Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: Sacrifício

Ainda o bode expiatório

Tenho recebido diversas perguntas e creio que vale a pena insistir no tema do bode expiatório. Não preciso repisar o clichê que fala de como vamos refinando nossas ideias na discussão com os outros, mas talvez caiba enfatizar que esse refinamento só é possível quando a rivalidade não dá o tom de uma discussão. Provavelmente, e este é um tema que merecia ser explorado, o caminho do discurso científico, do diálogo platônico à escolástica medieval e à formalização lógica, é o caminho da remoção da rivalidade do campo do discurso. (O que, é claro, não exclui a possibilidade de que os cientistas e filósofos sejam movidos pela rivalidade; eles apenas não podem formular seus discursos como discursos de rivalidade porque precisam atender a diversos protocolos consensuais.)

Voltando, então, ao tema do bode expiatório, falemos sobre a confusão que há no próprio termo “bode expiatório”.

Um homem chega em casa irritado e dá um chute no cachorro e briga com a mulher. O cachorro e a mulher são bodes expiatórios, e ninguém precisa de René Girard para entender isso. Esse é o sentido comum e corrente da expressão “bode expiatório”, que tem equivalentes na língua, como “boi de piranha” ou “ser pego para Cristo”. Qualquer pessoa sabe que esses bodes expiatórios são alvos da violência que servem para apaziguá-la enquanto a verdadeira causa das rivalidades permanece intocada.

Imagine agora que você perceba que existem classes inteiras de pessoas que tradicionalmente são os “bois de piranha” das situações de que participam. Imagine ainda que você perceba que essas pessoas possuem certas marcas que estão correlacionadas com a perseguição. Essas pessoas são bodes expiatórios em sentido corrente. Mas não são bodes expiatórios no sentido de serem vítimas sacrificiais, pela simples razão de que nem toda violência é um sacrifício.

O sacrifício, dentro da teoria girardiana, é a reencenação do assassinato fundador. Se um marido, num acesso de fúria, mata sua esposa indefesa, nem por isso ela se torna uma vítima sacrificial. Seria preciso de certo modo envolver toda uma comunidade nesse assassinato e convencê-la da necessidade de matar outra mulher do mesmo jeito para que essa segunda mulher fosse uma vítima sacrificial. A primeira vítima teria sido a vítima do assassinato fundador.

Se hoje em dia vemos o tempo todo fenômenos como linchamentos virtuais e assassinato de reputações, o que temos são instâncias de perseguição, não de “sacrifício”. Para que houvesse sacrifício, seria preciso que uma coletividade acreditasse no caráter ambíguo da vítima, que seria transgressora e pacificadora ao mesmo tempo. E, no entanto, os perseguidores modernos não ficam em paz. Não seguem rigorosas prescrições rituais que pretendem afastar a culpa da comunidade e manter o clima de “nothing personal, just business” do sacrifício. Antes, se alguém der uma declaração infeliz qualquer, essa pessoa perderá, para seus perseguidores, os direitos mais básicos. Exatamente como uma mulher perde as liberdades mais básicas quando está nas mãos de um marido violento.

Não se trata, ainda, de falar em “resquícios do arcaico” na sociedade moderna, mas de pensar que o ser humano é violento. Pela teoria mimética, somos miméticos; sendo miméticos, queremos o que o outro possui e, em última instância, o próprio ser do outro. Por isso estamos dispostos à violência. Agora, essa violência seguia um caminho: se uma perseguição trazia paz a uma comunidade, poderia ser formalizada como ritual. As escrituras judaico-cristãs parodiaram os mitos, que são as violências contadas desde o ponto de vista dos perseguidores, e assim revelaram a inocência da vítima.

Agora, o nosso já famoso marido que chega em casa irritado não culpa a mulher diretamente pelo que aconteceu fora de casa. Vai dizer que ela não fez X, que ela é Y, ou que fez Z que o deixou assim e assado e portanto ele virou vítima da situação ruim que o deixa irritado. O marido sinceramente crê na culpa da esposa. As escrituras judaico-cristãs dizem: você é um perseguidor e deve abdicar da violência. Analogamente, se há um ritual sacrificial, as escrituras dizem: Deus não quer o sacrifício de vítimas inocentes. E, aliás, como essa vítima era inocente, você não pode culpá-la.

O paradoxo apocalíptico é termos permanecido violentos ao mesmo tempo que as justificativas tradicionais da violência perderam credibilidade. As perseguições não podem transformar-se em rituais porque sabemos que são perseguições, não eventos misteriosos, “míticos”, que marcam o momento em que as rivalidades internas das comunidades se dissiparam.

Com isso não tudo não vamos censurar a linguagem corrente por usar termos como “sacrifício” e “bode expiatório” sem rigor. Aqui, porém, pretendemos ser rigorosos, e realmente entender o que se passa. Para isso é preciso fazer diversas discriminações entre os usos dos termos.

Respostas a um comentário sobre o bode expiatório

O leitor Lisandro Gaertner deixou um comentário num post há menos de duas semanas. Vale a pena comentar o comentário, a fim de esclarecer pontos importantes da teoria de René Girard.

É importante começar com um esclarecimento inicial. Como Girard ressalta em Evolução e Conversão, a hipótese sobre o bode expiatório é uma hipótese sobre um processo que se dá na realidade concreta e não simbólica; aliás, é por dar-se na realidade concreta que ele pode dar origem a uma realidade simbólica. Para Girard, houve entre grupos de hominídeos um assassinato coletivo; aqueles grupos de hominídeos que foram capazes de reproduzir esse assassinato com outras vítimas, ritualizando-o, foram capazes de sobreviver, por ter encontrado um método para conter suas violências endógenas. A vítima do assassinato primeiro é culpada da desordem na sociedade e, ao restabelecer a paz com sua morte (e por restabelecer a paz com sua morte, num processo que parece misterioso aos envolvidos), é em seguida divinizada. Além disso, como observou o professor Jean-Pierre Dupuy na Escola de Inverno René Girard, apenas a violência ritual é observável; esse assassinato fundador não pode ser observado, permanecendo uma hipótese.

Se existem processos culturais hoje que aparentemente seguem o mecanismo do bode expiatório, como o assassinato de reputações, é importante observar que a relação entre esses processos é apenas de analogia. As pessoas que creem na transgressão daquele que teve a reputação assassinada não passam a adorá-lo depois. Ele não é morto fisicamente. Se você disser que a cultura de certas instituições condena certas transgressões de maneira totalmente injusta, nem por isso as vítimas dessas injustiças passam a ser deuses dessas instituições.

No plano da violência física propriamente dita, se acontece um linchamento, a polícia age e ele não passa a ser ritualizado, até porque nós já temos o rito judicial, que substitui o rito segundo o mecanismo do bode expiatório.

Uma vítima de uma violência histórica também não é um bode expiatório em sentido estrito. Pensemos nas mulheres queimadas como bruxas: elas teriam de passar a ser divinizadas pelas mesmas pessoas que as queimaram (não o mesmo grupo de pessoas, historicamente considerado, mas os mesmos indivíduos, materialmente falando) para serem bodes expiatórios girardianos.

Assim, se é razoável dizer que existem resquícios do mecanismo na cultura “civilizada” moderna e contemporânea, não é razoável dizer que o mecanismo esteja em plena atividade. O que está em plena atividade é a violência, que, não podendo ser canalizada pelo mecanismo, dá a impressão de ser aleatória.

Agora passo à resposta ao comentário, o qual contém cinco pontos de destaque.

1. O bode expiatório “tira a culpa” dos que o sacrificaram.

Se tomarmos a Paixão de Cristo como modelo do desvelamento do mecanismo, veremos que Cristo pediu ao Pai que perdoasse a multidão, pois ela não sabia o que fazia. Além disso, a palavra “culpa” traz algumas complicações. A culpa parece uma carga moral negativa, um estigma, associado a uma certa responsabilidade. A responsabilidade não pode ser retirada. Cristo, porém, pode retirar as culpas, mas enquanto Cristo, um bode expiatório particular. O bode expiatório das culturas primitivas apazigua a violência durante um certo tempo, o que é outra coisa. Cristo, porém, admite que as pessoas estão arrebatadas (em Eu Via Satanás Cair como um Relâmpago, Girard usa o termo “emballement mimétique”, ou “arrebatamento mimético”) pelo mimetismo violento e veio para oferecer-lhes uma alternativa, mostrando-nos que os bodes expiatórios são inocentes.

2. A violência “sem propósito” precisa ser justificada.

Sim, mas isso é uma percepção subjetiva diante da violência que não veio justificada. Perdoem-me se pareço tautológico. Diversas vezes aqui no blog se ressaltou, especialmente nas resenhas da Júlia Reyes, que o bode expiatório é sacrificado de maneira a que todos sejam responsáveis, inclusive para impedir a possibilidade de vingança. Claro que esse bode expiatório era filho, irmão, primo, amante de alguém. Ou já não era, já tinha sido “purificado” das relações a fim de tornar-se uma vítima propiciatória que vai apaziguar o deus, isto é, que vai apaziguar a violência na comunidade, porque ninguém clamará por vingança, denunciando o sacrifício como mero assassinato. Por isso, para haver bode expiatório em sentido estrito, é preciso acreditar na justiça e na necessidade do sacrifício de antemão. A necessidade de justificação a posteriori já é um sinal claro de que não há vítima expiatória, mas apenas a vítima de um assassinato.

Vejamos bem que o próprio vocabulário pode dificultar. A palavra “sacrifício” representou um obstáculo ao próprio René Girard por designar, dentro de sua teoria, posições opostas (o oferecimento da própria vida e a violência contra o outro), e a palavra vítima pode designar o bode expiatório no sentido mais estrito e um coitado que receba uma bala perdida. São todos vítimas, mas não do mesmo processo.

4. No caso do genocídio do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial, houve um “irracional genocídio ressignificado como holocausto”.

Não creio que o genocídio do povo judeu seja diminuído pela alegação de que ele não é exatamente irracional, mas baseado numa premissa falsa: os judeus são culpados. O falso pode ser racional; os nazistas não tinham preconceitos, mas conceitos falsos que serviram para justificar uma violência pouco moderada pela razão. O genocídio do povo judeu no século XX veio a ser conhecido como “holocausto” provavelmente porque, como um sacrifício, ele pareceu seguir uma certa racionalidade, com campos de extermínio etc., ainda que essa seja uma racionalidade escandalosa para as pessoas razoáveis. No entanto, desde a década de 1940 o termo usado entre os judeus para referir essa perseguição específica é shoah, que pode ser traduzido como “catástrofe”. O uso de shoah tem justamente o objetivo de afastar as conotações sacrificiais dessa violência. Nesse ponto voltamos ao entendimento do genocídio como algo irracional — uma “catástrofe”.

A questão de “holocausto” x shoah é interessante porque dizer que o genocídio judeu foi um holocausto significa dizer que ele foi um sacrifício e que portanto ele teve certa legitimidade dentro da cultura em que foi realizado. Dizer que foi uma catástrofe significa assumir duplamente o ponto de vista das vítimas: primeiro, porque esse é o termo que elas usam; segundo, porque retira a legitimidade “sacrificial” da violência sofrida.

5. “O sacrifício do bode expiatório não seria libertador tanto para os vitimizadores quanto para os vitimizados?”

Dentro do mecanismo em sentido estrito, o bode expiatório, sendo uma vítima humana, não seria “libertada”. No entanto, ela e seus parentes teriam de acreditar na legitimidade do sacrifício. A comunidade inteira é que se julgaria livre da ira do deus, ou de algum mal supostamente sobrenatural, mas que na verdade consistiria na crise mimética e em seus efeitos colaterais. Seria mais razoável dizer que o mecanismo do bode expiatório é “restaurador” e não “libertador”. As escrituras judaico-cristãs é que podem libertar o homem do mecanismo ao mostrá-lo e, com isso, retirar sua eficácia. No entanto, como o próprio Girard insiste, principalmente em Rematar Clausewitz, essa liberdade inclui riscos tremendos.

O bode expiatório

Na teoria girardiana, existe um ambiguidade proposital na expressão “bode expiatório” que deriva diretamente da maneira como ela é usada na língua comum. Se dizemos que alguém é um bode expiatório, então estamos dizendo que esse alguém é um bode expiatório de outras pessoas, que acreditam de fato na culpa desse bode expiatório. Ou seja: para nós, esse alguém é um bode expiatório, alguém inocente, porém considerado culpado; para os outros, esse alguém é de fato culpado.

Ao escrever os posts sobre o filme O Cavaleiro das Trevas, observei aqui no blog que sua apreciação dependia justamente dessa ambiguidade. O público do filme sabe que o Batman é inocente, porque vê a história do Batman contada a partir do ponto de vista do Batman; o público da cidade de Gotham não conhece a história íntima e por isso acredita na culpa do Batman. A bem da verdade, boa parte do cinema de hoje em dia se baseia nessa ambiguidade, nesse convite: “entenda, público de fora da obra, que o que você vê será visto de maneira inversa pelo público de dentro da obra”.

René Girard principia o livro O Bode Expiatório com uma discussão de um texto de perseguição medieval, um poema de Guillaume de Machaut no qual os judeus são acusados de envenenar a água de uma cidade. Hoje, lendo o texto, sabemos que os judeus são inocentes. Não conseguimos acreditar na acusação, que nos parece estapafúrdia demais. Contudo, ao dizer que o poema de Machaut era um “texto de perseguição”, eu já tinha dado a entender a inocência dos judeus.

Aliás, Quando hoje se diz que alguma coisa é hate speech, o que motiva essa categorização? A perpetuação de estereótipos que justificam violências ou perseguições contra pessoas inocentes (daquilo de que são acusadas). Existe uma relação cultural direta entre a consciência progressiva da vitimação, trazida pela cultura judaico-cristã, e movimentos que pretendem apartar-se dessa mesma cultura.

***

Após essas considerações, cabe fazer ainda outras distinções, e nisto essencialmente repetirei o que disse o prof. Jean-Pierre Dupuy há duas semanas, na Escola de Inverno René Girard.

Em A Violência e o Sagrado, existem dois momentos distintos da violência: o assassinato e o sacrifício, que correspondem, por sua vez, ao linchamento e ao rito.

Girard julga que o mecanismo do bode expiatório é um mecanismo encontrado por grupos primitivos de hominídeos para conter sua violência interna. Seria, portanto, uma vantagem evolutiva. Após um linchamento, esses grupos teriam conseguido perceber que sua repetição encenada, o rito, poderia apaziguar os ânimos.

Haveria então o primeiro momento, de todos contra todos, em que a violência acaba se dirigindo sem deliberação para uma única pessoa: trata-se do linchamento, do assassinato.

No segundo momento, a violência é dirigida de maneira deliberada para uma única pessoa: trata-se do ritual, do sacrifício.

Para nós, modernos, de cultura cristã, a expressão corrente “bode expiatório” pode ser aplicada às duas vítimas, porque as duas são inocentes do crime de que são acusadas. No entanto, ao dizer que a cultura humana se baseia no rito e portanto no sacrifício e no bode expiatório, estamos falando do segundo tipo de vítima.

E sim, claro que todo sacrifício humano é um assassinato, mas nem todo assassinato é um sacrifício.

É equivocado, é claro, tratar uma minoria perseguida como bode expiatório nesse segundo sentido, que é menos abrangente. Mesmo que se fale em violência “estrutural”, ou numa violência perpetuada por costumes, ela será sempre metafórica em comparação à violência ritualizada de uma cultura arcaica. Sem contar que certos grupos tratados como vítimas não são vítimas da violência, mas, como bem assinala Jean-Pierre Dupuy, vítimas da indiferença.

Para voltarmos a O Cavaleiro das Trevas, podemos dizer que a persistência do tema do bode expiatório se deve ao sentimento de indignação que muitos de nós, numa cultura cristianizada (e por “cristianizada” quero dizer: uma cultura de defesa das vítimas), sentimos diante da persistência de perseguições e de violências contra pessoas inocentes dos crimes dos quais são acusadas.

O desafio lançado pela cultura judaico-cristã, no entanto, e que vai marcar a experiência da “conversão romanesca” em sentido girardiano, é a vivência subjetiva de sermos nós mesmos perseguidores. Para nós, é fácil adotarmos o ponto de vista do perseguido; entender quando e onde perseguimos, porém, é difícil, porque, como sabemos, da própria noção moderna de bode expiatório sai a frase sempre repetida por Girard: ter um bode expiatório é não saber que se tem um bode expiatório.

Ainda a inexistência do “pensamento não-sacrificial”

Nota: estamos em plena Escola de Inverno René Girard, onde vamos discutir a nota acrescentada à edição recente dos três primeiros livros de Girard com o título De la Violence à la divinité. Assim, traduzimos a nota, publicada na página 1001 da obra (Paris: Grasset, 2007), e remetemos o leitor a uma discussão mais ampla do tema, feita pelo próprio Girard em Evolução e Conversão e já destacada no blog.

A oposição entre um pensamento “sacrificial”, sempre infiel à inspiração evangélica e um “pensamento não-sacrificial”, o único fiel, pelo contrário, a essa mesma inspiração, reflete uma última ilusão humanista e “progressista” em minha interpretação do cristianismo. Apenas livrei-me dessa ilusão após a publicação original do presente livro [Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo]. A meus olhos, aliás, a verdadeira oposição entre o cristianismo e a religião arcaica deve ser definida como a oposição entre o sacrifício de si e o sacrifício de outro. Essa oposição define perfeitamente a relação entre o sacrifício arcaico, fundado no assassinato fundador, aquele que reclama imolações rituais, e o sacrifício de Jesus nos Evangelhos, o dom de si na crucifixão. O sentido cristão está sempre presente, ao menos de maneira implícita, no sentido mais corrente da palavra “sacrifício” em nossos dias, o sentido de uma renúncia ao objeto desejado, de uma privação que impomos a nós mesmos, de uma mortificação, não necessariamente neurótica, por ser a única capaz de, sem violência, findar as rivalidade miméticas. Essa última definição corresponde perfeitamente, no julgamento de Salomão, à oposição entre a prostituta má, aquela que aceita o assassinato do bebê para apaziguar sua paixão mimética, e a boa prostituta, que sacrifica até seu amor maternal, sacrificando-se a si mesma por conseguinte, em nome da sobrevivência desse bebê. A boa prostituta sacrifica-se para que o bebê viva e seu sacrifício corresponde admiravelmente ao do Cristo, que sacrifica a própria vida para fazer a vontade do pai e salvar a humanidade, não apenas morrendo por nós, mas, pelo mesmo ato, esclarecendo-nos quanto a nossa própria violência. A fim de refleti-la em sua exatidão, modifiquei algumas frases essenciais do presente livro. Como não tenho nenhuma vontade, aliás, de dissimular, nem sobre esse assunto, nem sobre nenhum outro, as variações no meu pensamento, deixei outras frases como estavam. Espero que os leitores não tenham muita dificuldade de destinchar a mistura. Também eliminei da presente reedição algumas passagens geralmente muito breves que deixaram de convencer-me, ou que jamais me convenceram, destacando-se uma opinião absurdamente negativa sobre a Epístola aos Hebreus. Hoje repudio essa leitura. Ela jamais refletiu em mim nada além de um gesto de recuo deveras efêmero, ao fim de análises mais cansativas do que o previsto, sob a perspectiva de análises suplementares. Para desculpar certas fantasias, certas imprecisões de linguagem na edição original da presente obra, não posso fazer mais do que recordar a atmosfera festiva e até um pouco mágica que reinava em Baltimore, no estado de Maryland, entre Jean-Michel Oughourlian, Guy Leffort e eu mesmo, durante o tórrido mas glorioso verão de 1977, inteiramente consagrado por nós à redação de Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo.

O julgamento de Salomão: uma importante virada epistemológica

Em 2007, foi publicado na França o volume De la Violence à la divinité, que reúne os textos franceses de Mentira Romântica e Verdade Romanesca, de A Violência e o Sagrado e de Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo. Na página 1001, na seção de Coisas Ocultas que se chama “Do sacrifício do outro ao sacrifício de si”, uma longa nota de rodapé, que ocupa quase toda a mancha gráfica, explica não apenas que algumas frases do texto original foram modificadas na versão de 2007, mas também a razão dessa modificação.

Trata-se de uma virada epistemológico fundamental no pensamento de René Girard, que merece ser destacada no blog por uma razão simples: mais de uma vez, ao longo de diversos anos, notei que o fundamento de certas críticas às posições religiosas de René Girard dizia respeito justamente a esse ponto, fulcral. Ainda ao final de Teatro da inveja encontramos a mesma posição antiga defendida. É em Um Longo Argumento do Princípio ao Fim, de 2000, hoje republicado em versão ampliada como Evolução e Conversão, que Girard apresenta essa importante virada epistemológica, a mesma que é explicada, em versão mais resumida, na coletânea francesa de 2007.

Fiquemos, então, com René Girard, entrevistado por João Cezar de Castro Rocha e Pierpaolo Antonello (Evolução e Conversão. Trad. Bluma Haddington e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2011, pp. 233–237):

O julgamento de Salomão e o espaço não-sacrificial

Como já foi sugerido, o julgamento de Salomão é um dos mais poderosos textos antissacrificiais do Antigo Testamento, e central no desenvolvimento de seu argumento em Coisas Ocultas, no qual o senhor tentou definir a possibilidade de um espaço não sacrificial.1

É verdade. Coisas Ocultas construiu-se inteiro com base naquele texto, que desempenha um papel essencial em minha reflexão sobre o sacrifício. Como sabem, no texto há duas prostitutas que lutam por uma criança, ambas alegam diante de Salomão que a outra a roubou. Então Salomão traz a espada e ameaça partir a criança entre as mulheres. Uma delas aceita, enquanto a outra prefere desistir de seu filho, a fim de salvá-lo. Isso sempre me pareceu profético em relação ao Cristo, no sentido mais elevado. Na Idade Média, viam a figura de Cristo não na prostituta bondosa, mas em Salomão. A situação humana fundamental é a de um julgamento de Salomão sem Salomão algum! Em Coisas Ocultas, argumento que não se pode usar o mesmo termo para caracterizar a atitude de ambas as prostitutas. A prostituta má aceita o sacrifício sanguinário, homicida, e a outra o recusa. Na época, preferi não dizer que esta sacrifica a si mesma porque ainda temia que interpretassem suas ações como “masoquismo”. Não se pode considerar masoquista a mulher disposta a morrer por seu filho, simplesmente porque ela deseja salvá-lo. O texto afirma o tempo todo que ela desiste do filho para que ele viva. Portanto, não está seduzida pela morte, mas ama a vida e se dispõe a morrer apenas para poupar o filho. É nisso que consiste o verdadeiro sentido do sacrifício de Cristo.

Conforme escrevi em Coisas Ocultas, não vejo diferença maior do que a existente entre aquelas duas atitudes, daí não ter utilizado a mesma palavra para descrevê-las. Uma vez que o sentido do sacrifício como imolação, assassinato, é o antigo, decidi que o termo “sacrifício” deveria aplicar-se ao primeiro tipo, o sacrifício criminoso. Hoje mudei de ideia. A distância entre as duas atitudes permanece infinita, não resta dúvida; e é a diferença entre o sacrifício arcaico, que se volta contra um terceiro, tomando-o como vítima daqueles que estão lutando, e o sacrifício cristão, que é a renúncia de toda afirmação egoísta, inclusive da vida, se necessário, a fim de não matar.

Na verdade, as duas ações estão justapostas na mesma história.

Aí reside o ponto decisivo: porque uma semelhança também está em jogo. Se empregarmos o termo “sacrifício” no caso da prostituta bondosa, isso não significa que não poderemos utilizá-lo no caso da outra. Coisas Ocultas ainda foi escrito do ponto de vista da antropologia e, portanto, o cristianismo parece um tipo de “suplemento” em vez de converter tudo a sua perspectiva. Hoje escreveria o mesmo livro do ponto de vista dos Evangelhos, mostrando que veem a mulher má e o mau sacrifício como metáfora da inabilidade do ser humano para evitar a violência sem sacrificar os outros. Cristo, mediante seu sacrifício, liberta-nos dessa necessidade. E assim posso usar o termo “sacrifício” para nomear o ato de sacrificar a si mesmo como fez Cristo. Torna-se viável então dizer que, a seu próprio modo imperfeito, o primitivo, o arcaico é profético em relação ao Cristo. Não se pode encontrar diferença maior: de um lado, o sacrifício como assassinato; de outro, o sacrifício como disposição para morrer a fim de não tomar parte naquela primeira modalidade de sacrifício. Opõem-se radicalmente um ao outro, sendo contudo inseparáveis. Inexiste um espaço não sacrificial intermediário, de onde possamos descrever tudo com um olhar neutro. A história moral da humanidade é a passagem do primeiro sentido para o segundo, realizada por Cristo, mas não pela humanidade, que fez de tudo para escapar desse dilema e, sobretudo, para não vê-lo.

Essa mudança de perspectiva na sua teoria é ainda mais evidente quando comparada com o debate que o senhor teve com os teólogos da libertação em 1990 no Brasil. Franz Hinkelammert distinguiu os conceitos de “não sacrificial” e de “antissacrificial” para sugerir: “Será que realmente compreendemos o pensamento de Girard se o definimos como antissacrificial? Acho que não, porque seu pensa- mento é não sacrificial… A posição antissacrificial pode ser extremamente sacrificial”.2

Lembro dessa discussão e acho que ele está certo. Escrevi um artigo a respeito de minha posição mais recente sobre o assunto, que foi publicado em um volume em homenagem a Raymund Schwager3. Schwager, como eu, acha que precisamos ver um fenômeno espontâneo de bode expiatório por trás da crucificação, e também por trás dos mitos. Toda a diferença está no reconhecimento desse fenômeno, que não pode ser encontrado nos mitos, mas que está presente nos Evangelhos. Mas a coisa mais extraordinária dos Evangelhos é que esse reconhecimento vem do próprio Cristo, e não dos evangelistas, que fazem tudo que podem para seguir Cristo, o que conseguiram fazer, de modo geral.

Gostaria de escrever uma interpretação inteiramente cristã da história da religião que se confundiria, na verdade, com a história do sacrifício. Nessa interpretação, as religiões arcaicas são as verdadeiras responsáveis por educar a humanidade, levando-a a abandonar a violência arcaica. Então, Deus torna-se vítima, a fim de libertar o homem da ilusão de um Deus violento, ilusão essa que precisava ser desfeita, em favor da compreensão que Jesus tem do Pai. As religiões arcaicas podem ser vistas como um estágio anterior em uma progressiva revelação que culmina no Cristo. Assim, devemos concordar com os que dizem ser a Eucaristia oriunda do canibalismo arcaico: em vez de dizer “não”, temos de dizer “sim”! A verdadeira história do homem é sua história religiosa, que remonta até o primitivo canibalismo, este também um fenômeno religioso. E a Eucaristia o incorpora, pois recapitula aquela história de alfa a ômega. Tudo isso é essencial. Ao compreendê-lo, dá-se um reconhecimento de que a história do homem inclui um início homicida: Caim e Abel. Em suma, não dispomos de um espaço perfeitamente não sacrificial. Ao escrever A Violência e o Sagrado e Coisas Ocultas, eu estava tentando encontrar esse espaço no qual poderíamos compreender e explicar tudo sem envolvimento pessoal. Agora sei que tal empreitada não pode ser bem-sucedida.


  1. 1 Reis 3, 16–28. Ver Girard, Coisas Ocultas, p. 285–93.

  2. Franz Hinkelammert. In: Hugo Assmann, René Girard com Teólogos da Libertação. Um Diálogo sobre Ídolos e Sacrifícios. Petrópolis, Vozes, 1991, p. 42.

  3. René Girard, “Mimetische Theorie und Theologie”. In: Joseph Niewiadomski e Wolfgang Palaver (orgs.), Vom Fluch und Segen der Sündenböcke. Thaur-Vienna, Kulturverlag, 1995, p. 15–20. Também em Girard, Celui par qui le Scandale Arrive, p. 63 ss.

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