Miméticos

Um blog sobre René Girard e a teoria mimética

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Prudentes como serpentes

Espertos como Serpentes

Espertos como Serpentes

por Victor Sales Pinheiro

(Publicado no Jornal O Liberal, em 21/02/2016)

Espertos como Serpentes – Manual de Sobrevivência no Mercado de Trabalho (Ed. É Realizações) é um livro peculiar, intrigante e transformador. Na melhor tradição de Aristóteles, a obra propõe uma reflexão ética sobre a racionalidade das ações no cotidiano das relações sociais, tomando o universo corporativo como metonímia de grupos relativamente fechados e autônomos, como a família, a universidade e o escritório, em que a cooperação se vê ameaçada pela competição e confusão dos papeis hierárquicos de comando e obediência. Mas o aspecto inovador dessa abordagem não é apenas a renovação da ética clássica das virtudes aplicada ao cotidiano profissional – o que A. Havard também realiza com excelência em Virtudes e Liderança – a Sabedoria das Virtudes Aplicada ao Trabalho (Ed. Quadrante) —, mas a articulação com a teoria mimética de René Girard, cujos conceitos fundamentais de “desejo mimético” e “bode expiatório” são explorados para elucidar o “complexo de gestão”, que torna a relação funcionário-chefe problemática, assim como o mecanismo de culpabilização pela “fofoca”, como administração invejosa de crédito e culpa.

Marcado pela linguagem coloquial e exemplos da cultura norte-americana corrente, o livro apresenta uma ética experimental, aplicável e acessível ao público leigo. Contudo, engana-se quem pensa que se trata de mais um volume que grassa o gênero “autoajuda”, baseado no “pensamento positivo” (“wishful thinking”) e na busca do sucesso individual. Na verdade, o livro se apropria do apelo direto e da aparente superficialidade da “autoajuda” motivacional para apresentar uma articulada teoria antropológica da origem imitativa do desejo humano e da culpabilização alheia como falta de reconhecimento da participação no papel do acusador, como diagnóstico da causa do conflito social em geral. Como terapia moral, a obra propõe a sabedoria da tradição monástica milenar, baseada na dimensão de autoconhecimento e autocontrole franqueada pelo trabalho.

Principal contribuição do livro, o “complexo de gestão” é a “doença” que distorce a relação triangular de funcionário-chefe-trabalho. Num primeiro momento, o chefe é o modelo a ser imitado, o tutor que orienta e determina o trabalho. Porém, com o aprendizado e a progressiva conquista da independência do funcionário, o chefe torna-se o seu “modelo-obstáculo” de crescimento e autonomia, emitindo ordens ambíguas, como “tome iniciativa” e “não passe por cima de mim, não faça nada sem que eu o autorize”. Se o funcionário incompetente prejudica o chefe, o excepcional e superprodutivo pode ameaçar a sua autoridade profissional, ou a imagem superior que forjou de si pelo posto que ocupa na hierarquia do trabalho. A equação dessa tensão depende do tenso equilíbrio entre os extremos: delegação demais gera descontrole, e gestão excessiva sufoca. Invariavelmente, haverá dissonâncias, atropelos e ressentimentos nessa relação complexa, sobretudo pela cadeia de “complexos de gestão” justapostos numa empresa.

Diante da inevitável frustração de uns pelo sucesso de outros, ativa-se o “mercado negro” de informações, despontando espontaneamente os rumores e a fofoca no ambiente de trabalho. Esta é considerada “a moeda da culpa e do crédito”, capaz de movimentar os pólos da utilidade e visibilidade que aguçam a rivalidade dos funcionários entre si e com chefes. Ora, como a satisfação geral é raramente alcançada, o frustrado considera-se vítima e torna-se acusador, sacrificando um “bode expiatório”, supostamente responsável pelo seu fracasso. Denegrir a imagem e o capital social de um rival bem-sucedido confere coesão a um grupo de invejosos ressentidos, reunidos em torno da desmistificação de um “ídolo”.

A terapia do “complexo de gestão” e da culpabilização alheia é “o ascetismo social” dos monges, que desvinculam o valor do trabalho do reconhecimento público que ele promove, concentrando-se na dimensão moral de exercício das virtudes da constância, fortaleza, humildade e cooperação. Na ética católica, que os autores relacionam com a penetrante análise de Tomás de Aquino sobre a lei natural, na Suma Teológica, o trabalho constitui uma tríade inseparável de sobrevivência, sucesso e serviço, isto é, uma satisfação das necessidades materiais, uma forma de autorrealização e uma contribuição para o bem comum. O “atletismo espiritual” do trabalho é converter toda a energia de competição e rivalidade para a admiração positiva dos modelos e a autossuperação a serviço dos outros.

O título e a epígrafe do livro remetem à aparente ambiguidade do ensinamento de Cristo, ao exortar seus discípulos, enviados como ovelhas entre lobos, a serem “prudentes como as serpentes e inocentes como as pombas” (Mt 10,16). Sem inocência, a prudência torna-se esperteza, malícia e ardil; sem prudência, a inocência torna-se ingenuidade e fragilidade.

Grote e McGeeney escreveram uma obra lúcida, para que o homem do século XXI aprenda a conquistar o sucesso profissional sem aderir ao cinismo, redescobrindo a sabedoria da tradição cristã.

Victor Sales Pinheiro é doutor em Filosofia e professor do ICJ-UFPA.

A ética da caridade universal

por Victor Sales Pinheiro

Publicado no jornal O Liberal (Belém do Pará) em 20/12/2015

Jesus de Nazaré é o homem mais influente, estudado e discutido da história humana. Sobre o filho de Maria, escreve-se, ainda hoje, acerca de todos os temas possíveis. Mesmo quando insuspeitada, a influência do cristianismo se faz sentir em todo o globo, não só por ser a maior religião do mundo, com os mais de 2,3 bilhões de fiéis que celebram o Natal como a encarnação da Palavra de Deus, mas por ser o fundamento histórico da noção da dignidade do homem, criatura plasmada à imagem e semelhança do criador, que atualmente inspira a promoção universal dos direitos humanos. É o que demonstra a instigante obra de René Girard, certamente um dos maiores pensadores do nosso tempo. O mérito desse escritor francês, recentemente falecido, é ter desafiado o isolamento das ciências humanas com uma teoria transdisciplinar que explora saberes como a antropologia, a sociologia, a psicologia, a história, a literatura e a religião.

Superando o dogma do relativismo das ciências sociais do seu tempo, que tendem a equipar as religiões num plano horizontal de indiferença pelo risco do etnocentrismo, o Girard antropólogo dedica-se à compreensão integrada da constituição da cultura humana a partir de sua matriz religiosa: a configuração ritual do “sagrado” capaz de reunir a sociedade pelo mecanismo do bode expiatório, que concentra a violência antes generalizada no sacrifício de uma única vítima, reunindo os homens em torno do membro excluído. Pelo efeito apaziguador catártico, que suspende a guerra de todos contra todos e permite a sobrevivência do grupo, essa vítima sacrificada é sacralizada, divinizada. A partir da origem violenta e sacrificial da sociedade, diferenciam-se “os mitos” não-cristãos, que ocultam esse mecanismo expiatório, da “revelação cristã”, que o expõe por ser narrado na perspectiva da vítima, o cordeiro imolado que é Jesus.

Esse binômio antropológico “mito” e “revelação” remonta à diferença psicológica entre “mentira romântica e verdade romanesca”, título da obra inaugural de Girard, uma penetrante análise humanista de clássicos modernos como Cervantes, Flaubert, Dostoiévski e Proust, em que intui a tese fundamental da teoria mimética: o desejo humano nunca é espontâneo e autônomo, mas derivado da “imitação” (“mímesis”) do desejo de um modelo-mediador.

Como demonstra a Biblioteca Girard, da ed. É, o seu legado é extenso, contando com mais de trinta títulos publicados no Brasil, incluindo comentadores. Uma estimulante introdução à teoria mimética encontra-se em “Eu via Satanás cair como um relâmpago” (ed. Paz e Terra), obra sobre a singularidade do cristianismo, sua origem judaica e distinção do paganismo. Girard não apela à fé do leitor, mas realiza uma apologética no sentido clássico de “defesa” racional da doutrina de Cristo, com argumentos antropológicos e históricos. Ora, a natureza imitativa do desejo humano desponta na compreensão psicológica do último mandamento do Decálogo, que proíbe não uma “ação”, mas um “desejo”, o de cobiçar um bem do próximo, seja sua casa, mulher, escravo ou boi. O desejo reciprocamente incitado pelas mesmas coisas deflagra uma violenta competição dos homens entre si. Imitador e mediador de Deus-Pai que o enviou, Cristo interrompe essa rivalidade mimética não pela proibição dos objetos desejados, mas por se oferecer como modelo de caridade, compaixão, renúncia e perdão que torna os homens conscientes e resistentes à atração do desejo agressivo da inveja, ciúme, revanche e ódio.

Ao revelar a inocência de Jesus, os Evangelhos neutralizam o mecanismo sacrificial do bode expiatório e inauguram o período histórico do cuidado das vítimas anteriormente alijadas pela sociedade, fundando, nas dependências da Igreja, instituições caritativas como o hospital, o hôtel-Dieu que alberga os desamparados, doentes, estrangeiros, pobres, viúvas e órfãos, os “irmãos pequeninos” em que Cristo se faz presente (Mt.25:40). Segundo Girard, a Igreja acolhe a “vítima em si”, independentemente da identidade étnico-religiosa, sexual ou político-econômica, cuja “estranheza” supostamente legitimaria sua exclusão purificadora para a unificação da sociedade. Pautado na ética da caridade universal, na qual todos, sem exceção, somos filhos do mesmo e único Deus, o cristianismo aboliu as diferenças que antes assinalavam os bodes expiatórios: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gálatas 3, 28).

Assim como as religiões arcaicas, o cristianismo faz dos excluídos sua pedra angular, mas em sentido inteiramente novo: a “exclusão” deixa de ser o princípio de produção do sagrado para que o próprio sagrado, Cristo, seja o princípio da “inclusão”. É o projetar-se para o outro que funda a nova ética da comunhão, no lugar do projetar o outro para fora de si, expurgando-o da sociedade. Ao proteger as vítimas, o cristianismo não promove o contra-ataque dos fracos contra os fortes, das minorias oprimidas contra as maiorias opressoras, pois isso inverteria o mecanismo, acirrando a rivalidade de acusações recíprocas. A superação da violência não passa pela vitimização e revolta contra o acusador, mas pelo reconhecimento pessoal de cada homem como perseguidor potencial. Ao desencorajar atirar a primeira pedra condenatória, que deflagra o linchamento coletivo, Cristo desperta a consciência e responsabilidade moral do indivíduo diante do próximo, seu irmão.

Dois milênios ainda não foram suficientes para assimilar a dimensão revolucionária do cristianismo, processo histórico em curso, que depende da renúncia individual à rivalidade pela conversão à autoacusação e confissão da própria culpa. Girard convida a refletir sobre nosso caminho civilizacional, questionando o modelo que inspira nossos desejos.

*Victor Sales Pinheiro é doutor em Filosofia e professor do ICJ-UFPA.

Email: vvspinheiro@yahoo.com.br

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