Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

Tag: sentimentalismo

Heróis Perseguidos, 3: Lúcia, de Lucíola

A sensibilidade oitocentista já estava inteiramente voltada para a simpatia para com as vítimas. Passando ao Brasil, vamos examinar um dos mais famosos romances de José de Alencar, um verdadeiro clássico dos bancos escolares: Lucíola.

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Lúcia, a protagonista feminina de Lucíola (1862), de José de Alencar (São Paulo: Saraiva, Coleção Saraiva de Bolso, 2012), apesar de certamente não poder figurar num romance de Jane Austen, poderia aparecer num de Victor Hugo: assim como Fantine, a mãe da Cosette de Os Miseráveis, Lúcia é obrigada a prostituir-se para sobreviver.

A prostituta é um figura quase caricatural, quase paradigmática. Primeiro, por ser estigmatizada e por isso pertencer a uma camada marginal1. Segundo, porque, sendo estigmatizada, o paradoxo só aumenta o desejo: ela é proibida por ser desejável e disponível mediante pagamento. Terceiro, ela é desejável por trabalhar diretamente com o desejo. Espera-se da prostituta que transmita aquela intensidade de experiência que a arte pretende imitar. Espera-se dela uma experiência homérica.

Lúcia, além de prostituta, além de linda, é, como diz o bilhete ao autor escrito por “G.M.” com que o livro se inicia, “musa cristã” (p. 19). Musa cristã porque prostituiu-se aos quatorze anos para salvar os familiares da doença e tem uma consciência pesadíssima — o que sinaliza para o leitor a virtude moral, mesmo que ela, no capítulo XIX, em que revela sua triste história a Paulo, seu amante e narrador do livro, diga que a palavra virtude soe como “uma profanação” (p. 150) em seus lábios; Paulo mesmo se encarregará de encerrar o capítulo dizendo que ela é “um anjo!” (p. 161).

Alencar manipula a simpatia do leitor a partir da perspectiva de Paulo, narrador e protagonista masculino, rapaz que troca sua Recife natal por uma nova cidade, a capital do Império (lembremos da frase de Girard: “o desejo não é deste mundo”) e apaixona-se por uma prostituta. As descrições detalhadas servem para que compreendamos esse amor, para que tenhamos o mesmo desejo. Como evitar o interesse pela figura central do luxuriante jantar que perpassa os capítulos VI, VII e VIII, que se encerra com a representação ao vivo, por Lúcia, das poses devassas dos quadros pendurados nas paredes? Curioso voyeur como o leitor, Paulo olha o que acontece e descreve ricamente; demonstrando sua decência para identificar-se com o público em público, afasta-se após testemunhar o mais interessante, indo buscar o ar da noite.

A partir desse ponto, a narrativa segue os altos e baixos dos sentimentos de Paulo, que luta consigo mesmo por estar esperando a fidelidade de uma prostituta. Ora ele está no céu, nos braços de Lúcia; ora está no inferno, vagando pela cidade, quando está de mal com ela. O leitor também passa por essa alternância de desejo, e o suspense que vai sendo criado diz respeito à necessidade de uma explicação para o comportamento de Lúcia. Essa explicação — prostituiu-se por necessidade — pode fazer com que ela pareça “um anjo” aos olhos de Paulo, e teria, dramaticamente, uma função de catarse daquela tensão. Tanto é que, depois dela, os incidentes do romance parecem um epílogo, e nem são muito condizentes com o que esperaríamos do exemplo da virtude redimida. Afinal, a própria Lúcia, aquele “anjo” com ponto de exclamação, a “musa cristã” cujo verdadeiro nome é Maria, fala, referindo-se ao filho, de “quanto horror me causava a só ideia de que eu talvez trouxesse já nas entranhas o verme que me devia roer as vísceras” (p. 163).

Contudo, após essa revelação, temos uma cena que é uma repetição estrutural de outras cenas de O Guarani. Um dos primeiros personagens a aparecer no romance é o Couto, antigo cliente de Lúcia e anfitrião daquele suntuoso e luxuriante jantar. Sabendo que Lúcia retirou-se, após ter servido-se dela, fica ressentido, e vai até sua nova casa, afastada da cidade, com o puro propósito de persegui-la, lançando-lhe o estigma da prostituição. Passemos ao momento em que Lúcia estaria estabelecendo boas relações com seus vizinhos, segundo a narração de Paulo:

O grupo parou a alguma distância; eu reconheci o Couto no momento em que se adiantava com um movimento de espanto. Corri para fazer Lúcia retirar-se antes de vê-lo; mas estava distante, e quando cheguei, já a mais velha das moças se tinha aproximado, e arrancando a pulseira das mãos de sua irmã, atirou-a por cima da grade:

— Não toques em coisa que pertença a esta mulher! É uma perdida! (p. 157–158)

A essa altura, já temos simpatia demais por Lúcia para não ficarmos do lado dela diante desse sofrimento imerecido; por pecadora que seja, estamos mais dispostos a vê-la como um figura cristã, ou mesmo crística, perseguida pela multidão — o “grupo” que, como diz Cristo na cruz, “não sabe o que faz” (Lucas 23, 34) —, do que efetivamente como uma “perdida”.

E de fato o comentário final de Lúcia não apenas repete as palavras de Cristo crucificado como ainda confirma a ideia, típica do sentimentalismo inglês, de que, a nobreza da alma é mais importante do que a nobreza de sangue:

— Elas não sabem, como tu, que eu tenho outra virgindade, a virgindade do coração! Perdoa-lhes, Paulo.

E o sorriso, que banhou estas palavras como de uma luz divina, parecia abrir o céu aos arroubos de sua alma. (p. 158)


  1. Mesmo considerando o atual fetiche brasileiro com prostitutas, de Bruno Surfistinha a personagens televisivos, ainda parece difícil imaginar alguém apresentando aos pais sua noiva, que continua trabalhando nesse ramo, como se não houvesse qualquer tabu

Heróis Perseguidos, 1: A Simpatia segundo Adam Smith

Com o objetivo de investigar o papel das vítimas na literatura, em especial no romance oitocentista, vou apresentar alguma fundamentação teórica. Quando falo aqui em vítimas, estou falando em vítimas de perseguição injusta ou imerecida. É peculiar que esse tipo de protagonista tenha ganhado o primeiro plano: Jean Valjean e o corcunda de Notre Dame são heróis muito diferentes de Aquiles, de Ulisses, ou mesmo dos cavaleiros da Távola Redonda.

O romance dos fins do século XVIII e do começo do século XIX é marcado pelo sentimentalismo, que me parece (enfatizo o “parece”: é uma hipótese que venho investigando) o momento em que a perspectiva da vítima injustiçada se fixa definitivamente na literatura ocidental. Não que haja originalidade nisso; Aristóteles já tinha discutido essa possibilidade na Poética, mas deixarei a citação para o próximo texto da série. Por ora, fiquemos no sentimentalismo que veio associado ao iluminismo.

A simpatia segundo Adam Smith

O filósofo iluminista escocês Adam Smith (1723–1790) é conhecido como pai filosófico do capitalismo por ter publicado Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações em 1776, ano da independência do país capitalista arquetipal: os Estados Unidos. Certas passagens deslocadas, fora de contexto, fizeram de Smith, no imaginário popular, uma espécie de profeta do egoísmo.

Nada mais distante das intenções originais do escocês. A Riqueza das Nações deve ser entendida à luz de uma obra sua anterior, A Teoria dos Sentimentos Morais, publicada em 1759.1 O livro inicia-se com nada menos do que uma frase que minimiza o papel do egoísmo:

Por mais egoísta que se possa supor que seja o homem, há evidentemente alguns princípios em sua natureza que fazem com que ele se interesse pela ventura alheia, e tornem a felicidade dos outros necessária para ele, mesmo que ele nada obtenha dela além do prazer de vê-la. (p. 9)

Smith fala em “alguns princípios”, e logo começa a depurá-los para chegar a um dos princípios-chaves de A Teoria dos Sentimentos Morais, sobre o qual versa toda a primeira parte da obra: sympathy.

Antes de traduzir sympathy por simpatia, termo que iremos preferir, vale observar que Smith usa sympathy de maneira intercambiável com fellow feeling, termo ambíguo cuja definição, mesmo constando em diversos dicionários ingleses, como o Oxford e o Merriam-Webster, sempre começa com a palavra sympathy. No American Oxford, por exemplo, temos: “sympathy and fellowship existing between people based on shared experiences or feelings” [“simpatia e associação que há entre pessoas baseada em experiências ou sentimentos compartilhados”].

Mais interessante é que, se quisermos ir à origem grega da palavra sympathy e buscarmos συμπάθεια (sympátheia) no dicionário grego-inglês Liddell-Scott, a primeira definição que encontramos é… fellow feeling.

Fellow feeling é uma expressão difícil de traduzir por sua ambiguidade. Pode significar tanto “sentimento semelhante” quanto “sentimento por um semelhante”. Os dois sentidos se completam na medida em que o fellow feeling ou a simpatia surgem sempre na relação com um semelhante. Não se trata nunca de comparar dois sentimentos de duas pessoas que não tenham uma relação entre si, mas sempre de verificar a semelhança do sentimento dentro da relação. A definição de συμπάθεια dada pelo dicionário Bailly Abrégé, “communauté de sentiments ou d’impressions” [“comunhão de sentimentos ou de impressões”] de certo modo confirma isso.

Como se forma a sympathy ou fellow feeling? Diz Smith:

Como não temos experiência imediata daquilo que outras pessoas sentem, só podemos formar uma ideia da maneira como elas são afetadas imaginando aquilo que nós mesmos sentiríamos numa situação semelhante. (p. 9)

Após dar essa explicação, Smith propõe vários exemplos, todos ligados a alguma espécie de sofrimento, e salienta que não é preciso fazer um esforço concentrado para sentir sympathy. Basta ver alguém padecendo algo, como uma vergastada no braço, para retrair o próprio braço.

Algumas linhas depois, Smith começa a ampliar o conceito:

Nossa alegria com o salvamento daqueles heróis de tragédias ou de romances que nos interessam é tão sincero quanto nossa aflição por seus infortúnios, e nosso fellow feeling com sua tristeza não é menos real do que o que temos com sua felicidade. Ficamos gratos para com aqueles amigos fiéis que não os desertaram no momento de suas dificuldades; e de bom grado acompanhamos seu ressentimento contra aqueles pérfidos traidores que os feriram, abandonaram ou enganaram. (p. 10)

E assim Smith propõe, após ter dado os exemplos de sofrimento e o exemplo da nossa relação com obras literárias, se não uma definição, ao menos um modo de usar o termo sympathy, que agora passaremos a traduzir sempre como “simpatia”:

Pena e compaixão são palavras apropriadas para significar nosso fellow feeling com a tristeza alheia. Simpatia, ainda que seu sentido fosse talvez originalmente o mesmo, agora pode, sem grande impropriedade, ser usada para denotar nosso fellow-feeling com qualquer paixão que seja. (p. 10)

Em português, dizemos “minhas simpatias” para designar condolências, palavra que, em suas raízes latinas, pareceria pura e simplesmente reproduzir o sentido do termo de origem grega. Além disso, hoje o termo “empatia” está em voga, e parece indicar algo mais próximo do que estamos discutindo, a “comunhão de sentimentos”.

Todavia, uma consulta ao Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa nos diz que empatia, apesar de, na terceira acepção, ser a “capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.”, só entrou no idioma em 1958. O dicionário Grand Robert diz que empathie só entrou no francês no século XX, e o American Oxford diz que empathy só surgiu no inglês no começo do mesmo século. Por outro lado, o Grand Robert data sympathie em 1420, e o American Oxford data sympathy nos fins do século XVI. Para nosso idioma, o Houaiss data “simpatia" em 1600, e logo na primeira acepção o vocábulo é definido como “afinidade moral, similitude no sentir e no pensar que aproxima duas ou mais pessoas”. A palavra “moral” obviamente nos aproxima de A Teoria dos Sentimentos Morais, e, a bem da verdade, é difícil detectar no verbete “empatia” algo que já não estivesse contido no verbete “simpatia”. Além disso, como não só o termo “empatia” parece ter ganhado força em teorias psicológicas contemporâneas, mas também desejamos ser fiéis a Adam Smith, preservaremos seu termo e utilizaremos “simpatia”, a fim de distinguir uma experiência que ainda não acabou de ser definida.

Smith continua a desenvolver a noção de simpatia explicando que:

Mesmo nossa simpatia pela tristeza ou pela alegria de outrem, antes que sejamos informados de sua respectiva causa, é sempre extremamente imperfeita. Reclamações genéricas, que nada expressam além da aflição de quem sofre, geram mais uma curiosidade em relação à situação, junto com uma certa disposição de simpatizar com a pessoa, do que qualquer simpatia efetivamente sensível. A primeira pergunta que fazemos é: o que te aconteceu? Até que isso seja resolvido, ainda que fiquemos desconfortáveis com a vaga ideia de seu infortúnio e, mais ainda, com torturar-nos sobre qual seja, nossa simpatia não é muito considerável.

A simpatia, portanto, não surge tanto da visão da paixão2 quanto da situação que a suscita. (p. 11)

Falta um último elemento para que tenhamos uma definição completa da simpatia segundo Adam Smith. Como a obra trata de filosofia moral, é inevitável discutir a aprovação e a justificação. No início do capítulo III deste primeiro livro, Smith explica:

Quando as paixões originais da pessoa em questão estão em perfeita concórdia com as emoções simpáticas do espectador, elas necessariamente parecem justas e devidas a este último, e adequadas a seus objetos; e, pelo contrário, quando, considerando o caso em seu seio, ele verifica que elas não coincidem com aquilo que ele sente, elas necessariamente lhe parecem injustas e indevidas, e inadequadas em relação às causas que as suscitam. Aprovar as paixões alheias, portanto, como adequadas a seus objetos, é a mesma coisa que observar que simpatizamos inteiramente com elas; e não aprová-las enquanto tais é a mesma coisa que observar que não simpatizamos inteiramente com elas. (p. 16)

Smith usa neste trecho um termo importante, espectador, já subentendido num dos trechos citados acima, em que falava da ventura dos heróis de tragédias e romances. O espectador precisa então estar de acordo com a proporção da paixão que observa no sujeito paciente, seja ele uma pessoa real ou um personagem de ficção; mais ainda, a simpatia será tanto maior quanto maior for o conhecimento das causas que suscitaram essa paixão.

No capítulo IV, Smith menciona “objetos que se considera não ter qualquer relação peculiar conosco ou com os sentimentos da pessoa que julgamos” (p. 19), e que seriam, por exemplo, “a beleza de uma planície, a grandeza de uma montanha…” (p. 19), observando que consideramos que a pessoa possui as “qualidades do bom gosto e do bem julgar” (p. 19) quando a opinião dela concorda com a nossa. Um pouco mais adiante, afirma que, mesmo assim, somos afetados de maneiras diferentes pelas “várias aparências que a grande máquina do universo perpetuamente exibe” (p. 19), e que essa diferença vem “ou dos diferentes graus de atenção (…) ou dos graus diferentes da acuidade natural da faculdade da mente” (p. 19). Assim, para Smith, o comum da experiência é os homens serem afetados de maneira igual por certas experiências impessoais, e que não merece “louvor nem admiração” (p. 20) o homem que é afetado de maneira idêntica à maneira como somos afetados. Incomum, porém, é os homens serem afetados de maneiras diferentes, segundo o grau.

Mas quando eles [os sentimentos do outro] não apenas coincidem com os nossos, mas lideram e conduzem os nossos; quando, ao formá-los, ele parece ter cuidado de muitas coisas que negligenciamos, e tê-los ajustado a todas as várias circunstâncias de seus objetos, não apenas aprovamos esses sentimentos, mas nos maravilhamos, surpresos, diante de sua acuidade e abrangência incomuns e inesperadas, e ele parece merecer um grau altíssimo de admiração e de aplauso. (…) A decisão do homem que julga que a beleza invulgar é preferível à deformidade grosseira, ou que dois e dois são quatro, certamente há de ser aprovada pelo mundo inteiro, mas certamente não será muito admirada. É o discernimento agudo e delicado do homem de gosto, que distingue as diferenças mínimas e quase imperceptíveis da beleza e da deformidade (…) que suscita nossa admiração, e parece merecer nosso aplauso (…). (p. 20)

É o exemplo do “homem de gosto” que possui um “discernimento agudo e delicado” que nos faz pensar no ficcionista. É ele que é capaz de distinguir “diferenças mínimas e imperceptíveis” não apenas da beleza, mas também das situações capazes de gerar simpatia no espectador — ou no leitor. Como a simpatia aumenta com a percepção mais nítida das causas da paixão, maior será a simpatia do espectador diante de uma situação bem representada, em que o personagem age de maneira adequada e justificada em relação aos objetos, merecendo a aprovação do espectador.

Ou seja: se o leitor busca envolver-se com uma obra literária, essa obra precisa ser capaz de, despertando sua simpatia, ser capaz de manipular seus sentimentos.

Represente-se vividamente um episódio para despertar uma emoção vívida. Retarde-se o suspense (e aqui pensamos na descrição de Auerbach para o estilo homérico no primeiro capítulo de Mímesis) para prolongar as emoções. A tarefa do escritor que deseja conquistar o público nos faz pensar em Ulisses, também um contador de histórias que sempre desejava angariar a simpatia alheia. Após chegar a Ítaca, Ulisses diz-se apenas “um estrangeiro”, e hospeda-se na casa do porqueiro Eumeu. Penélope pede a Eumeu que fale sobre o estrangeiro, que teria muitas notícias a dar sobre o desaparecido Ulisses. E ele fala:

As coisas que ele diz! Enfeitiçará o teu querido coração.
Há três noites que ele está comigo; três dias passou comigo
no casebre, pois foi primeiro para junto de mim que chegou
quando fugiu da nau; mas não contou ainda as dores todas.
Ouvi-lo é olhar para um aedo, que para os mortais canta
palavras cheias de saudade, que os deuses lhe ensinaram,
e todos desejam ardentemente ouvi-lo, cada vez que canta —
assim o estrangeiro me enfeitiçou, sentado no meu casebre.3

A Odisseia conta a história de um homem que conta histórias e assim enfeitiça os corações alheios, angariando-lhes a simpatia. O astuto Ulisses não se apresenta diretamente, não faz uma mera enumeração de seus padecimentos. Em vez disso, fala durante “três dias” e mesmo assim não conta “as dores todas”. “E todos desejam ardentemente ouvi-lo, cada vez que canta” — todos desejam desfrutar desse prazer de vivenciar vicariamente as emoções de um personagem, narradas e descritas de maneira demorada, e não simplesmente apontadas.

Em outra obra, escrita milênios depois, o mesmo procedimento é narrado em maior detalhe, na qual o poder de manipulação do desejo da narrativa é, mais do que explicitado, absolutamente escancarado. Estamos falando de Otelo, de Shakespeare. Eis como o mouro, cercado pela assembleia dos anciãos da cidade, explica como conquistou Desdêmona, a filha do doge, ansiosa para acompanhá-lo na guerra (nossa tradução não pretende ser mais do que literal):

Seu pai me amava, e muitas vezes convidava-me,
perguntando-me sobre a história de minha vida,
sobre cada um dos anos; as batalhas, os sítios, as fortunas por que passei:
contei tudo, inclusive desde os dias de menino,
até o momento mesmo em que ele me fez contar,
e ao contar falei dos maiores desastres,
de acidentes que comovem, em terra e água;
de fugas por um triz na situação de morte iminente;
de ser preso pelo insolente inimigo;
e vendido como escravo, e redimido,
e de todas as minhas viagens desde então,
de lugares vastos, e desertos imóveis,
duras pedreiras, rochedos e montanhas, cujos topos tocam o céu,
esperava-se que eu falasse, era esse o processo:
e dos canibais, que se comem uns aos outros…4

Interrompemos aqui a explicação de Otelo por julgarmos que está claro que, por suas histórias, sua vida foi também uma verdadeira odisseia. Desdêmona sem dúvida gostaria de participar desse mundo. Otelo foi seu Ulisses: guerreiro e aedo.

Recordemos porém um detalhe que depois será importantíssimo, e que deve ser bem guardado: a simpatia do espectador, ouvinte ou leitor depende de ele aprovar um personagem que age de maneira que lhe pareça justificada, porque o ficcionista lhe apresentou nitidamente uma situação.


  1. SMITH, Adam (1759). The Theory of Moral Sentiments. Indianapolis: Liberty Fund, 1982.

  2. Preferimos traduzir o inglês “passion” por “paixão” não apenas para preservar a raiz, mas para preservar o sentido daquilo que é padecido, sofrido, sentido.

  3. HOMERO. Odisseia. Trad. Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2003, p. 289 (Canto XVII, versos 514–21).

  4. SHAKESPEARE. Othello. Arden Second Series, 1984. Ato I, Cena 2, versos 128–143.

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