entender o comportamento de Jung sem invocar forças sobrenaturais. Por trás da conversa sobre o diabo, Girard encontra algo real.

Para Girard, o tentador diabólico do folclore e da Escritura representa aquilo que ele denomina desejo mimético. As pessoas copiam seus desejos de um modelo admirado, mas o modelo logo se mostra rival e obstáculo à realização desse mesmo desejo.

A definição de Girard encaixa-se na relação entre Jung e Freud. Não eram só as ideias de Freud que Jung copiava, mas o desejo de ser seu autor. Jung teria adorado ter sido ele próprio o pai da psicanálise. Freud teria frustrado-o ao chegar lá primeiro. O diabo que sussurrava no ouvido de Jung era a voz do desejo mimético, incitando-o a usurpar a posição ocupada por seu modelo.

Será que Jung sentia culpa por ter cedido ao demônio? No ano seguinte ele publicou um artigo numa revista cujo assunto era o plágio inconsciente. Conscientemente ou não, ele estava reprimindo a fonte de suas ideias sobre repressão. Sua relutância em citar o nome de Freud era o sintoma de uma condição subjacente que logo ficaria escancarada. O diagnóstico era claro: Jung tinha complexo de Freud.

Quando finalmente fez a peregrinação a Viena em 1907, Freud o fez levitar. Jung achou o mestre “extremamente inteligente, arguto, notável em tudo”. Dentre todos os homens que ele conhecia, “ninguém se comparava”. Nem mesmo na aparência: anos depois, Jung ainda falava e falava de como Freud era “bonito”.

Seis meses depois de seu primeiro encontro, Jung juntou coragem e escreveu a Freud para expressar “um desejo há muito acalentado e constantemente reprimido”: será que ele poderia ter uma foto do grande homem? Para seu deleite, Freud atendeu-o. Jung viu apenas um defeito no retrato: era pequeno demais. “Devo confessar um pecado”, escreveu ele a Freud meses depois. “Mandei ampliar seu retrato.”

Jung sabia que sua obsessão com Freud beirava o patológico. Ela ameaçava submergir sua própria identidade. Quando Freud reclamou que Jung demorava tempo demais para responder suas cartas, Jung citou seu instinto de auto-preservação. Admitindo “com dificuldades” que sua admiração por Freud “não tinha limites”, enfatizou que não tinha “qualquer ressentimento consciente” em relação a ele.

Assim, o complexo de auto-preservação não vem daí; antes, é a minha veneração por você que tem algo do caráter de uma “paixonite” religiosa. Ainda que isso na verdade não me incomode, ainda a acho repulsiva e ridícula por causa de seu fundo inegavelmente erótico.

Ao pintar sua obsessão como libidinosa, Jung manipulatoriamente tentou dar um tom freudiano a ela. Foi só mais um jeito de negar a realidade. Não havia nada erótico em sua “paixonite” pelo homem cuja fotografia ele venerava. Ele não ardia por Freud do mesmo jeito que um adolescente arde por uma modelo; ele o idolatrava do mesmo jeito que o mesmo adolescente idolatraria um deus da guitarra representado no cartaz de um show.

Em suma, Freud era o ídolo do homem mais jovem. Foi por isso que Jung disse que sua paixonite tinha uma natureza “religiosa”. Numa carta escrita poucos meses depois de seu primeiro encontro, ele não hesitou em comparar Freud ao Deus do Gênesis: “Qualquer pessoa que conheça a sua ciência verdadeiramente comeu da árvore do paraíso e tornou-se clarividente.”

Jung não era clarividente o bastante para perceber que um dia poderia ser expulso do Éden. Sua devoção estava destinada a terminar mal. Ele idolatrava Freud porque desejava ser Freud. Isso só poderia levar a frustração e a conflito.

Freud ofereceu-lhe tudo que podia. Fez de Jung editor da primeira revista de psicanálise, e em seguida presidente da Associação Psicanalítica Internacional. Pode-se dizer que ele fez tudo que podia para incentivar o complexo de Freud do discípulo. Como John Kerr argutamente observa, Freud “tentou construir seu movimento a partir da força da diligência de Jung de unir-se a ele.”

Freud agora fazia o papel de diabo, tentando Jung a copiá-lo e a tornar-se seu clone. Porém, na hora em que Jung ameaçou virar o novo Freud, o instinto de auto-preservação do próprio Freud entrou em ação, incitando-o a banir o usurpador. René Girard descreve exatamente esse padrão em A Violência e o Sagrado.

O modelo, mesmo quando incentivou abertamente a imitação, surpreende-se ao ver-se metido na competição. Ele conclui que o discípulo traiu sua confiança ao seguir seus passos.

Claro que surgiram diferenças reais. Ainda que aceitasse a existência de complexos sexuais, Jung sempre tinha sido cético quanto a usá-los para explicar tudo. Mas, quando veio o embate final, a ideia de que Jung tentaria suplantar Freud foi um gatilho de ansiedade.

Depois de seu primeiro encontro em 1907, quando conversaram febrilmente até as duas da manhã, Jung foi dormir e teve um sonho que Freud interpretou no dia seguinte como a revelação do desejo do homem mais novo de “destroná-lo e tomar seu lugar”. Isso não tinha impedido Freud de reconhecer Jung como seu “filho e herdeiro” científico.

Mas, em fins de 1912. o medo de Freud de ser destronado inflamou-se irremediavelmente durante um almoço em que os dois conversavam sobre os reis egípcios. Amenhotep, fundador do primeiro culto monoteísta, tinha apagado dos monumentos o nome do pai. Jung afirmou que, como o pai tinha sido considerado divino, a supressão do nome do deus anterior era necessária para estabelecer a nova religião.

Freud disse que isso o lembrava dos colegas suíços de Jung— como seu antigo parceiro de laboratório nos experimentos de associação de palavras — que escreviam sobre a psicanálise sem mencionar seu nome. Jung retrucou que não havia necessidade de citar Freud, um autor tão conhecido. Então, voltando ao Egito antigo, ele disse que “o pai já tem nome, mas o filho precisa criar um nome para si”. Pouco depois, como se vê no filme de Cronenberg, Freud caiu desmaiado.

A relação entrou em queda livre. Em semanas, Jung petulantemente acusou Freud de querer “permanecer no topo como o pai, lindamente assentado”. Freud logo propôs que eles cortassem qualquer contato pessoal. Em abril de 1914, Jung sentiu-se compelido a renunciar à presidência da Associação Psicanalítica Internacional. No pé da cópia de Freud da carta de renúncia, Jung inscreveu um símbolo arcano: “+++”.

Pintar três cruzes do lado de uma casa de fazenda era um antigo costume que tinha o objetivo de espantar o diabo. Mas qual era a origem do uso desse símbolo por Jung? Ele o tinha copiado de uma carta anterior, escrita pelo próprio Freud.

Até na hora em que Jung tentava desesperadamente exorcizá-lo, o diabo ainda estava guiando sua caneta.

*Mark Anspach é autor de Anatomia da Vingança — Figuras Elementares da Reciprocidade e de Édipo Mimético, ambos publicados pela É Realizações. Este artigo foi publicado originalmente no site da Fundação Imitatio.

O desejo “metafísico”

Continuando a série sobre noções básicas girardianas, vamos apresentar a ideia de desejo “metafísico”, que é discutida longamente no capítulo “Os homens serão deuses uns para os outros”, o segundo de Mentira romântica e verdade romanesca, e rediscutida e mencionada em diversos outros pontos da obra de René Girard.

Como de costume, a noção é simples, mas permite aplicações sofisticadas. Podemos dizer que existe no desejo mimético um aspecto “metafísico” porque ele, em última instância, volta-se não para um objeto, mas para o ser do modelo que o designa. Descendo à banalidade, pense no seguinte: você enxerga pessoas com seus smartphones, e pensa que elas são conectadas, felizes e eficientes; o que você deseja é ser, como elas, conectado, feliz e eficiente, e o smartphone é apenas um instrumento para isso. Tanto é que você sabe que, após adquirir o seu objeto de desejo, o mundo mágico em que você esperava adentrar não se materializa; você apenas transfere sua expectativa para outro objeto.

(É claro que você pode querer possuir um smartphone por razões puramente utilitárias; não é disso que estamos falando. Mas mesmo uma escolha primariamente utilitária pode ser influenciada pelo mimetismo — na escolha do modelo de smartphone, por exemplo.)

O ensaio “From the Novelistic Experience to the Oedipal Myth”, de Oedipus Unbound (Stanford: Stanford University Press), inicia exatamente com a frase: “O desejo não é deste mundo… É para entrar em outro mundo que se deseja” (p. 1). Ou, no mesmo “Os homens serão deuses…”: “Todos os heróis de romance esperam da posse [do objeto] uma metamorfose radical de seu ser. (…) O objeto constitui-se apenas num meio de alcançar o mediador; é o ser desse mediador que o desejo almeja.” E, logo em seguida, valendo-se do exemplo do Proust de Em busca do tempo perdido, Girard explica que o narrador da obra sempre deseja ser iniciado numa nova vida — “vida de esportes, vida rústica, vida ‘desregrada’” — a cada vez que conhece uma pessoa interessante.

Vale a pena observar que o aspecto “metafísico” do desejo mimético está presente tanto na mediação externa quanto na interna. Nas duas, o sujeito percebe a si mesmo como alguém carente de ser, alguém cuja existência é pobre, mesquinha. A existência do outro é que é mais rica e mais plena. A diferença, como observamos, é que na mediação externa o sujeito admite que a superioridade do modelo, e, na interna, não admite.

Agora, o caráter “metafísico” do desejo está associado a dois outros fenômenos.

O primeiro deles é a tendência — enfatizemos: tendência — ao desaparecimento do objeto. O desaparecimento, por sua vez, pode indicar a irrelevância. A explicação em simples: como o que na verdade se deseja é o ser do outro, o objeto que o outro designa como desejável tende a tornar-se irrelevante. Contudo, é importantíssimo observar que, numa rivalidade produtiva, como aquela entre Picasso e Matisse discutida no artigo do prof. João Cezar de Castro Rocha com que iniciamos este blog, o objeto nunca se torna irrelevante.

Existem algumas maneiras de um objeto tender à irrelevância. Na mediação interna, por exemplo, uma rivalidade pode fazer com que os rivais prestem cada vez mais atenção um no outro, o que parece ilustrado por uma fórmula popular: “o que é que ela/ele tem que eu não tenho?”, isso é, o que há no ser dela ou dele? Num grau ainda mais avançado, um rival pode contentar-se não com a posse do objeto designado, mas com o aniquilamento do outro. (E, mesmo nesse caso, pode não se sentir “contente” em sentido mais estrito.) Um dos segmentos do filme Relatos Selvagens mostra exatamente isso: o que começa com uma simples disputa pela dianteira na estrada termina com a pura vontade de aniquilação, quando o objeto (a dianteira na estrada) já perdeu qualquer relevância.

Por outro lado, tanto na mediação interna quanto na externa, o sujeito pode perceber que a posse do objeto não lhe trouxe a vida nova tão sonhada. Se “o desejo não é deste mundo”, o objeto pode rapidamente revelar-se parte deste mundo aqui, com toda a sua banalidade. Seja adquirindo uma capacidade igual à de outro, comprando aquele smartphone com que iniciamos o texto, passando em primeiro lugar num concurso, o poder do objeto de fazer com que sintamos que passamos a uma esfera superior da existência tende a esvanecer-se com uma rapidez muitas vezes assustadora. O desejo, porém, permanece: podemos pular de um objeto a outro, e, como no exemplo de Proust dado por Girard, ora querermos ser esportistas, ora querermos a vida “desregrada” etc. Podemos desejar um smartphone, um livro, uma viagem, o que for. E não custa observar que a internet presta-se maravilhosamente a essa modalidade do desejo: podemos passar horas apenas contemplando possibilidades que seriam dadas pelos objetos x, y ou z.

Quando eu tinha uns vinte anos, li um livro muito conhecido: Ter ou ser?, de Erich Fromm. Ainda hoje encontramos, no jornalismo, na auto-ajuda em suas diversas modalidades (sem preconceitos: estoicismo e Padres da Igreja também podem ser chamados de “auto-ajuda”), essa oposição, que pode ser formulada como uma oposição à atitude aquisitiva, que deve ser trocada pelo cultivo de qualidades. A solução da auto-ajuda pode ser boa, mas a oposição entre ter e ser é falsa, porque ao buscar ter qualquer coisa nós na verdade esperamos que essa coisa modifique o nosso ser. Queremos “ter” para “ser”, e não por outra razão. Mesmo assim, a ideia de cultivar qualidades tem a virtude de lidar com o aspecto metafísico do desejo mais diretamente.

Também vemos o aspecto metafísico do desejo nos momentos em que Girard fala da vontade de “canibalizar” o outro — isso é, de absorver seu ser. Mesmo quando se fala do canibalismo ritual, não-metafórico, algo do aspecto metafísico do desejo está em jogo, mas entrar nessa questão já nos traria complicações muito além do escopo pretendido deste post.

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